O silêncio que varreu o Maracanã após o apito final na terça-feira (19) durou apenas segundos — tempo suficiente para que 60 mil torcedores fizessem o mesmo cálculo ao mesmo tempo. O Fluminense havia vencido o Bolívar por 2 a 1, placar que, em outro contexto, mereceria comemoração. Neste, só confirmou que o Tricolor chega à última rodada da Libertadores do mesmo jeito que entrou na partida: com a corda no pescoço.

O que o Fluminense precisa para sair do Grupo C

A matemática é direta, mas não é simples. O Flu tem cinco pontos, o mesmo que o Bolívar — e perde no primeiro critério de desempate desta edição da Libertadores, que é o confronto direto, em razão da derrota por 2 a 0 em La Paz. Para reverter esse quadro na última rodada, o Tricolor precisa vencer o Deportivo La Guaira, no Maracanã, no dia 27, e torcer por que o Bolívar não supere o Independiente Rivadavia na Bolívia. Um empate dos bolivianos contra os argentinos já classifica o Flu, desde que ele ganhe o seu jogo. O Rivadavia, líder com dez pontos, já está classificado e joga sem pressão — fator que pode beneficiar o Fluminense, mas que também pode gerar um time pouco comprometido com o resultado.

Existe um cenário ainda mais remoto: empate tricolor com o La Guaira combinado com derrota do Bolívar, mas apenas se os venezuelanos não vencerem o Rivadavia na partida desta quinta-feira (21). Segundo apuração do SportNavo, os cenários são três no total, todos dependentes de resultado externo — nenhum coloca o Flu no controle exclusivo do próprio destino.

O auxiliar técnico Maxi Cuberas foi direto ao reconhecer o problema após o jogo:

"Não fomos contundentes, mas eles também não chegaram muito. Toda a equipe buscou sempre o segundo gol e depois o terceiro, criou situações. Lamentavelmente não conseguimos fazer mais para ficarmos tranquilos", disse Cuberas em entrevista coletiva.

A leitura do auxiliar aponta para o jogo na Bolívia como origem estrutural do problema. "Creio que o jogo na Bolívia, na altitude, foi o que não jogamos bem e nos custou essa situação", completou ele, antes de acrescentar que "nada é impossível" para a última rodada.

Como o Fluminense sobreviveu em 2011 — e por que aquilo era mais difícil

Quinze anos atrás, o roteiro era ainda mais hostil. Na última rodada do grupo em 2011, o Fluminense precisava não apenas vencer o Argentinos Juniors fora de casa, em Buenos Aires, como fazê-lo por dois gols de diferença — e ainda aguardar um empate entre América do México e Nacional do Uruguai no outro jogo da chave. A margem de erro era zero em duas frentes simultâneas.

O que aconteceu entrou para o repertório de memórias afetivas do torcedor tricolor: vitória por 4 a 2 em território argentino, com o 0 a 0 paralelo entre América e Nacional fornecendo a combinação perfeita. O Fluminense avançou em segundo lugar, com oito pontos. O América passou em primeiro. Uruguaios e argentinos ficaram pelo caminho.

A diferença estrutural entre 2011 e 2026 está na localização do jogo decisivo. Desta vez, o Maracanã será o palco — não um estádio adversário em Buenos Aires. O La Guaira, lanterna do Grupo C com três pontos, tem menos a perder do que o Argentinos Juniors tinha naquela noite. Mas a pressão sobre o Fluminense em casa, diante de uma torcida que já vaiou o time no apito final desta terça, é um elemento que os números não capturam com precisão.

O que a derrota emocional desta terça revela sobre o Fluminense de Zubeldía

O Tricolor abriu o placar com Lucho Acosta aos cinco minutos do primeiro tempo, em uma partida que parecia caminhar para a construção tranquila de uma vitória mais ampla. O Bolívar apresentava fragilidade defensiva visível, o Maracanã empurrava com mais de 60 mil presentes e o Flu era tecnicamente superior. Ainda assim, o empate boliviano chegou ainda no primeiro tempo — resultado de uma linha defensiva mal posicionada e de espaços abertos nas costas da zaga.

John Kennedy recolocou o Fluminense à frente na segunda etapa, mas o terceiro gol, aquele que mudaria toda a aritmética do grupo, nunca veio. A equipe do técnico Luis Zubeldía continuou se lançando ao ataque sem a proteção defensiva necessária, confundindo intensidade com organização. Hércules foi um dos símbolos da noite: após erros em sequência no início da partida, perdeu confiança e hesitou em divididas que precisavam de decisão rápida.

A reação nas redes sociais foi proporcional à frustração. Os torcedores tricolores no X direcionaram críticas ao técnico Zubeldía, à diretoria e à zaga formada por Ignácio e Freytes — trio que concentrou a maior parte dos protestos após o apito final. O clube publicou nota ressaltando que seguia "vivo na disputa por vaga", mas a leitura da torcida foi outra: o Fluminense havia desperdiçado uma oportunidade construída pela própria arquibancada.

"Se falarmos do resultado, realmente não era o que queríamos. Agora, do que apresentamos em campo, merecíamos mais pontos, pelo o que foi apresentado, pelas situações que criamos", avaliou Cuberas.

Há ainda uma variável externa que pode alterar o cenário boliviano: por conta de conflitos sociais em La Paz, existe a possibilidade de a partida entre Bolívar e Rivadavia não acontecer na altitude. Se o jogo for transferido para campo neutro, o fator altitude — que tanto prejudicou o Fluminense na derrota por 2 a 0 — deixa de existir para os bolivianos também.

Antes do confronto decisivo pela Libertadores, o Fluminense tem compromisso pelo Campeonato Brasileiro no sábado (23), fora de casa contra o Mirassol. O jogo contra o La Guaira, no Maracanã, está marcado para o dia 27. Se o La Guaira vencer o Rivadavia nesta quinta (21), o empate deixa de ser opção — e o Flu precisará obrigatoriamente dos três pontos em casa. Se o Bolívar for forçado a jogar fora da altitude, a equação boliviana muda. O que você faria com esse grupo se fosse Zubeldía — escalaria o mesmo time que começou contra o Bolívar ou mudaria a linha defensiva que sangrou nesta terça?