Um ponto em três jogos, lanterna do Grupo C e um calendário que exige perfeição: essa é a realidade do Fluminense na Copa Libertadores após a derrota por 2 a 0 para o Bolívar, no Estádio Hernando Siles, em La Paz, nesta quinta-feira. A 3.650 metros de altitude, o Tricolor foi superado em quase todos os aspectos e agora enfrenta a mais delicada situação de uma equipe brasileira na fase de grupos da competição nos últimos anos.
O que os números dizem sobre a classificação
A tabela do Grupo C é severa com o Fluminense. O Independiente Rivadavia, da Argentina, lidera com 9 pontos em 9 disputados — campanha 100%. O Bolívar subiu para 4 pontos após a vitória desta quinta, enquanto o Deportivo La Guaira, da Venezuela, tem 2. O Flu, com 1, só sobrevive na competição por uma combinação: precisa vencer os três jogos restantes. Qualquer tropeço encerra matematicamente as chances de avanço, a menos que dependa de uma combinação de resultados externos favorável — cenário ainda mais improvável dado o nível dos adversários.
Os três compromissos finais do Tricolor são: Independiente Rivadavia, fora de casa, na Argentina; e depois Bolívar e Deportivo La Guaira, ambos no Maracanã, nos dias 19 e 27 de maio, respectivamente. A sequência começa com o adversário mais difícil — o líder invicto do grupo, que ainda não cedeu sequer um ponto.
A campanha invertida de 2023
A comparação histórica mais pertinente vem de dentro do próprio clube. Em 2023, ano em que o Fluminense conquistou o título inédito da Libertadores, a equipe de Fernando Diniz somou 9 pontos nos três primeiros jogos da fase de grupos, batendo Sporting Cristal, The Strongest e River Plate. No returno, a campanha foi oposta: duas derrotas e um empate, totalizando 10 pontos ao final — suficiente para liderar o grupo, superando o River Plate no saldo de gols graças à histórica goleada de 5 a 1 no Maracanã.
Agora, a lógica se inverte de maneira quase cruel. O Fluminense zerou o primeiro turno e precisa replicar exatamente o que fez em 2023 na ida — 9 pontos possíveis, três vitórias, zero margem de erro. A diferença fundamental é que em 2023 havia gordura acumulada. Hoje, há déficit. Conforme levantamento do SportNavo, nenhum clube brasileiro com 1 ponto após três rodadas conseguiu a classificação nas últimas cinco edições da Libertadores.
Zubeldía entre a confiança e a irritação
O técnico argentino Luís Zubeldía oscilou entre a convicção pública e o desconforto visivelmente na coletiva pós-jogo. Quando questionado sobre o desempenho geral da equipe, ele respondeu com provocação ao jornalista:

"Como estamos no Brasileirão? Bom. É bom ou não é bom? Eu estou perguntando para você. Estar em terceiro no Brasileirão é bom ou não? O objetivo na Libertadores é classificar."
O Fluminense, de fato, ocupa o 3º lugar no Campeonato Brasileiro, o que representa uma campanha sólida no plano nacional. Mas o contraste com a Libertadores — 1 ponto em 9 disputados — é difícil de justificar tecnicamente. Zubeldía, ainda assim, manteve o discurso de crença:
"Fique tranquilo que vamos classificar. Não se preocupe com a tabela, vamos classificar e depois vai me dizer: é, mister, classificaram. Temos time para classificar."
Do lado defensivo, o zagueiro Freytes foi mais incisivo nas críticas à arbitragem de Derlis López. O episódio que gerou revolta no elenco tricolor foi a expulsão de Facundo Bernal no início do segundo tempo — o volante recebeu o segundo amarelo por reclamação durante uma análise do VAR. Com 10 jogadores e já perdendo por 1 a 0, o Fluminense ficou sem condições de reagir e sofreu o segundo gol.
"A verdade é que me parece uma falta de respeito com o futebol e conosco, que agora temos que ir para o Brasil e encarar todo mundo porque um árbitro interpreta o que é expulsão", afirmou Freytes, que ainda reclamou ao delegado da Conmebol.
Maracanã como última trincheira
A análise do SportNavo sobre os três jogos restantes aponta que o Maracanã será determinante. O Fluminense jogou suas melhores partidas internacionais no estádio carioca nos últimos dois anos — a goleada sobre o River em 2023 e a semifinal do Mundial de Clubes de 2023, contra o Al-Ahly, são referências concretas de desempenho elevado em casa. Dois dos três jogos que faltam serão ali. O problema é que o primeiro, e mais difícil, será fora: contra o Independiente Rivadavia, na Argentina, um time que passou por todos os adversários do grupo com autoridade.

O Fluminense volta a campo antes disso, no domingo, pela 14ª rodada do Brasileirão, no Beira-Rio, contra o Internacional. Depois, na próxima quarta-feira, embarca para a Argentina para enfrentar o Rivadavia no jogo que, na prática, definirá se a temporada continental do clube ainda tem vida ou já está encerrada antecipadamente.









