O capitão saiu do campo olhando para a Vila Belmiro como quem reconhece uma casa que pensou ter perdido. Gabigol acabara de conduzir o Santos a uma vitória por 3 a 0 sobre o Deportivo Cuenca, pela Copa Sul-Americana, com braçada de capitão e participação direta nos três gols da noite. Era uma quinta-feira de maio de 2026, e os números que ele carregava na chuteira diziam algo que poucas palavras conseguiriam resumir melhor.

O que os números de Gabigol revelam sobre o Santos em 2026

Em 26 partidas disputadas nesta temporada, Gabriel Barbosa acumula 13 gols e sete assistências — vinte contribuições diretas para o placar em pouco mais de meia temporada. A média atual é de uma participação em gol a cada 92 minutos. Para quem acompanhou o Flamengo de 2019, a cifra não é desconhecida: naquele ano histórico, Gabigol encerrou a temporada com uma média de 90,4 minutos por participação em gol, período em que foi artilheiro da Libertadores e protagonista do título continental mais emocionante do futebol brasileiro em décadas.

Nas três últimas partidas como titular — todas com Neymar fora por um edema na panturrilha —, o centroavante participou de seis dos sete gols marcados pelo Peixe, sendo quatro de sua autoria e dois em assistências. Para efeito de comparação, esse volume de contribuições ofensivas em apenas três jogos é maior do que toda a produção de gols de três equipes da parte de baixo da tabela do Brasileirão na mesma janela de tempo.

Há ainda o dado que mais incomoda quem acompanhou a passagem de Gabigol pelo Cruzeiro em 2024: em 49 jogos pela Raposa, o atacante marcou 13 gols e distribuiu quatro assistências — números que já foram igualados e superados no Santos com pouco mais da metade das partidas disputadas.

A voz do atacante e o recado aos ex-clubes

Na saída de campo após a vitória sobre o Deportivo Cuenca, Gabigol não escondeu o peso das últimas temporadas e deixou uma declaração que soou menos como celebração e mais como ajuste de contas com o próprio passado.

"Eu tenho muita confiança no meu trabalho. Sempre tive. Em todos os clubes em que tive uma sequência, em que o time pôde me ajudar e me dar confiança, eu sempre entreguei resultado. No Cruzeiro eu não tive isso e no Flamengo, nos últimos anos, eu também não vinha tendo. Aqui estou tendo sequência, minutagem e sei que posso corresponder. Nada nem ninguém vai me falar o contrário. Se continuar assim, vou fazer mais gols, dar mais assistências e seguir ajudando o Santos."

A fala, concedida à ESPN, tem o tom de quem acertou a mira depois de muito tempo olhando para o alvo errado. O recado ao Flamengo e ao Cruzeiro não é velado — é explícito, calculado, e dito por alguém que entende que os números agora falam por ele antes que qualquer réplica chegue.

A decisão de Cuca que acelerou a retomada de Gabigol

A virada não foi imediata. O técnico Cuca identificou um desequilíbrio defensivo recorrente quando escalava Neymar e Gabigol juntos no setor ofensivo, e tomou uma decisão que poucos treinadores tomariam sem hesitar: tirou o camisa 9 do time titular. Gabigol passou três partidas no banco de reservas — tempo suficiente para que o incômodo virasse combustível.

Quando Neymar foi entregue ao departamento médico, o posto de referência técnica ficou vago. Gabigol o ocupou com uma naturalidade que lembrava os anos em que não havia disputa de espaço no Ninho do Urubu. A capitania na vitória sobre o Deportivo Cuenca não foi simbólica: foi a síntese visual de um processo de reconquista que levou meses para ganhar forma.

Como apurado em matéria do SportNavo, o período fora do time foi, paradoxalmente, o gatilho para o melhor momento do atacante na temporada. Sequência, minutagem e confiança — as três palavras que o próprio Gabigol usou para explicar o recomeço — raramente aparecem juntas na carreira de um jogador que passou dois anos em clubes onde nenhuma das três estava garantida.

O Santos volta a campo pelo Brasileirão no próximo fim de semana, e Gabigol deve seguir como titular enquanto Neymar trata o edema na panturrilha. Para quem quer ver se os números de 2026 vão de fato alcançar — ou superar — a marca histórica de 2019, a próxima rodada já vale como prova.