Confesso: eu errei ao subestimar o que Gabrielzinho poderia fazer neste início de temporada. Quando o calendário do World Series foi divulgado, imaginei que Berlim seria apenas um aquecimento, um ensaio de afinação antes dos grandes torneios. Gabriel Araújo, o mineiro de 23 anos da classe S2, tratou de me corrigir com precisão milimétrica — dois ouros no último dia de competição e uma campanha que superou qualquer expectativa razoável.

O mineiro que comanda a piscina com a força da mente

Nascido em Minas Gerais, Gabrielzinho compete na classe S2, reservada a atletas com comprometimento físico-motor severo. Sua natação é, antes de tudo, um exercício de inteligência: cada braçada calculada, cada virada na borda executada com a economia de quem sabe que o corpo precisa render até o último metro. Aos 23 anos, ele já carrega uma coleção de títulos que envergonharia atletas sem qualquer limitação física.

Quando questionado sobre o desempenho em Berlim, o próprio atleta revelou o que move sua trajetória com uma clareza que poucos conseguem articular.

"Este World Series ficou acima das minhas expectativas para o momento. Estou bem feliz e surpreso. Ativei meu modo competitivo, que não importa o momento, o ano, o treinamento. Esta essência do Gabrielzinho competitivo nunca vai acabar. Minha cabeça comanda tudo o que eu faço dentro da água e isto é muito importante."

Há algo de poético nessa declaração. Em um esporte onde o físico costuma ditar os limites, Gabrielzinho inverte a equação e coloca a mente no centro do tabuleiro — como um drop shot que ninguém antecipa, mas que muda o set inteiro.

Os dois ouros que desenharam o sábado dourado em Berlim

No sábado, 9 de maio, a piscina de Berlim tornou-se palco de uma exibição que merecia câmera lenta. Nos 50m livre, Gabrielzinho cortou a água em 52s92 e acumulou 1.042 pontos no Índice Técnico da Competição (ITC) — o sistema multiclasses que permite comparar atletas de categorias distintas numa mesma série. O tcheco David Kratochvil, da classe S11, ficou com a prata; o espanhol Dambelleh Jarra levou o bronze.

O mineiro que comanda a piscina com a força da mente Gabrielzinho domina Berlim
O mineiro que comanda a piscina com a força da mente Gabrielzinho domina Berlim

Pouco depois, como se o primeiro ouro fosse apenas o aquecimento, Gabrielzinho voltou à piscina para os 150m medley. Três estilos diferentes, um único ritmo: o dele. Completou o percurso em 3min26s70, somando 1.017 pontos e superando o israelense Ami Omer, prata, e o alemão Josia Tim Alexander, bronze. Dois ouros em um único dia, com a naturalidade de quem serve um ace no ponto mais importante do game.

Ao longo de toda a etapa alemã, o mineiro somou quatro medalhas: além dos dois títulos do sábado, havia conquistado ouro nos 100m livre e prata nos 50m borboleta no primeiro dia de disputas — um desempenho que atravessou a competição inteira como um backhand cruzado que ninguém conseguiu devolver.

Brasil fecha com 19 medalhas e elenco que vai além de uma estrela

A delegação brasileira encerrou a etapa de Berlim com 19 medalhas: seis ouros, nove pratas e três bronzes entre adultos, mais um ouro nas provas juvenis. O número revela um coletivo sólido, não apenas a genialidade de um único nome.

Arthur Xavier, da classe S14 (deficiência intelectual), conquistou sua terceira medalha na competição ao cravar 58s78 nos 100m costas, somando 1.018 pontos e levando a prata. O ouro ficou com o britânico Mark Tompsett, também da S14, enquanto o bielorrusso Yahor Shchalkanau, da classe S9, completou o pódio com o bronze.

O catarinense Talisson Glock, campeão paralímpico da classe S6, fechou em segundo lugar nos 400m livre com 5min01s92 e 970 pontos — prata que confirma sua consistência mesmo fora do pico de forma. David Kratochvil, da classe S11, levou o ouro; o chinês Chuanzhen Sun ficou com o bronze. Já a carioca Lídia Cruz, da classe SM4, marcou 3min01s73 nos 150m medley e subiu ao pódio com o bronze, atrás da italiana Angela e da norte-americana Leanne Smith.

O que vem depois de Berlim para Gabrielzinho e a seleção

A etapa alemã encerrou, mas a delegação brasileira permaneceu em Berlim para disputar o IDM — o Campeonato Alemão Internacional de Natação, programado entre domingo, 10, e terça-feira, 12 de maio. Uma sequência imediata que testa a capacidade de recuperação de cada atleta e oferece mais dados sobre a evolução da temporada.

Para Gabrielzinho, cada competição é um match point diferente. Ele não nada para vencer apenas o adversário na raia ao lado; nada contra o próprio tempo, contra a gravidade, contra qualquer narrativa que tente diminuir o que um atleta da classe S2 pode alcançar. Berlim foi mais um set vencido com autoridade. Até os Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028, haverá muitos outros — e, se a temporada de 2026 serve de indicativo, o mineiro chega a cada um deles com a mesma essência competitiva que ele mesmo descreve: aquela que nunca vai acabar.

O próximo grande teste do circuito paralímpico de natação será definido nas próximas semanas pelo calendário do IPC. Em julho de 2026 saberemos se Berlim foi apenas o começo de uma temporada histórica ou o pico de uma curva que ainda tem muito espaço para subir.