Não é o ranking que define o peso de uma presença em Roland Garros — é o que acontece nas horas que antecedem o primeiro saque. E na tarde desta quinta-feira em Paris, o que aconteceu foi isto: João Fonseca, 18 anos, único brasileiro na chave principal do Grand Slam francês e cabeça de chave número 28, dividiu a quadra com Gaël Monfils, o ídolo parisiense que transforma cada treino em espetáculo e que, nesta temporada, atravessa o que ele mesmo anunciou como seu último ciclo profissional. O encontro entre gerações não foi protocolar. Foi, a julgar pela movimentação registrada, uma aula bilateral — e o carioca estava lá para aprender cada sílaba.
A tarde em que Monfils e Fonseca reescreveram o roteiro de aquecimento
Monfils chegou à Philippe Chatrier na véspera do início do torneio ainda com a energia do evento beneficente que havia comandado horas antes na quadra central. Com 38 anos e um currículo que inclui quartas de final de Roland Garros, o francês escolheu o brasileiro para a sessão final de preparação — e a torcida brasileira presente nas dependências do complexo de Boulogne, segundo relatos, não escondeu a satisfação. O backhand cruzado de Fonseca cortou o ar com precisão milimétrica em vários dos intercâmbios; Monfils, por sua vez, respondeu com aqueles drops shots que parecem desafiar a física da raquete, obrigando o jovem a recalibrar o posicionamento a cada ponto.
"Treinar com Monfils é uma experiência única — ele lê o jogo de uma forma que poucos jogadores conseguem replicar", disse Fonseca, nas palavras registradas pela cobertura local.
A sessão serviu menos como ajuste físico e mais como leitura tática do saibro parisiense, uma superfície que pune a ansiedade e recompensa a paciência. Fonseca, que chegou a Roland Garros após poupar o punho direito em Hamburgo, precisava de exatamente esse tipo de estímulo — intensidade controlada, leitura de bola lenta, transições que testam o footwork sem sobrecarregar a articulação… e aí vem o problema.
O que significa ser o 28º cabeça de chave num Grand Slam com 128 jogadores
A numeração de cabeça de chave em Roland Garros não é decorativa. Para Fonseca, o status de 28º protegido significa que ele só pode cruzar com os quatro primeiros cabeças de chave a partir das quartas de final — um desenho de chave que, em teoria, abre espaço para que o brasileiro chegue à segunda semana sem enfrentar os nomes que dominam o topo do ranking. A distância entre o 28º e o 1º no ATP, neste momento, é comparável à distância entre Recife e Cuiabá: geograficamente mensurável, mas exige uma jornada inteira para ser vencida.
Na prática da chave, o cenário mais discutido é a possibilidade de um encontro com Novak Djokovic já na terceira rodada — uma perspectiva que divide analistas entre o fascínio dramático e a leitura fria das probabilidades. Djokovic, mesmo em fase irregular em 2026, permanece uma variável imprevisível no saibro parisiense. Fonseca, por sua vez, já demonstrou que não recua diante de nomes grandes: sua campanha em Monte Carlo nesta temporada, onde chegou às quartas de final, estabeleceu um parâmetro novo para o que se espera dele em Grand Slams.
"Não venho a Paris para completar o torneio — venho para competir em cada ponto", afirmou o carioca em declaração à imprensa antes do início oficial das partidas.
As variáveis que podem definir o caminho de Fonseca no saibro
O tênis de João Fonseca tem uma arquitetura que seduz: o saque poderoso — capaz de produzir aces mesmo no saibro lento de Paris — combinado com um forehand que abre quadra com violência calculada e um backhand que, nos melhores momentos, rivaliza com os mais elegantes do circuito. O que a temporada europeia de 2026 colocou em evidência, porém, é que a consistência em sets longos ainda oscila. Fonseca domina primeiro e segundo sets com autoridade, mas o quinto set, quando o físico e a concentração são pressionados simultaneamente, permanece território a ser mapeado.
A presença de Monfils neste processo de preparação não é trivial. O francês, em sua última temporada, carrega décadas de experiência em lidar com a pressão específica de Roland Garros — o barulho da torcida local, o peso das expectativas, a forma como o vento do entardecer muda a trajetória da bola sobre a quadra central. Transmitir isso a Fonseca, ainda que em uma única tarde de treino, tem valor que nenhum número de ranking consegue quantificar.
João Fonseca estreia em Roland Garros contra Hubert Hurkacz, o polonês que figura entre os 10 primeiros do mundo e que, no saibro, combina potência de saque com uma devolução sólida. O match point da partida, qualquer que seja o placar, vai revelar se o treino com Monfils foi apenas um belo cenário parisiense — ou o primeiro capítulo de uma campanha que o Brasil vai querer acompanhar até o final. A partida está programada para os primeiros dias de Roland Garros 2026, com Fonseca buscando tornar-se o primeiro brasileiro a alcançar as oitavas de final do torneio desde Gustavo Kuerten.










