Não é Gabriel Martinelli o brasileiro com mais a provar em Budapeste no dia 30 de maio. O atacante do Arsenal tem 22 anos, talento de sobra e uma final inteira pela frente para construir sua lenda — mas é Gabriel Jesus quem chega à Puskás Arena carregando o peso específico de quem já esteve aqui antes e saiu de mãos vazias. Em maio de 2021, no Estádio do Dragão, no Porto, Jesus entrou em campo pelo Manchester City numa final que parecia escrita para ele. O Chelsea de Tuchel, no entanto, venceu por 1 a 0 com gol de Havertz, e o centroavante deixou o campo sem a medalha que mais queria. Cinco anos depois, a conta voltou à mesa.

Gabriel Jesus e a final que ficou atravessada na garganta

Quem acompanhou aquela edição de 2021 sabe que o City de Guardiola era favorito absoluto — tinha 86 pontos na Premier League naquela temporada, o melhor ataque da competição, e chegou à final com uma geração que parecia destinada à eternidade europeia. Jesus não foi titular, entrou no segundo tempo e não conseguiu mudar o jogo. O que veio depois foi uma trajetória de reconstrução: saída para o Arsenal em 2022, lesões que atrasaram seu desenvolvimento em Londres, e agora, finalmente, a chance de fechar o ciclo. Aos 29 anos, Jesus não é mais o centroavante explosivo dos tempos de City — é um jogador mais completo, que pressiona, combina e carrega a bola com mais critério. Seria hiperbólico dizer que esta final define sua carreira inteira, mas seria injusto chamar de mera circunstância — é uma circunstância em escala de destino.

Gabriel Magalhães, zagueiro titular do Arsenal, também chega à decisão em busca do seu primeiro título europeu. O defensor de 27 anos se consolidou como um dos melhores zagueiros da Premier League nos últimos três anos e será peça central para conter o ataque do PSG. A presença do brasileiro na zaga reforça um padrão que o SportNavo tem documentado ao longo desta temporada europeia: a Premier League voltou a produzir defensores de elite com DNA brasileiro, algo que não se via desde os tempos de David Luiz no Chelsea, na final de 2012.

Marquinhos e Beraldo chegam a Budapeste como donos da casa

Marquinhos tem 31 anos e uma biografia europeia que poucos brasileiros podem igualar. Capitão do PSG há quase uma década, ele finalmente conquistou a Champions League na temporada 2024/25 — quebrando um jejum que parecia amaldiçoado, considerando as eliminações traumáticas de 2021 contra o City e de 2023 contra o próprio Arsenal. Agora, o zagueiro chega à final de 2026 como defensor do título, numa posição radicalmente diferente da que ocupou durante anos: não é mais o eterno vice, é o campeão que quer confirmar a hegemonia.

Lucas Beraldo, 21 anos, representa a outra face dessa narrativa. Revelado pelo São Paulo e contratado pelo PSG em janeiro de 2024, o zagueiro participou da conquista da temporada passada ainda em processo de adaptação ao futebol europeu. Agora, com uma temporada completa na Ligue 1 no currículo, chega a Budapeste como titular consolidado. A trajetória de Beraldo tem paralelos com a de Thiago Silva, que também foi para o PSG jovem, precisou de tempo para amadurecer e se tornou símbolo do clube — embora Silva nunca tenha vencido a Champions com os franceses, ironia que Beraldo pode resolver com 21 anos.

"Ganhar a Champions pelo PSG era um sonho que parecia impossível por muito tempo. Agora queremos mostrar que não foi sorte — foi construção", disse Marquinhos em entrevista coletiva após a classificação para a final.

58 brasileiros campeões e uma marca que resiste ao tempo

A final de Budapeste será o 21º ano consecutivo em que o campeão europeu terá pelo menos um jogador nascido no Brasil em seu elenco. Para ter dimensão histórica do que isso representa: em 2001, quando o Bayern de Munique venceu o Valencia nos pênaltis em Milão, e em 2005, quando o Liverpool superou o Milan em Istambul numa das maiores viradas da história, nenhum brasileiro estava entre os campeões. Desde então, a presença verde-amarela nas finais tornou-se tão constante quanto previsível — mas não menos significativa.

Ao longo da história da competição, 58 jogadores brasileiros diferentes já ergueram a taça. O Real Madrid lidera esse ranking com 12 atletas — de Roberto Carlos a Marcelo, passando por Ronaldo e Casemiro. O Barcelona aparece com dez, incluindo nomes como Ronaldinho e Dani Alves, enquanto o Milan soma oito, com destaque para Cafu, Roque Júnior e Kaká. Curiosamente, Arsenal e PSG, os dois finalistas de 2026, ainda não figuram nessa lista — o que significa que qualquer um dos cinco brasileiros em campo no dia 30 de maio estará escrevendo história inédita para seus respectivos clubes.

"Chegar a uma final da Champions com o Arsenal é algo que esta geração vai lembrar para sempre. Queremos fazer história", afirmou Martinelli em entrevista ao canal oficial do clube inglês.

Martinelli, que chegou ao Arsenal em 2019 vindo do Ituano por menos de 7 milhões de euros, percorreu um caminho que tem a textura das grandes histórias do futebol europeu: garoto barato, subestimado, que foi crescendo dentro de um projeto sem fazer barulho. Aos 24 anos, está numa final da Champions. Para contextualizar: quando Ronaldinho Gaúcho chegou ao Barcelona em 2003 por 30 milhões de euros, a imprensa catalã duvidou. Dois anos depois, era o melhor do mundo. O talento brasileiro tem esse hábito inconveniente de surpreender quem não presta atenção.

A final entre Arsenal e PSG está marcada para as 13h (horário de Brasília) do dia 30 de maio, na Puskás Arena, em Budapeste. Com cinco brasileiros em campo e histórias tão distintas quanto complementares, vale gravar o jogo — porque seja qual for o resultado, pelo menos um deles vai protagonizar um momento que vai reaparecer em documentários daqui a vinte anos.