Seis estrangeiros titulares, um técnico argentino no banco e mais dois reforços de fora do país aguardando recuperação na enfermaria. O Fluminense que entrou em campo contra a Chapecoense neste domingo, pela 13ª rodada do Brasileirão, apresentou um ataque completamente internacional: o argentino Castillo como centroavante, o uruguaio Canobbio pela direita, o colombiano Serna pela esquerda e o venezuelano Savarino no comando da criação. Nenhum brasileiro sequer chegou perto da área adversária naquela formação inicial.

A escalação que expõe um modelo

Luis Zubeldía, técnico argentino contratado pelo Flu, armou a equipe com seis estrangeiros no time titular: além do quarteto ofensivo, o volante uruguaio Facundo Bernal e o zagueiro argentino Freytes completaram a lista. No banco, o colombiano Millán e o venezuelano Soteldo aguardavam sua chance. Fora de campo por lesão, Germán Cano — argentino — e Lucho Acosta também engrossam o contingente estrangeiro. Ao todo, são pelo menos dez jogadores de fora do Brasil no elenco, sem contar o próprio treinador.

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Há quem defenda que a presença de estrangeiros eleva o nível técnico do futebol brasileiro. O argumento tem alguma base: contratações como a de Cano, artilheiro histórico do Fluminense com mais de 100 gols pelo clube, ou de Savarino, um dos melhores jogadores do Brasileirão em 2024, mostram que nem todo estrangeiro é aposta de risco. O problema não está em contratar jogadores de fora — está na proporção que o Flu atingiu.

Quando a internacionalização vira dependência

Conforme levantamento do SportNavo, nenhum outro clube entre os dez primeiros do Brasileirão chega perto do número de estrangeiros titulares regulares que o Fluminense apresenta nesta temporada. Palmeiras, Botafogo e Atlético Mineiro, times que disputaram finais de Libertadores recentemente, mantêm núcleos brasileiros sólidos e usam estrangeiros de forma pontual, não estrutural. O Flu inverteu essa lógica: o estrangeiro deixou de ser o reforço e passou a ser o padrão.

A escalação que expõe um modelo Fluminense escala ataque 100% estrangeir
A escalação que expõe um modelo Fluminense escala ataque 100% estrangeir

O reflexo disso aparece no financeiro. Contratos em dólar e euro, somados a direitos de imagem negociados fora do país, pressionam o caixa de um clube que ainda carrega dívidas históricas. Segundo dados divulgados pelo próprio clube em suas demonstrações financeiras, o Fluminense encerrou 2023 com dívida líquida superior a R$ 900 milhões — e a folha salarial com moeda estrangeira indexada é um componente que agrava a volatilidade desse passivo a cada oscilação do câmbio.

"Nas palavras do técnico Zubeldía, o objetivo é construir um elenco competitivo independentemente da nacionalidade dos jogadores — mas a concentração de estrangeiros em posições criativas levanta questões sobre o desenvolvimento interno do clube."

O custo para a base e para o futebol brasileiro

O Fluminense foi historicamente um celeiro de talentos nacionais. Thiago Silva, Deco, Conca e, mais recentemente, André — vendido ao Wolverhampton por 20 milhões de euros em 2023 — saíram das Laranjeiras. O risco do modelo atual é sufocar esse pipeline. Quando o elenco principal tem dez estrangeiros disputando espaço, a janela para que jovens da base avancem para o profissional se estreita de forma objetiva: há simplesmente menos vagas disponíveis.

A análise do SportNavo mostra que o Fluminense subiu apenas dois atletas da base para o elenco profissional com minutos expressivos no Brasileirão 2025, enquanto a média dos dez primeiros colocados é de quatro revelações utilizadas com regularidade. Não é coincidência — é consequência direta de um plantel internacionalizado ao extremo.

"Segundo fontes ligadas à diretoria tricolor, a estratégia de buscar jogadores estrangeiros se intensificou após o título da Libertadores em 2023, com a lógica de manter o clube competitivo na América do Sul sem depender exclusivamente do mercado interno brasileiro, que apresenta inflação de salários e dificuldade crescente de retenção de talentos."

Que resultado essa aposta está gerando

Contra a Chapecoense, o Fluminense entrou em campo a nove pontos do líder Palmeiras, que venceu o Bragantino por 1 a 0 fora de casa na mesma rodada. Considerando que o clube tem o maior número de estrangeiros entre os times do Brasileirão, a distância para o topo da tabela é um indicador que merece atenção. A internacionalização do elenco, por si só, não está se traduzindo em desempenho superior — e esse é o argumento mais difícil de refutar para quem defende o modelo atual.

O Fluminense volta a campo pela 14ª rodada do Brasileirão na próxima semana, com a pressão de encurtar a distância para o pelotão da frente. Se o ataque 100% estrangeiro não apresentar evolução nos números — o time marcou apenas dois gols nos últimos três jogos — Zubeldía terá dificuldades para justificar uma folha salarial que, pela composição cambial, é uma das mais caras do futebol nacional.