A última vez que um clube europeu manteve a liderança do ranking Forbes por cinco anos consecutivos, o futebol ainda não tinha rompido a barreira dos US$ 5 bilhões em avaliação de franquia. Era a era dos estádios como único ativo tangível, das receitas de TV como principal motor financeiro e de um mercado global ainda em construção. Hoje, o Real Madrid encerra a edição 2026 do ranking com US$ 9,5 bilhões de valor de mercado — e a comparação com aquele período revela não apenas o crescimento do clube espanhol, mas a transformação estrutural de todo o futebol de elite.
O número divulgado pela Forbes representa a soma do patrimônio líquido com as dívidas líquidas do clube, incorporando receitas operacionais, projeções financeiras futuras e o peso econômico da liga em que o clube atua. Segundo a metodologia da publicação americana, não se trata apenas de quanto o Real Madrid fatura — trata-se de quanto ele vale como negócio projetado para os próximos anos.
Dez lideranças em 13 edições e o que isso significa institucionalmente
O Real Madrid alcança, com este resultado, a décima liderança nas últimas 13 edições da lista Forbes dedicada ao futebol. Em termos comparativos, o Barcelona aparece em segundo lugar com US$ 7,5 bilhões — uma diferença de US$ 2 bilhões em relação ao rival catalão, gap que não existia nessa proporção há uma década. O Manchester United, avaliado em US$ 7,2 bilhões, fecha o pódio e surpreende ao ultrapassar o Liverpool — clube que vive um dos seus melhores momentos esportivos na temporada 2025/2026 da Premier League.
O Paris Saint-Germain, que investiu bilhões em contratações ao longo dos últimos 15 anos, aparece apenas na quinta posição, atrás também do Liverpool. O dado reforça o argumento central da Forbes: investimento em elenco não se converte automaticamente em valor de franquia. A consistência institucional, a força da marca e o histórico de geração de receita pesam mais do que uma janela de transferências generosa.
"Os valores representam patrimônio líquido somado às dívidas líquidas, considerando receitas, projeções financeiras futuras e força econômica de cada liga e clube", explica a Forbes em nota metodológica sobre o ranking.
Uma temporada abaixo das expectativas e o valor que não caiu
O dado mais revelador da edição 2026 não é o primeiro lugar — é a manutenção de US$ 9,5 bilhões mesmo após uma temporada considerada esportivamente insatisfatória pelo próprio clube. Sem conquistas de peso no calendário europeu e com desempenho irregular na La Liga, o Real Madrid chegou à divulgação do ranking em situação que, em qualquer outra lógica de mercado, justificaria uma desvalorização. Isso não aconteceu… e aí vem o problema para os concorrentes.
O que sustenta o valor do Real Madrid em ciclos de baixo rendimento é justamente o que os rivais demoram décadas para construir: uma estrutura de receitas diversificada que não depende exclusivamente de títulos. A renda gerada pelo Santiago Bernabéu reformado — com capacidade para 81.044 espectadores e receitas de hospitalidade que incluem shows, eventos corporativos e experiências premium — funciona como colchão financeiro independente do calendário esportivo.
A marca Real Madrid movimenta contratos de patrocínio que somam centenas de milhões de euros anuais, com parceiros globais nos setores de tecnologia, aviação, serviços financeiros e varejo. Esses acordos são plurianuais e não sofrem rescisão por resultado esportivo — diferente do que ocorre com prêmios de Champions League ou distribuições de TV que flutuam com a fase do clube.
A Premier League domina em número, mas não no topo
Dos 30 clubes presentes no ranking Forbes 2026, 11 pertencem à Premier League inglesa — o maior contingente de qualquer liga. A MLS norte-americana aparece em segundo lugar com sete representantes, dado que reflete o crescimento acelerado do futebol nos Estados Unidos, especialmente com a Copa do Mundo 2026 servindo de catalisador para novos contratos de TV e patrocínio.

A La Liga, apesar de ter os dois primeiros colocados do ranking, posiciona apenas quatro clubes entre os 30 — reflexo de uma concentração de valor que beneficia Real Madrid e Barcelona, mas deixa os demais clubes espanhóis em desvantagem estrutural em relação aos ingleses. A Serie A italiana e a Bundesliga alemã completam o mapa com representações menores.
"A Premier League segue como a liga com maior força financeira no futebol mundial", registra a Forbes, apontando o volume de direitos de TV e a distribuição mais equitativa entre os clubes ingleses como fatores determinantes.
A presença robusta da MLS no ranking é, talvez, o sinal mais importante para o futuro do futebol global. Sete franquias americanas entre as 30 mais valiosas do mundo indica que o mercado norte-americano deixou de ser periferia do negócio. Com o Mundial de 2026 sediado nos Estados Unidos, Canadá e México, a tendência é de aceleração desse processo nos próximos dois a três anos.
O que o ranking revela sobre o modelo de negócio do futebol moderno
A edição 2026 do ranking Forbes consolida uma lição que o futebol europeu aprendeu a duras penas após a tentativa fracassada da Superliga em 2021: valor de clube não se constrói apenas com troféus, mas com décadas de gestão institucional consistente, expansão de marca e diversificação de receitas. O Real Madrid é o exemplo mais acabado desse modelo — e os US$ 9,5 bilhões são o resultado de escolhas que remontam à era Florentino Pérez no início dos anos 2000, quando o clube pioneirou o conceito de galácticos como ferramenta de marketing global, não apenas esportiva.
O Barcelona, em segundo lugar com US$ 7,5 bilhões, opera um modelo diferente: cooperativa de sócios com receitas elevadas, mas com dívida histórica que comprime o valor líquido. O Manchester United, terceiro colocado, carrega o peso de uma marca global construída nas eras Ferguson e Beckham — mesmo com desempenho esportivo irregular nos últimos anos, a franquia inglesa mantém contratos de patrocínio entre os mais lucrativos do futebol mundial.
Para o torcedor que acompanha o futebol como produto cultural e econômico, o próximo termômetro concreto será a janela de transferências de julho de 2026, quando o Real Madrid deverá anunciar ao menos duas contratações de perfil galáctico — movimento que historicamente impulsiona os números de receita de marca para a temporada seguinte. Vale acompanhar com atenção os anúncios do clube durante o mês de julho: eles dirão muito sobre se o valor de US$ 9,5 bilhões é um teto ou apenas mais um degrau.










