Confesso: eu errei sobre a CBV em 2022. Quando a confederação anunciou as primeiras mulheres em comissões técnicas de seleções de base — Karina de Souza no sub-20 e Mirtes Benko no sub-18 —, escrevi que era um gesto simbólico, bonito, mas ainda tímido demais para mudar a cultura de formação do vôlei nacional. Hoje, com Fofão assumindo o comando técnico da seleção feminina sub-17, vejo o porquê de eu ter subestimado o processo.
O que a nomeação de Fofão representa para a estrutura da CBV
Fabiana Claudino de Oliveira, a Fofão, 52 anos, acumula cinco participações em Jogos Olímpicos como atleta: bronze em Atlanta 1996, bronze em Sydney 2000 e ouro em Pequim 2008, quando era capitã da seleção. Nenhum outro currículo no vôlei feminino brasileiro combina experiência em campo com certificação formal de treinadora pela própria CBV e passagem pela coordenação das seleções de base. A nomeação, portanto, não é apenas simbólica — é tecnicamente fundamentada.
Para entender o peso histórico, basta comparar com o que acontece nas potências do vôlei mundial. A Itália, maior rival do Brasil no ranking FIVB feminino nas últimas duas décadas, já tem mulheres em postos técnicos de base há pelo menos dez anos. Os Estados Unidos, campeões olímpicos em Tóquio 2020, contam com Karch Kiraly no comando adulto, mas toda a pirâmide de desenvolvimento abaixo dele inclui treinadoras em categorias de formação desde 2015. O Brasil chegou mais tarde, mas chegou com nome pesado.
"Tive identificação imediata com o desafio apresentado pela CBV. Estou no momento certo da minha carreira para aceitar esse cargo. Essa categoria é a porta de entrada para o universo das seleções brasileiras, e posso ajudar no desenvolvimento e na formação das novas gerações. É importante termos cada vez mais mulheres nas comissões técnicas", disse Fofão ao ser anunciada.
Jorge Bichara, diretor técnico da CBV, foi direto ao definir o que espera dessa escolha:
"Fofão é uma referência no esporte e como primeira mulher à frente de uma seleção brasileira, será inspiração além das quadras. Temos muitas profissionais talentosas e esse é um caminho sem volta."
O ciclo olímpico começa nas meninas de 17 anos — e os números mostram isso
A seleção sub-17 disputará o Sul-Americano em busca de uma vaga no Mundial da categoria. Esse torneio continental é, historicamente, o primeiro filtro real de talentos que podem chegar à seleção adulta em dois ou três ciclos olímpicos. Das 12 jogadoras que conquistaram o ouro em Pequim 2008 — incluindo a própria Fofão —, ao menos sete passaram por seleções de base sul-americanas antes dos 18 anos. A conta é direta: uma atleta que hoje tem 16 anos estará com 24 em Los Angeles 2028, idade ideal para disputar uma Olimpíada como titular consolidada.
O dado que mais me chama atenção nesse contexto, levantado pelo SportNavo ao cruzar dados históricos da FIVB, é que o Brasil produziu mais medalhas olímpicas no vôlei feminino entre 1996 e 2012 — quatro no total, sendo duas de ouro — do que todas as seleções sul-americanas somadas no mesmo período. Manter esse nível exige que a base seja tratada com a mesma seriedade do time adulto, comandado por José Roberto Guimarães.
Guimarães, que trabalhou ao lado de Fofão por anos, foi enfático:
"Ela é uma profissional preparada, além de ter sido uma das jogadoras mais técnicas e inteligentes com quem tive a oportunidade de trabalhar. Que seu pioneirismo no cargo sirva de exemplo, que surjam cada vez mais treinadoras no voleibol."A integração entre base e adulto, segundo a CBV, é total — o trabalho de Fofão no sub-17 está conectado diretamente ao projeto de Guimarães para o ciclo de Los Angeles.
O que ainda falta resolver na formação da nova geração
A presença de Fofão resolve o problema da liderança técnica e da referência simbólica. Mas o desafio estrutural permanece: o vôlei feminino de base no Brasil ainda enfrenta disparidade de investimento em relação ao masculino. A seleção sub-17 masculina, por exemplo, terá à frente Marcelo Zenni, técnico com extensa experiência em seleções de base e grandes clubes do circuito nacional — sinal de que a CBV levou a sério ambos os lados da pirâmide. A questão é se o orçamento e a infraestrutura destinados ao feminino acompanham a ambição do nome escolhido.
Comparativamente, a Sérvia — atual vice-campeã mundial feminina — investe desde 2018 num programa de identificação de talentos que rastreia atletas a partir dos 14 anos em todo o território nacional. A China, dominante no ranking FIVB asiático, tem centros de treinamento regionais que alimentam o sub-17 com pelo menos 200 atletas por ciclo. O Brasil tem talento natural e histórico olímpico incomparável, mas a sistematização do processo de base ainda é o ponto que separa o país das potências que nunca param de produzir geração após geração.

Fofão, que já atuou como coordenadora das seleções de base antes de assumir o cargo de técnica, conhece essa realidade por dentro. O Sul-Americano sub-17 será o primeiro teste público do seu trabalho — e a vaga no Mundial, o primeiro resultado concreto a ser cobrado. A geração que ela vai moldar nas próximas semanas pode, daqui a doze anos, erguer uma taça olímpica do mesmo jeito que ela foi erguida pelas companheiras em Pequim.
Confesso: eu errei sobre a CBV em 2026 — e hoje, com Fofão na beira da quadra, vejo o porquê de ter subestimado o processo.








