Falhou. E não foi por falta de oportunidade — foi por incapacidade de aproveitá-las. O Fluminense controlou trechos do duelo contra o Internacional no Beira-Rio, na noite de domingo (3), pela 14ª rodada do Brasileirão 2026, mas saiu de Porto Alegre com um placar que não admite argumentação: 2 a 0, com gols de Bernabei, ainda no primeiro tempo, e Alerrandro, logo no início da etapa final. Dois chutes, dois gols. A lógica cruel de quem converte o que o adversário desperdiça.

A cena

Há um detalhe que Savarino mencionou no vestiário que resume a noite do Fluminense com precisão cirúrgica: uma bola na trave. Esse milímetro de diferença entre o gol que poderia ter mudado o jogo e o vazio que se seguiu é, talvez, a imagem mais honesta do que o time de Zubeldía tem produzido. O atacante venezuelano reconheceu o que o placar já dizia.

RESUMEN | GUAVIARE BS (COL) VS. CEILANDIA FC (BRA) 4 (1) x (3) 4 | CONMEBOL LIBERTADORESFP 2025
A cena Fluminense cria, não marca e paga caro n
A cena Fluminense cria, não marca e paga caro n
"No futebol, quem é mais efetivo no ataque acaba vencendo, e hoje eles foram melhores nesse aspecto", afirmou Savarino após a partida.

Não há muito o que contestar nessa leitura. O Internacional foi contundente nas primeiras oportunidades que criou — e isso, numa noite em que o Fluminense tinha posse e construção de jogo, é suficiente para determinar quem sai com três pontos. O árbitro Felipe Fernandes de Lima ainda puniu Jemmes com cartão amarelo aos 27 minutos do primeiro tempo — o terceiro do zagueiro na competição, o que o torna desfalque certo contra o Vitória, no sábado (9), no Maracanã.

O contexto que explica

Há uma armadilha intelectual fácil de cair aqui: dizer que Zubeldía simplesmente não sabe montar um time ofensivo. O contra-argumento tem alguma sustentação — o Fluminense chegou a figurar no G-4 do Brasileirão em rodadas anteriores nesta temporada, e o técnico argentino demonstrou ao longo de sua carreira em Lanús e Racing capacidade de construir equipes verticais. O problema é que os dados da partida de domingo contradizem essa defesa. Zubeldía admitiu publicamente que o time teve controle da bola sem transformar isso em chances claras, especialmente no primeiro tempo.

"No primeiro tempo, faltou profundidade. Até o gol, tínhamos controle da bola e do jogo. Mas não conseguimos transformar isso em chances claras", declarou o treinador em entrevista coletiva. A escolha pelo esquema com três zagueiros — Jemmes, Millan e Freytes — foi justificada pelo próprio Zubeldía como uma consequência de limitações físicas no elenco, com Hércules e o próprio Savarino sendo poupados por acúmulo de partidas. Em outras palavras: a formação não foi uma escolha tática plena, foi uma adaptação por necessidade. E adaptações por necessidade raramente geram o melhor futebol possível.

"Quando você monta um sistema porque não tem outra opção, você está gerenciando a crise, não resolvendo o problema", observou um comentarista esportivo presente na coletiva após o jogo.

A análise do SportNavo mostra que esse padrão — posse elevada sem profundidade ofensiva — tem aparecido com frequência nos jogos do Fluminense fora de casa em 2026. O time de Zubeldía tende a recuar o bloco médio quando perde a bola em campo adversário, o que diminui a pressão sobre o goleiro rival e dá tempo para que defesas organizadas se recomponham. O Internacional, especificamente, explorou exatamente esse espaço entre a linha de meio-campo e a defesa tricolor para lançar Alerrandro no segundo gol.

As implicações imediatas

O calendário não dá trégua. Na quarta-feira (6), às 21h30, o Fluminense enfrenta o Independiente Rivadavia, em jogo de vida ou morte pela quarta rodada da fase de grupos da Libertadores. O Tricolor é o último colocado de seu grupo, com apenas um ponto em três jogos — enquanto os argentinos lideram com nove pontos. Uma derrota praticamente encerra qualquer esperança de classificação para as oitavas da competição continental.

Para o jogo contra o Vitória, no Maracanã no sábado (9), a ausência de Jemmes força Zubeldía a uma recalibração defensiva. A tendência, segundo o próprio técnico, é que Ignácio ocupe a vaga no esquema de três zagueiros — caso o treinador mantenha a formação. Alisson e Serna também receberam cartão amarelo contra o Internacional, mas não estavam pendurados e seguem disponíveis.

A questão central não é quem vai jogar na zaga. A questão central é o que o Fluminense vai fazer com a bola quando a tiver — e como vai transformar o domínio territorial em gols. Zubeldía sabe disso. Savarino sabe disso. O próprio placar de 2 a 0, construído com dois chutes efetivos do Internacional, é o argumento mais eloquente que existe. Conforme apurado pelo SportNavo, o Tricolor tem duas janelas de resposta nos próximos seis dias: a Libertadores na Argentina na quarta e o Brasileirão no Rio no sábado. Perder ambas seria o início de uma crise com prazo de validade muito curto.