A última vez que um goleiro brasileiro causou tamanha angústia numa competição continental, o nome que vinha à mente era o de Dida em seus piores momentos no Milan — e não o de um goleiro reserva tentando firmar uma titularidade que ele mesmo compromete a cada partida. Na noite desta quarta-feira (6), no Estádio Bicentenário de La Florida, em Santiago, Daniel Fuzato protagonizou mais um capítulo da sua coleção de erros: o zagueiro Saldivia recuou a bola com segurança, Fuzato saiu do gol antes do tempo, não conseguiu dominar o passe e assistiu à bola morrer no fundo das redes do próprio Vasco aos 4 minutos. Gol contra. Placar: 1 a 0 para o Audax Italiano.

A falha que o Vasco não pode mais normalizar

Antes mesmo do gol contra de Saldivia, Fuzato já havia dado um sinal claro de que a noite seria difícil: no primeiro minuto de jogo, o goleiro furou em outro recuo do mesmo zagueiro, e a bola foi para escanteio por puro acaso. Dois lances em quatro minutos. Não foi azar — foi um padrão. Quem acompanha o Vasco na temporada 2026 sabe que Fuzato já acumulava situações de desconfiança antes desta partida, com erros de posicionamento e saídas de gol mal calculadas que geraram críticas crescentes da torcida. O próprio retrospecto desta quarta mostrou as duas faces do goleiro: ele falhou no gol e, depois, aos 15 minutos, fez uma boa defesa no chute de Guajardo para evitar o 2 a 0. Mas uma defesa não apaga um erro que resultou em gol. Nunca apaga.

Há quem argumente que Fuzato é o titular estabelecido, que a comissão técnica confia nele e que um erro não define uma carreira. O argumento tem uma lógica superficial. O problema é que não se trata de um erro. Trata-se de uma recorrência que já compromete a leitura de jogo da defesa vascaína. Quando um zagueiro pensa duas vezes antes de recuar para o próprio goleiro — como ficou evidente na hesitação de Saldivia antes de cada passe —, o time perde fluidez defensiva. Isso tem custo tático real.

O Vasco venceu apesar de Fuzato, não graças a ele

A virada cruzmaltina foi construída sem a participação de Fuzato e, em grande parte, a partir da expulsão do zagueiro Ortiz, que cometeu pênalti em Spinelli aos 13 minutos do segundo tempo. O argentino bateu forte, a bola entrou no alto e o empate foi feito. Doze minutos depois, Matheus França — que havia ficado mais de um ano sem marcar, com o último gol registrado em 2 de abril de 2025, quando ainda defendia o Crystal Palace — tabelou com Nuno Moreira e chutou rasteiro para fazer 2 a 1. A virada aconteceu com um jogador a mais em campo, resultado de uma expulsão que o VAR confirmou após longa revisão. O Vasco não construiu essa vitória com base em uma defesa sólida: construiu apesar de ter sofrido um gol evitável logo no início.

A falha que o Vasco não pode mais normalizar Fuzato falha de novo e o Vasco venc
A falha que o Vasco não pode mais normalizar Fuzato falha de novo e o Vasco venc

Como bem avalia o SportNavo, a liderança do Grupo G com 7 pontos — três acima do Audax, que caiu para o terceiro lugar — mascara uma vulnerabilidade que pode ser fatal nas fases eliminatórias. O Olimpia, segundo colocado com 4 pontos, é o próximo adversário do Vasco, no dia 20 de maio. E o Olimpia não vai recuar mal para o goleiro adversário e esperar o erro acontecer.

Quem não tem cão caça com gato — e o Vasco, sem um goleiro titular que inspire confiança plena, está caçando vitórias com quem tem disponível. Mas existe um limite para isso em competições continentais.

Fuzato merece a titularidade ou o Vasco precisa agir no mercado

A pergunta que o departamento de futebol do Vasco precisa responder com urgência: um goleiro que comete erros com recorrência documentada pode ser o titular de uma equipe que ambiciona avançar na Sul-Americana?

A defesa de Fuzato tem um argumento concreto a seu favor: ele também evitou o 2 a 0 nesta quarta-feira, com uma defesa no chute de Guajardo que foi, tecnicamente, de alto nível. A questão não é se Fuzato tem qualidade — é se sua consistência é suficiente para o nível de exigência que a competição impõe. Nas fases de mata-mata, um erro como o desta quarta pode encerrar campanhas inteiras. O Flamengo de 2019 perdeu a final da Libertadores em Lima? Não. Mas equipes de menor margem de erro do que o Vasco foram eliminadas por falhas pontuais de goleiros em momentos decisivos.

Nas redes sociais, após a vitória sobre o Audax, torcedores vascaínos comemoraram a reação da equipe, mas o nome de Fuzato seguiu sendo tema de debate. A torcida não esquece — e tem razão em não esquecer. A memória afetiva do torcedor é seletiva, mas a memória técnica de erros repetidos é implacável.

O Vasco volta a campo pela Copa Sul-Americana no dia 20 de maio, contra o Olimpia, em partida que pode consolidar ou ameaçar a liderança do Grupo G. Se Fuzato repetir o padrão desta quarta em Assunção, a discussão sobre a titularidade deixará de ser coluna de opinião e virará demanda urgente da diretoria.