Se a Copa Sul-Americana terminasse hoje, o Santos estaria eliminado. Apenas 2 pontos somados em três rodadas do Grupo D — fruto de dois empates e uma derrota —, com o time ocupando a última colocação de uma chave que ainda tem seis pontos em disputa. O número é o retrato mais fiel de uma campanha que oscila entre lampejos individuais e inconsistência coletiva.

O empate por 1 a 1 diante do San Lorenzo, na noite de terça-feira (28), no Estadio Pedro Bidegain — o Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires —, resume bem esse dilema. O time argentino, comandado por Gustavo Álvarez, dominou os primeiros 27 minutos com superioridade técnica e física, chegando a 10 finalizações no primeiro tempo contra apenas 4 do Santos. O goleiro Gabriel Brazão foi o principal responsável por manter o placar em aberto, com intervenções decisivas aos 10, 12 e 14 minutos, sendo a mais importante quando Rodrigo Auzmendi finalizou à queima-roupa após ajuste de cabeça de Jhohan Romaña.

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Como os 2 pontos do Santos foram construídos nos detalhes errados

O gol sofrido aos 27 minutos do primeiro tempo sintetizou as fragilidades do meio-campo santista. Facundo Gulli roubou a bola de Willian Arão na intermediária — um erro de posicionamento que custou o controle da jogada — e acionou Alexis Cuello, que bateu de fora da área no canto esquerdo de Brazão para abrir o marcador. A origem do lance, um desarme mal-sucedido no setor central, não foi um acidente isolado: é um padrão que o técnico Cuca já havia identificado e tentou corrigir no intervalo, substituindo o próprio Arão por João Schmidt logo no início do segundo tempo.

A resposta do Santos veio rápida e, de certa forma, reveladora. Aos 32 minutos, Neymar encontrou Benjamín Rollheiser dentro da área, o argentino tocou de calcanhar para Gabriel Barbosa — o Gabigol —, que finalizou cruzado. A bola bateu no pé da trave antes de entrar, restabelecendo a igualdade. A sequência da jogada condensou o que o Santos tem de melhor: a capacidade criativa dos seus jogadores de maior qualidade individual. Quando faz esse tipo de combinação em espaços reduzidos, o time é capaz de criar chances contra qualquer adversário da competição. Quando depende do coletivo para organizar a saída de bola sob pressão, o cenário é bem diferente.

No segundo tempo, o San Lorenzo encerrou o jogo sem nenhum cartão amarelo, enquanto o Santos acumulou três advertências — para Luan Peres, Gonzalo Escobar e Lucas Verissimo. O goleiro adversário Orlando Gill ainda evitou ao menos duas oportunidades claras de virada santista, preservando o 1 a 1 final.

Segundo o técnico Cuca, a substituição de Willian Arão por João Schmidt no intervalo foi uma decisão tática para dar maior equilíbrio ao meio-campo visitante, reconhecendo que o Santos havia perdido o controle da zona central na primeira etapa.

A dependência de Gabigol e o que ela revela sobre o elenco

Quando marca, Gabigol transforma o Santos em outro time. Quando não marca — ou quando está isolado —, o time perde referência ofensiva e clareza nas transições. O gol desta terça-feira foi o segundo do atacante na competição, e ambos vieram em momentos em que o Santos precisava reagir a uma desvantagem no placar. A dependência é real e estatisticamente visível: nos jogos em que Barbosa não baliza, o time ainda não pontuou com vitória nesta Sul-Americana.

Quando cria situações com Neymar e Rollheiser em proximidade, o Santos produz futebol de qualidade continental. Quando precisa construir jogadas a partir da defesa, com a bola nos pés de Arão ou dos zagueiros sob pressão adversária, o time apresenta lentidão e erros de passe que custam caro — como o gol sofrido em Buenos Aires demonstrou com precisão cirúrgica.

Nas palavras do lateral Gonzalo Escobar após o jogo, o Santos "competiu de igual para igual no segundo tempo" e acredita que os próximos dois confrontos podem mudar a situação da equipe no grupo.

O problema dessa narrativa é matemático. Com 2 pontos, o Santos precisa de ao menos 4 nos próximos dois jogos para ter chances reais de classificação às oitavas de final. Uma vitória e um empate são o mínimo necessário — e ambos os adversários restantes são San Lorenzo, agora com 5 pontos e brigando pela liderança, e Universidad Católica, que também está à frente do Peixe na tabela.

Como os 2 pontos do Santos foram construídos nos detalhes errados Gabigol salva,
Como os 2 pontos do Santos foram construídos nos detalhes errados Gabigol salva,

O que Cuca precisa ajustar antes dos jogos decisivos

A análise dos três jogos do Grupo D aponta para três ajustes estruturais que o técnico Cuca precisará fazer. O primeiro é a proteção do meio-campo: a facilidade com que adversários como o San Lorenzo roubam a bola na intermediária indica que Arão, como volante único de contenção, não tem sido eficiente o suficiente para o nível da competição — a entrada de Schmidt no intervalo de Buenos Aires foi um sinal de que Cuca reconhece esse problema.

O segundo ajuste é a distribuição da criatividade. O Santos não pode depender exclusivamente de Neymar para ligar o ataque. Rollheiser, que participou diretamente do gol de empate com o toque de calcanhar para Gabigol, precisa ter mais liberdade e participação nas jogadas construídas, não apenas nas de improviso.

A dependência de Gabigol e o que ela revela sobre o elenco Gabigol salva, mas 2
A dependência de Gabigol e o que ela revela sobre o elenco Gabigol salva, mas 2

O terceiro ponto é disciplinar. Três cartões amarelos acumulados em uma única partida — contra zero do adversário — indicam uma equipe que joga no limite do esforço físico para compensar a inferioridade tática em determinados momentos, o que aumenta o risco de suspensões justamente quando os jogos ficam mais importantes.

O Santos volta a campo pela Sul-Americana contra o San Lorenzo, desta vez no Brasil, e depois enfrenta o Universidad Católica na rodada final. Vencer os dois é obrigação — empatar qualquer um deles, provavelmente, encerra a campanha continental do Peixe em 2026. O elenco tem qualidade individual para superar esse cenário adverso — falta a consistência coletiva para transformar lampejos em resultado.