Quatorze escanteios, quantidade elevada de arremates, cruzamentos em série e três gols marcados. O Botafogo que venceu o Independiente Petrolero no Estádio Nilton Santos, nesta terça-feira (28), pela Copa Sul-Americana, deixou no campo uma assinatura tática muito clara: Franclim Carvalho quer um time que sufoca, que pressiona, que não administra vantagem — ele administra domínio. O problema, e o próprio treinador reconhece isso sem rodeios, é que pressão sem eficiência é uma conta que não fecha.

Um modelo de jogo que não negocia identidade

Desde que assumiu o comando alvinegro, Franclim Carvalho tem sido enfático sobre o estilo que pretende imprimir ao Botafogo. A vitória sobre o Petrolero não foi exceção: o time explorou os flancos de forma insistente, acumulou oportunidades e manteve o adversário recuado durante os 90 minutos. Para o técnico português, esse volume não é acidente — é filosofia.

"O gol abriu um bocadinho. Tínhamos que fazer mais gols nesse jogo, e nós fizemos. Foi uma quantidade elevada de arremates, de cruzamentos, de chances criadas", destacou Franclim na coletiva pós-jogo.

O dado dos 14 escanteios num único jogo é revelador. Para efeito de comparação, times de alto desempenho na Libertadores costumam registrar entre 5 e 8 escanteios por partida em fases eliminatórias. O Botafogo mais que dobrou essa média em uma só noite, o que demonstra tanto a vocação ofensiva da equipe quanto a dificuldade de transformar pressão lateral em finalização limpa dentro da área.

A comparação que Franclim fez — e que incomoda

O técnico não poupou autocrítica ao traçar um paralelo com a vitória sobre a Chapecoense, quando o Botafogo criou menos chances e converteu quatro gols. Contra o Petrolero, com volume superior, foram três. A equação expõe um paradoxo ofensivo que precisa ser resolvido antes que custejasse pontos em situações mais equilibradas.

"Contra a Chapecoense criamos menos chances e fizemos quatro gols. Hoje fizemos três. Tivemos 14 escanteios e não fizemos nenhum. Lembro de três lances do Bastos, do Chris e do Tucu após cruzamentos e temos que definir melhor obviamente. Ninguém está mais frustrado que os jogadores", pontuou Franclim.

A menção nominativa a Bastos, Chris e Tucu — jogadores que tiveram oportunidades claras em bola parada sem concluir com sucesso — revela um treinador que trabalha com dados específicos de desempenho individual, não apenas com impressões gerais. Segundo análise do SportNavo, o aproveitamento em bolas paradas ofensivas é historicamente um dos pontos mais trabalhados por comissões técnicas de origem portuguesa, e Franclim parece enquadrar essa tendência.

Um modelo de jogo que não negocia identidade Franclim quer volume e gols — o Bot
Um modelo de jogo que não negocia identidade Franclim quer volume e gols — o Bot

Nenhuma competição descartada — e essa postura tem peso

Interrogado sobre a possibilidade de poupar elenco para priorizar o Brasileirão em detrimento da Sul-Americana — ou vice-versa —, Franclim foi categórico na negativa. A fala vai além do protocolo de coletiva: ela define uma gestão de grupo que aposta na manutenção do nível competitivo em todas as frentes, mesmo sob o desgaste de uma maratona de jogos.

"O Campeonato Brasileiro é muito competitivo. Eu disse que não vou fazer gestão e escolher competições. Porque temos jogadores muito ambiciosos e com muita fome. Nós como comissão também. Temos que fazer jus a isso. Entrar no jogo com a equipe que achamos que é competente para tentar ganhar seja a competição que for", garantiu o técnico.

Essa postura tem respaldo no histórico recente do próprio Botafogo: o clube conquistou o título da Libertadores em 2024 — feito inédito em sua história — justamente sem abrir mão de nenhuma frente de disputa. A cultura de ambição instalada no Nilton Santos não foi apagada com a troca de comissão técnica, e Franclim parece consciente de que gerir expectativas para baixo seria um erro institucional, não apenas esportivo. Na avaliação do SportNavo, manter esse patamar de exigência com um elenco em processo de ajuste tático é o maior desafio do técnico lusitano neste momento.

O que precisa evoluir até sábado

Franclim deixou claro que o trabalho de conversão ofensiva não se encerra com o apito final. O técnico prometeu intensificar os treinos de finalização e de aproveitamento em bola parada antes do próximo compromisso, marcado para o sábado. A janela de apenas quatro dias entre os jogos comprime o tempo de correção, o que exige objetividade nos treinos e diagnóstico preciso dos erros cometidos diante do Petrolero.

O equilíbrio entre volume e precisão é o que separa equipes dominantes de equipes eficientes — e o Botafogo de Franclim ainda está na costura desse ajuste. Com o Campeonato Brasileiro pressionando no calendário, converter os 14 escanteios de uma noite em pelo menos dois gols a mais é a meta concreta que o treinador levou para a sala de vídeo. O próximo jogo, no sábado, será o primeiro termômetro real de que esse problema foi diagnosticado e tratado.