Três coisas: uma derrota em Roma, um adversário irritado e um brasileiro que virou crítico da própria torcida. Tudo se explica daí.

João Fonseca, número 1 do Brasil no tênis, caiu na estreia do Masters 1000 de Roma no último sábado, 9 de maio, diante do sérvio Hamad Medjedovic. O resultado em si já pesou. Mas o que aconteceu nas arquibancadas do Foro Italico durante aquelas duas horas e meia transformou uma derrota esportiva em um debate cultural sobre como os brasileiros acompanham o tênis — e se sabem fazer isso.

O jogo que parou mais do que deveria

Fonseca abriu o placar com autoridade. No primeiro set, o brasileiro conseguiu uma quebra decisiva no sétimo game e confirmou o saque na sequência, fechando a parcial em 6/3. Sólido, controlado, bem entrado na partida. No segundo set, porém, Medjedovic ajustou o ritmo, passou a variar mais as jogadas e aproveitou uma quebra no oitavo game para empatar o confronto. A partir daí, o sérvio manteve a consistência e levou o duelo nos três sets.

Durante toda a partida, a torcida brasileira presente no Foro Italico foi barulhenta — e não apenas no bom sentido. Houve interrupções entre pontos, gritos durante os saques do adversário e, segundo Medjedovic, até xingamentos vindos das arquibancadas. O sérvio chegou a discutir com espectadores em quadra e pediu intervenção ao árbitro.

"Eu não me importo de eles ficarem falando quando vou sacar, me concentro bem. Mas, quando o adversário fica xingando, não sei exatamente o que ele estava falando, se estava falando alto com alguém, enquanto eu estou sacando. Isso me atrapalhou, e eu acho que deveria ter o primeiro saque", disse Medjedovic após a partida.

Quando o apoio vira problema até para quem está sendo apoiado

O que tornou o episódio ainda mais revelador foi a posição do próprio Fonseca. Em entrevista ao ESPN Brasil, o tenista não jogou a culpa da derrota na torcida — foi cuidadoso nisso — mas foi direto ao dizer que o comportamento dos fãs atrapalhou a ele também, não só ao adversário.

"A torcida foi um ponto dentro da partida, muitas paradas. Não posso dizer que isso foi a culpa da derrota, mas isso importa. A torcida brasileira pensa que é um jogo de futebol, mas não é. Adoro a torcida, mas tem que ter um pouco de limite e respeito. Não atrapalha só o adversário, mas me atrapalha também. É só um questionamento. Eu continuo amando jogar com a torcida, e acho que é mais uma lição e oportunidade de evoluir. Seguimos, depois de uma derrota difícil, mas com a cabeça erguida", declarou Fonseca.

A frase "não é futebol" condensa um choque cultural que o tênis brasileiro enfrenta há anos. O esporte ganhou novos públicos com a ascensão de Fonseca, 18 anos, que em 2025 venceu o Next Gen ATP Finals e entrou no top 100 do ranking mundial. Esse crescimento trouxe torcedores apaixonados — mas que chegam ao tênis carregando os hábitos das arquibancadas do Maracanã ou do Mineirão.

Um precedente que o tênis já conhece bem

A cena de Roma não é inédita. Em 2023, durante o Rio Open, torcedores brasileiros foram criticados por comportamento semelhante em partidas disputadas por compatriotas, com gritos e provocações direcionadas a adversários estrangeiros durante o saque. A diferença é que, em Roma, a crítica veio do próprio tenista brasileiro em campo — o que dá ao episódio um peso diferente.

No tênis profissional, as regras de etiqueta são parte do protocolo oficial da ATP. O silêncio durante o saque não é uma convenção cultural europeia: está previsto nos códigos de conduta dos torneios. Árbitros têm autoridade para suspender o jogo e advertir a torcida, como ocorreu em alguns momentos do duelo no Foro Italico. Quando o próprio jogador apoiado pela torcida pede moderação, o recado deixa de ser protocolar e passa a ser pessoal.

Há precedentes históricos em outros esportes. Na Fórmula 1, torcedores mexicanos foram amplamente criticados por vaias a Lewis Hamilton e Max Verstappen no GP do México de 2022, e o episódio gerou nota oficial da FIA. No golfe, o Ryder Cup de 2023 na Itália foi marcado por debates sobre o comportamento do público europeu. Em todos esses casos, o esporte precisou lembrar seus novos fãs que entusiasmo e desrespeito são coisas distintas.

O que Roma deixa para Fonseca e para o tênis brasileiro

Fonseca terminou Roma com um cartel de 23 vitórias e 10 derrotas em 2025, considerando torneios de diferentes categorias. A queda no primeiro round do Masters 1000 italiano interrompe uma sequência de bons resultados no saibro europeu, mas não compromete sua posição no ranking — o brasileiro segue entre os 70 primeiros do mundo, uma posição inédita para um tenista brasileiro tão jovem.

O impacto mais duradouro de Roma pode não ser medido em pontos de ranking. Fonseca escolheu um microfone e um torneio de prestígio para fazer um pedido que vai além da quadra: que a torcida brasileira aprenda a diferença entre empurrar e atrapalhar. Isso exige um processo de educação esportiva que não se resolve em uma entrevista, mas começa quando o próprio atleta tem a coragem de falar sobre o assunto.

O próximo grande compromisso de Fonseca no saibro é Roland Garros, que começa em 26 de maio. O Grand Slam de Paris deve reunir novamente um contingente expressivo de torcedores brasileiros, e o que o jovem tenista disse em Roma vai reverberar naquelas arquibancadas. Vale acompanhar de perto como o público vai responder ao pedido do próprio Fonseca.