A bola cruzou a área, o atacante estava no lugar certo — e o chute saiu torto. Não é um flash de memória específico de Franco Coronel, mas poderia ser. É a imagem recorrente de uma carreira que acumula presença sem acumular peso.

O que ele ainda não resolveu

Franco Coronel, atacante argentino de 33 anos que veste a camisa 7 do Alianza Atlético na Copa Sudamericana, enfrenta um dilema que conheço bem de quando cobria o futebol mediterrâneo nos anos 2000: o atacante que joga mais do que marca. É o tipo de jogador que os treinadores italianos chamavam de fantasma positivo — presente, movimentado, mas que some dos registros quando a contagem de gols fecha. Na temporada 2024, Coronel disputou 34 jogos e marcou apenas 5 gols. Em 2025, foram 16 partidas e somente 1 gol. A matemática é simples e implacável: para um atacante que veste a camisa 7 — historicamente um número de finalizador, de homem que decide — essa média não sustenta uma narrativa de protagonismo.

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O problema não é de esforço. É de conversão.

Quando acompanhei o ciclo de hegemonia do Milan de Ancelotti entre 2003 e 2007, via como Filippo Inzaghi, com seus 33 anos em plena Champions League, resolvia jogos com um único toque. Não porque fosse mais habilidoso que os outros, mas porque havia treinado décadas para aquele momento específico dentro da área. Coronel, ao contrário, parece ter chegado aos 33 anos sem ter construído esse vocabulário de área — o instinto finalizador que transforma presença em gol.

Onde está hoje em relação a esse buraco

Na temporada atual, Coronel acumula 7 jogos pela Copa Sudamericana com 1 gol marcado e nenhuma assistência. É um número que, isolado, soa modesto — mas precisa ser lido com cuidado. A Copa Sudamericana é uma competição de knockout com cadência irregular, onde a minutagem é distribuída de forma fragmentada e o ritmo de jogo difere completamente do campeonato doméstico. Não é a mesma pressão de 34 rodadas seguidas.

O dado mais revelador, porém, está no acumulado das temporadas anteriores. Em 2026, Coronel teve duas passagens distintas pelo clube: na primeira, 3 jogos e 1 gol; na segunda, 7 jogos, 3 gols e 1 assistência. Essa segunda passagem é o melhor recorte de produção que os dados mostram — e sugere que, quando encontra ritmo e confiança dentro de um ciclo de jogos, ele consegue elevar seu nível. O problema é a consistência entre ciclos, não a capacidade pontual de marcar.

Há um paralelo curioso com o que vi no futebol espanhol dos anos 90. Jogadores como Kiko Narváez no Atlético de Madrid tinham temporadas de 8 gols em 30 jogos — números que hoje soariam modestos, mas que eram suficientes para um papel específico dentro de um sistema. Coronel parece habitar esse espaço: não é o centroavante de referência, mas pode ser útil se o técnico souber para que exatamente ele serve.

O caminho técnico para tapá-lo

A lacuna de Coronel é técnica antes de ser mental. Um atacante que em 34 jogos marca 5 gols tem uma frequência de aproximadamente um gol a cada 7 partidas — ritmo que, nos anos 80, bastaria para um segundo atacante do Napoli de Maradona, mas que hoje, no contexto do futebol sul-americano moderno, exige correção.

O caminho passa por duas adaptações concretas. Primeiro, posicionamento de área: Coronel precisa reduzir a tendência de buscar a bola longe da meta e aumentar o tempo que passa nos últimos 15 metros do campo adversário. Os melhores finalizadores que cobri em Milão — Shevchenko, Crespo, até o Trezeguet na Juventus — tinham em comum uma disciplina quase monástica de permanecer próximos ao gol, mesmo quando o jogo se afastava deles. Segundo, ele precisa desenvolver o que os treinadores alemães chamam de Abschlussqualität — qualidade de conclusão sob pressão. Não basta chegar à posição; é preciso ter o toque certo na fração de segundo que o goleiro oferece.

Nada disso se resolve em uma semana. Mas aos 33 anos, Coronel tem algo que jogadores mais jovens não têm: ele conhece o próprio corpo, sabe exatamente o que o cansa e o que o liberta. Esse autoconhecimento, bem orientado por um treinador que entenda sua função, pode transformar limitação em especialização.

O que isso destrava na carreira

Se Coronel conseguir elevar sua média de conversão — mesmo que modestamente, de um gol a cada 7 jogos para um a cada 4 ou 5 — ele passa a ser um recurso valioso para o Alianza Atlético em competições eliminatórias como a Copa Sudamericana. Torneios de mata-mata têm uma lógica diferente dos campeonatos de pontos corridos: um gol no momento certo tem peso desproporcional. O Alianza Atlético não precisa de um artilheiro de 20 gols por temporada; precisa de alguém que, quando escalado, entregue nos momentos que importam.

Há um modelo histórico que serve de referência aqui. No Brasileirão dos anos 2000, jogadores como Marcelinho Carioca e Dimba encontraram longevidade não porque mantiveram o nível dos anos dourados, mas porque aprenderam a ser precisos onde antes eram abundantes. Coronel está nesse ponto de inflexão: ou encontra essa precisão, ou a Copa Sudamericana será apenas mais um capítulo de uma carreira de presença sem peso.

Com 60 partidas e 10 gols registrados ao longo de sua trajetória recente, o atacante argentino chega ao segundo semestre de 2026 com uma conta aberta. Não é uma conta impagável — mas exige pagamento em breve.

Em outubro de 2026, quando a fase de grupos da Copa Sudamericana fechar seus registros, saberemos se Franco Coronel encontrou a resposta que sua camisa 7 cobra.