Treze vitórias, quatro empates e apenas quatro derrotas. Esse é o retrospecto do Bolívar no Estádio Hernando Siles, em La Paz, contra clubes brasileiros — e é diante desse cenário que o Fluminense entra em campo nesta quinta-feira (30), às 19h (horário de Brasília), pela terceira rodada do Grupo C da Copa Libertadores. O Tricolor das Laranjeiras chega pressionado: um empate em 0 a 0 com o La Guaira e uma derrota por 2 a 1 para o Independiente Rivadavia, em casa, tornam a vitória não apenas desejável, mas praticamente obrigatória para o clube continuar com chances reais de classificação.

A estratégia para driblar a altitude

A 3.600 metros acima do nível do mar, La Paz impõe um desafio fisiológico que vai muito além da qualidade técnica do adversário. O ar rarefeito reduz a capacidade de absorção de oxigênio, acelera a fadiga muscular e pode provocar o chamado "mal agudo da montanha" — conjunto de sintomas que inclui dor de cabeça intensa, náuseas e vômitos. Para minimizar esses efeitos, o departamento médico do Fluminense estruturou um protocolo de exposição gradual à altitude: a delegação viajou na quarta-feira (29) para Santa Cruz de la Sierra, cidade boliviana localizada a apenas 400 metros acima do nível do mar, e só partiu para La Paz na manhã desta quinta, poucas horas antes do apito inicial.

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A lógica médica por trás da decisão é consolidada na literatura esportiva: os sintomas do mal agudo da montanha tendem a se agravar entre 24 e 72 horas após a chegada à altitude elevada. Ao reduzir o tempo de exposição ao máximo, a comissão técnica aposta que os jogadores sofrerão menos no aspecto físico durante os 90 minutos. Na avaliação do SportNavo, trata-se de uma abordagem racional e coerente com protocolos adotados por seleções nacionais em partidas realizadas na Bolívia — embora sua eficácia isolada nunca seja garantia de resultado, especialmente contra um adversário tão adaptado ao seu próprio terreno.

Desfalques e a equipe escolhida por Zubeldía

O técnico Luis Zubeldía não pôde contar com três peças importantes para montar seu time ideal. Lucho Acosta, Martinelli e Paulo Henrique Ganso ficaram fora por razões físicas, forçando o treinador a recalibrar o meio-campo. A escalação definida foi: Fábio; Guga, Ignácio, Freytes e Renê; Bernal, Hércules e Savarini; Canobbio, Serna e Castillo. O volante Hércules, que vem em boa fase individual, foi um dos que falou sobre as exigências da partida antes do jogo.

"Estou muito feliz pelo momento individual, podendo ajudar a equipe, mas sempre com os pés no chão, com humildade. Sabemos da dificuldade do jogo, mas o grupo está bem confiante e focado para fazer uma grande partida. Precisamos ficar mais tempo com a bola para evitar o desgaste e buscar finalizar", disse Hércules à FluTV.

A declaração do volante revela a diretriz tática central para a partida: posse de bola como ferramenta de controle do esforço físico. Circular a bola no campo adversário é, em La Paz, uma estratégia tanto técnica quanto metabólica — quem corre menos, sofre menos com o oxigênio escasso.

O que o histórico revela sobre o Hernando Siles

Dos 21 confrontos registrados entre o Bolívar e clubes brasileiros no Hernando Siles, apenas o Palmeiras (duas vezes), o Internacional e o Grêmio conseguiram sair com vitória. O Flamengo, por exemplo, perdeu três das quatro vezes que esteve em La Paz — incluindo derrotas em 2024 e 2023. O Athletico-PR foi goleado por 3 a 1 em 2023. Mesmo com toda a tradição das equipes visitantes no futebol sul-americano, o ambiente boliviano funciona como um equalizador brutal de forças.

O levantamento feito pelo SportNavo sobre a tabela do Grupo C mostra que a situação do Fluminense é delicada: o Independiente Rivadavia lidera com seis pontos e 100% de aproveitamento, enquanto o La Guaira aparece em segundo com dois pontos. Flu e Bolívar estão empatados com um ponto cada. Uma derrota desta noite praticamente compromete a sequência tricolor na competição.

O peso financeiro de cada resultado

Cada vitória na fase de grupos da Libertadores rende US$ 340 mil (cerca de R$ 1,7 milhão) ao clube. O simples fato de avançar às oitavas de final já garante US$ 1,25 milhão adicionais — R$ 6,5 milhões. O prêmio para o campeão chega a US$ 25 milhões, equivalente a R$ 130,5 milhões. Esses valores tornam cada decisão estratégica — inclusive a logística de viagem e aclimatação — parte de um cálculo que vai muito além do campo.

"Precisando vencer, o Tricolor entra em campo pressionado depois de empatar em 0 a 0 com o La Guaira na estreia e perder por 2 a 1, em casa, para o Independiente Rivadavia. A situação na tabela liga o alerta, já que um novo tropeço pode complicar a vida da equipe de Zubeldía na competição", apontou a ESPN Brasil antes do confronto.

Se o Fluminense vencer esta noite no Hernando Siles, chegará a quatro pontos e entrará de vez na briga pela classificação, além de se tornar apenas o quinto clube brasileiro a bater o Bolívar em La Paz. A próxima rodada do Grupo C está prevista para a semana seguinte, quando o Tricolor volta a jogar em casa, no Maracanã, com a necessidade de transformar a altitude boliviana em trampolim — e não em epitáfio — para sua campanha continental.