É uma faca de dois gumes com cabo de ouro.
A imagem de Gabigol com a camisa do Santos carrega 83 gols e 13 assistências em 207 jogos — números que o colocam entre os maiores artilheiros da história recente do clube. O problema é que a negociação de 2026 não começa nesse patamar: começa no déficit de credibilidade acumulado em Belo Horizonte, num contrato que o Peixe ainda não sabe como pagar e num jogador que já olha para fora do Brasil.
A narrativa do retorno heroico que os dados não sustentam
Circula nos bastidores do futebol brasileiro a ideia de que Gabigol no Santos seria uma espécie de redenção automática — o filho pródigo voltando para casa. A comparação com Neymar, que retornou à Vila Belmiro em busca de carinho e regularidade, alimenta esse discurso. Mas os contextos são distintos em variáveis que importam.
No Cruzeiro, Gabigol foi reserva em boa parte da temporada 2025 e protagonizou um dos momentos mais simbólicos do seu declínio recente: perdeu o pênalti que eliminou a Raposa na semifinal da Copa do Brasil para o Corinthians. Em 78 jogos com a camisa do Santos entre 2015 e 2016, ele marcou 37 gols — média de um gol a cada 146 minutos, com nota Sofascore de 7,08 e 40% de conversão em grandes chances. Essa versão não existe mais no currículo imediato do jogador.
O técnico Juan Pablo Vojvoda herdou uma posição de centroavante sem dono. Tiquinho Soares viveu temporada abaixo da crítica e perdeu a titularidade. Lautaro Díaz não convenceu. Na rodada final do Brasileirão 2025, a comissão técnica recorreu a Thaciano — jogador que ficou encostado por boa parte do ano — para ocupar a função. O vácuo existe. A questão é se Gabigol, aos 29 anos e com o desgaste do último ciclo, é a solução ou mais um nome para preencher a lacuna temporariamente.
O impasse financeiro que a torcida prefere ignorar
Em enquete realizada pelo Lance! com torcedores santistas, 71,8% aprovaram o retorno — mas condicionaram o apoio a uma renegociação salarial. Apenas 10,5% aceitariam o jogador independentemente do salário. O dado revela que até a própria torcida reconhece o entrave: o Santos não tem folha para bancar Gabigol nos moldes atuais.
O clube trabalha com a modelagem de divisão salarial — parte paga pelo Santos, parte pelo Cruzeiro, que ainda detém o vínculo — e sem custo de transferência. Mesmo nesse formato, a operação exige readequação do elenco. O Santos estuda cortes e rescisões para abrir espaço na folha antes de formalizar qualquer proposta concreta. Não há valor oficial publicado, mas fontes do mercado apontam que o salário mensal de Gabigol no Cruzeiro girou em torno de R$ 1,2 milhão — cifra que, sozinha, representa mais do que o Santos pagou a qualquer jogador do seu elenco titular em 2025.
Para efeito de comparação, o Santos fez proposta de mais de R$ 30 milhões por Felipe Loyola — investimento que sinaliza apetite para reforçar o elenco, mas também evidencia que os recursos são direcionados por prioridade técnica, não sentimental.
O que Gabigol quer — e por que isso muda o cálculo
Enquanto o Santos negocia, o próprio atacante olha para outra direção. Segundo informações do portal Bolavip, Gabigol tem o desejo de voltar a atuar fora do Brasil e avalia deixar o Peixe já na próxima janela de transferências, caso o retorno se concretize. A temporada na Vila Belmiro seria, nas palavras de pessoas próximas ao jogador, um trampolim, não um destino final.
Esse dado transforma a equação. O Santos contrataria um jogador em modo de transição — alguém que usa o clube como vitrine para o mercado europeu ou asiático —, não um atleta comprometido com um projeto de dois ou três anos. A reapresentação do elenco foi marcada para 2 de janeiro, e o clube queria ter o nome confirmado antes disso para planejamento tático. A pressa santista contrasta com a postura calculada do jogador.
No Cruzeiro, o presidente Pedrinho chegou a afirmar que o técnico Tite pediu para não desfazer de nenhum jogador:
"Ele está feliz com o grupo que nós temos. Pediu para não desfazermos de nenhum jogador. A intenção é essa mesmo, não vender ninguém", declarou Pedrinho sobre as instruções de Tite à diretoria.
A fala do dirigente cruzeirense — mesmo que superada pelos acontecimentos — ilustra como Gabigol chegou ao final de 2025 sem protagonismo nem no clube que o contratou.
Gabigol marcou 37 gols em 78 jogos na primeira passagem pelo Santos — mais do que a soma de gols de Tiquinho Soares, Lautaro Díaz e Thaciano juntos na temporada 2025 do clube. O número justifica o interesse. Mas interesse e viabilidade são categorias diferentes no mercado de transferências.
O Santos precisa fechar a readequação salarial do elenco e apresentar proposta formal ao Cruzeiro para que a negociação avance. Enquanto isso não acontece, Gabigol segue avaliando ofertas do exterior — e o prazo para a reapresentação de janeiro já passou do ponto ideal para qualquer acordo sem atrito.










