— Cara, você acha que o Neymar vai mesmo? — perguntou um torcedor ao amigo no bar, olhando o celular.
Ancelotti disse que depende só da forma física dele.
— Então tá. O Jesus tem 19 gols pela Seleção e ninguém fala nada.

Essa conversa, repetida em bares de Salvador a Porto Alegre, resume o paradoxo que Gabriel Jesus enfrenta na reta final para a convocação da Copa do Mundo de 2026. O atacante do Arsenal é o quarto maior artilheiro entre jogadores em atividade na Seleção Brasileira, com 19 gols e 13 assistências em 64 partidas — média de 0,50 participações diretas em gol por jogo. À sua frente na lista histórica entre os ativos estão apenas Neymar (79 gols), Philippe Coutinho (21) e Richarlison (20). E ainda assim, o debate público gravita em torno do camisa 10 do Santos.

O que Gabriel Jesus tem na mão agora

O retrospecto de Jesus com a Seleção inclui duas Copas do Mundo disputadas (2018 e 2022) e participação decisiva na Copa América de 2019, com gols na semifinal contra a Argentina e na final contra o Peru. Mas é o momento atual que mais interessa a Ancelotti. Após uma ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo que o tirou dos gramados durante quase todo o ano de 2025, o atacante voltou gradualmente e já registra cinco gols e duas assistências nesta temporada 2025/2026 pelo Arsenal.

Na Champions League, competição em que o Arsenal é finalista, Jesus foi protagonista na vitória por 3 a 1 sobre a Inter de Milão na fase de liga — marcou dois gols e foi eleito o melhor jogador da partida. Com 26 gols na competição ao longo da carreira, ele se tornou o terceiro brasileiro em atividade com mais gols na Champions League, ao lado de Rodrygo, atrás apenas de Neymar (43) e Vini Jr. (34). Outro trunfo tático é a versatilidade: Jesus pode atuar nas quatro funções do ataque, o que amplia as possibilidades de uso por qualquer treinador que preze por mobilidade ofensiva.

No futebol brasileiro existe um ditado que cabe bem aqui: quem não tem cão caça com gato. Ancelotti, sem garantias de ter Neymar em plena condição física, pode muito bem recorrer a um atacante que já provou entrega, volume de jogo e capacidade de adaptação em campo — exatamente o perfil de Jesus.

O critério de Ancelotti para Neymar nas próximas semanas

O técnico italiano foi direto ao ponto em entrevista ao The Guardian.

"A convocação de Neymar depende apenas dele, do que o jogador demonstrar em campo. Esse é um critério muito claro e não se aplica apenas a ele. Com a maioria dos atletas, avaliamos o talento e a condição física. No caso de Neymar, precisamos avaliar apenas a condição física, porque seu talento é indiscutível. Depende dele, não de mim", afirmou Ancelotti.

A declaração tem peso duplo. Primeiro, ela protege Neymar de qualquer questionamento técnico — o treinador já deu o aval sobre a qualidade. Segundo, transfere a responsabilidade inteiramente ao jogador, que precisará mostrar condição atlética suficiente nas partidas do Santos nas próximas semanas para entrar na lista definitiva de 26 nomes que será entregue à Fifa. Neymar consta na pré-lista de 55 atletas, mas a convocação final exige comprovação em campo.

Ancelotti também sinalizou preocupação com a gestão de protagonismo dentro do grupo. Sobre Vinícius Júnior, o treinador foi enfático:

"Essa responsabilidade pode ser um fardo para ele. Ele será muito importante para o Brasil na Copa, mas ser o número 1? O craque? Não precisamos de um número 1. Não podemos focar tudo em apenas um jogador. Precisamos pensar como um time. Essa é a única maneira de ganhar a Copa do Mundo."
A lógica coletiva de Ancelotti favorece perfis como o de Jesus — jogadores que funcionam dentro de um sistema, não em torno de si mesmos.

O que os números de Ancelotti dizem sobre a projeção para a Copa

O jornalista André Rizek trouxe um dado incômodo ao analisar o trabalho do técnico italiano à frente da Seleção: em oito jogos disputados, o aproveitamento de Ancelotti é de 58% — quatro vitórias, dois empates e duas derrotas. O número é idêntico ao de Dorival Júnior em 16 partidas no mesmo cargo.

"Aquilo que a gente está vendo em campo com a seleção, sinceramente, mudou muito pouco ou quase nada", disse Rizek, que completou a análise apontando que a grande diferença do italiano é a esperança que projeta nos torcedores para os próximos oito meses, algo que Dorival não conseguia mobilizar.

O ponto de Rizek é estatisticamente honesto. O Brasil subiu duas posições no ranking da Fifa após os resultados recentes — empate com Tunísia por 1 a 1 e vitória sobre o Senegal por 2 a 0 — e agora ocupa o 5º lugar, ultrapassando Portugal. Mas o aproveitamento de pouco mais da metade dos pontos disputados não sustenta euforia. O que sustenta a expectativa é justamente a combinação de nomes como Vini Jr., Rodrygo e a possibilidade de Neymar em forma — ou de Jesus funcionando como peça tática de alto rendimento.

O que Gabriel Jesus tem na mão agora Gabriel Jesus tem números para a Copa, m
O que Gabriel Jesus tem na mão agora Gabriel Jesus tem números para a Copa, m

Matematicamente, Jesus tem o argumento. Ancelotti, porém, já declarou que o talento de Neymar dispensa avaliação. A definição passa pelos jogos do Santos nas próximas rodadas do Campeonato Brasileiro — que ocorrem ainda em maio — e pela capacidade do camisa 10 de encadear partidas sem recaída física. Vale gravar os próximos jogos do Santos: é neles que Ancelotti vai buscar a resposta que ainda não tem.