Três elementos: uma súmula contraditória, um vídeo que conta história diferente e um julgamento marcado para esta sexta-feira. Tudo o que paralisou a final do Brasileirão Feminino se explica a partir daí.

A cena que travou a decisão

A segunda partida da final estava marcada para a quarta-feira à noite. O Rio Preto vencia o São José por 1 a 0 no agregado e precisava apenas administrar a vantagem para conquistar o título. Mas o jogo não aconteceu. O presidente do STJD, Caio Cesar Rocha, acatou pedido da promotoria e suspendeu a partida após contestação sobre a escalação da meia Gabi Portilho na primeira final — jogadora que, segundo a acusação, deveria estar cumprindo suspensão automática pelo terceiro cartão amarelo recebido na temporada.

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O amarelo em questão foi anotado na volta da semifinal, contra o Tiradentes. A promotoria se baseia na súmula do árbitro Vinicius Gonçalves Dias Araujo, que registrou ter dado "cartão vermelho direto" à jogadora — mas, na mesma súmula, escreveu que a expulsou porque ela "havia sido advertida anteriormente". A contradição interna do documento é o nó jurídico que o STJD precisará desatar.

O que o vídeo mostra e o que a súmula diz

O argumento do São José é preciso: no jogo diante do Centro Olímpico, pela penúltima rodada da segunda fase, Gabi recebeu dois cartões amarelos antes de ser expulsa. Pela regra, a expulsão por duplo amarelo cancela o efeito suspensivo do segundo cartão — o que reduziria o total de advertências válidas para duas, não três. Portanto, o clube alega que ela tinha plenas condições de atuar na final.

O vídeo da partida contra o Tiradentes reforça a tese do clube paulista. As imagens mostram com clareza o árbitro exibindo o cartão amarelo primeiro, reconhecendo que Gabi já havia sido advertida, e só então sacando o vermelho. Não se trata de vermelho direto. Trata-se de uma expulsão por acumulação — o que, combinado com o episódio do Centro Olímpico, tornaria o terceiro amarelo inexistente do ponto de vista regulamentar.

"A jogadora havia sido advertida anteriormente", escreveu o árbitro Vinicius Gonçalves Dias Araujo na súmula — frase que contradiz a classificação de 'cartão vermelho direto' no mesmo documento.

O que o STJD julga e o que está em risco

O tribunal se reúne nesta sexta-feira para decidir se a escalação de Gabi Portilho foi irregular. Se o STJD confirmar a irregularidade, o São José pode perder o resultado da primeira final — o que alteraria o quadro competitivo da decisão. Se absolver o clube, o jogo 2 é remarcado com a vantagem do Rio Preto mantida.

  • Se o São José for punido com derrota na primeira partida, o Rio Preto amplia a vantagem para 2 a 0 no agregado.
  • Se o São José for absolvido, a segunda final é reagendada com o placar de 1 a 0 válido.
  • Em qualquer cenário, há pressão de calendário: no sábado começa a sequência de amistosos da seleção brasileira, com jogos contra a Nova Zelândia e um quadrangular em Natal, na Arena das Dunas.

A convocação da seleção embaralha ainda mais a logística. A volante Formiga, pilar do São José, e a goleira Luciana, do Rio Preto, foram chamadas pela CBF. O SportNavo acompanhou a tramitação do caso e identificou que a sobreposição entre calendário de clubes e seleção feminina é uma falha estrutural recorrente na organização do futebol feminino brasileiro — algo que indicadores de investimento público na modalidade ajudam a explicar: a competição opera com margem operacional estreita, sem janelas de contingência para impasses jurídicos.

O STJD julga nesta sexta-feira. Dependendo da decisão, a CBF terá menos de 48 horas para definir data e local da segunda final antes de perder parte de ambos os elencos para a seleção — o que torna o veredicto não apenas esportivo, mas administrativo e político.

Três elementos: uma súmula contraditória, um vídeo que conta história diferente e um julgamento marcado para esta sexta-feira. Tudo o que definirá a final do Brasileirão Feminino se explica a partir daí.