O silêncio dentro do ônibus que deixou o Beira-Rio na noite de domingo disse mais do que qualquer coletiva. O Fluminense acabou de perder por 2 a 0 para o Internacional, pela 14ª rodada do Brasileirão, com uma equipe alternativa em campo — aposta deliberada do técnico Luis Zubeldía para preservar titulares antes do duelo mais importante da temporada. Na quarta-feira (6), às 21h30min (horário de Brasília), o Tricolor visita o Independiente Rivadavia, no Estádio Malvinas Argentinas, em Mendoza, numa partida que, para efeito prático, equivale a uma eliminatória.

O que dizem os envolvidos

Zubeldía não tentou distribuir culpa. Na coletiva pós-jogo em Porto Alegre, o argentino foi direto ao ponto: o time está fragilizado, e a responsabilidade é dele.

"Estamos em um momento vulnerável, difícil pelo calendário e porque não conseguimos resultados que gostaríamos. Eu sou o responsável, não estou me lamentando. Como equipe, temos que corrigir para não sermos tão vulneráveis"
— disse o treinador, que acumula apenas duas vitórias nos últimos nove jogos com o Fluminense.

O que dizem os envolvidos Fluminense joga sua Libertadores inteira
O que dizem os envolvidos Fluminense joga sua Libertadores inteira

O meia-atacante Savarino, que entrou no segundo tempo contra o Inter e foi um dos poucos a elevar o nível da equipe, apontou a falta de eficiência como nó central do momento.

"Tivemos chances para fazer gols, teve um chute meu no travessão e outra com o Serna cara a cara com o goleiro. Se fizéssemos um gol, poderíamos ter tido oportunidades de empatar. O time que é mais contundente no ataque sempre ganha o jogo"
— declarou o venezuelano ao SporTV. Em seguida, cobrou o coletivo sem meias palavras:
"Temos que melhorar muito tanto na defesa quanto no ataque. Temos um jogo importante na Libertadores"
.

Do lado do Rivadavia, o técnico Alfredo Berti optou por poupar todos os titulares no empate por 1 a 1 contra o Aldosivi no Campeonato Argentino, domingo passado — estratégia ainda mais radical do que a adotada pelo Fluminense. O gesto confirma que o time de Mendoza leva a Libertadores a sério e chega ao duelo de quarta com o elenco principal descansado.

O que dizem os números

A tabela do Grupo C é, no mínimo, constrangedora para um clube que foi campeão da Libertadores em 2023. O Rivadavia lidera com nove pontos e 100% de aproveitamento em sua estreia histórica na competição. O Bolívar aparece em segundo com quatro pontos, o Deportivo La Guaira tem dois, e o Fluminense fecha a chave com apenas um — fruto de um único empate em três rodadas.

A análise do SportNavo sobre o desempenho fora de casa do Tricolor em 2026 revela um dado que tensiona ainda mais o cenário: o time acumula três jogos consecutivos sem marcar como visitante, sequência que inclui a eliminação parcial diante do Operário na Copa do Brasil, a derrota para o Bolívar pela Libertadores e o tropeço no Beira-Rio. A última vez que o clube registrou sequência negativa semelhante foi em 2025, quando ficou quatro partidas seguidas em branco fora de casa, contra Vasco, Ceará, Cruzeiro e Palmeiras.

Kevin Serna, vice-artilheiro do Fluminense em 2025 com 13 gols e segundo também nesta temporada com cinco tentos, vive seu maior jejum desde que chegou ao clube: 17 partidas sem balançar as redes. O último gol do atacante colombiano foi no clássico contra o Vasco pelo Campeonato Carioca, em 22 de janeiro. Sua única participação decisiva desde então foi uma assistência na vitória por 3 a 1 sobre o Corinthians, em 1º de abril. Seria injusto chamar esses quatro meses de era — mas é uma era em escala doméstica para quem precisa ser decisivo agora.

No Brasileirão, o Fluminense soma 26 pontos em 14 rodadas, sete atrás do líder Palmeiras e um abaixo do segundo colocado Flamengo, que empatou no fim de semana. A derrota para o Inter custou a chance de encostar nos primeiros colocados numa rodada em que os rivais diretos não venceram.

O que digo eu sobre o quadro

A matemática da Libertadores ainda não fechou a porta do Fluminense, mas exige uma sequência que o time, até aqui, não demonstrou capacidade de encadear. Uma vitória em Mendoza deixa o Tricolor com quatro pontos e o mantém vivo, desde que Bolívar e La Guaira não ampliem a vantagem nos jogos restantes. O problema é que a conta depende de um desempenho fora de casa que simplesmente não existe nesta temporada — três jogos, zero gols marcados como visitante.

A decisão de poupar titulares contra o Internacional foi defensável do ponto de vista de gestão de elenco, mas o preço simbólico foi alto: o Fluminense perdeu pontos no Brasileirão e chegou ao jogo mais importante do semestre carregando uma derrota por 2 a 0 no currículo recente. Zubeldía apostou todas as fichas em Mendoza. Se a aposta falhar, o clube entra nas rodadas finais do Grupo C sem margem para erro e com um treinador que já admitiu publicamente a vulnerabilidade do momento.

O Rivadavia, por sua vez, não é um adversário subestimável por acidente de percurso. O clube lidera o Grupo B do Campeonato Argentino com 34 pontos, cinco à frente do River Plate, e chega ao confronto com a melhor campanha geral da competição doméstica. Poupar todos os titulares no fim de semana e ainda empatar fora de casa é o retrato de um elenco com profundidade e um técnico que sabe o que está fazendo. O Fluminense vai precisar de muito mais do que um dia inspirado para sair de Mendoza com os três pontos — vai precisar de uma versão que ainda não apareceu em 2026.

Independiente Rivadavia x Fluminense acontece na quarta-feira (6), às 21h30min, no Estádio Malvinas Argentinas, em Mendoza, com transmissão pela TV Globo, ESPN e Disney+. Uma derrota elimina matematicamente o Tricolor das oitavas de final antes mesmo da metade da fase de grupos.