Todo mundo sabe que Gael Monfils vai se aposentar ao fim de 2026. O que poucos param para calcular é o tamanho do vazio que ele deixa — e, quando os números aparecem na tela, a grandeza do que estamos perdendo finalmente ganha contorno. Há 21 anos competindo no circuito ATP, o francês de 39 anos anunciou em fins de 2025 que a temporada vigente seria sua última como profissional. Ele então foi a Auckland, venceu o título e, como se quisesse garantir que a despedida tivesse a assinatura certa, tornou-se o campeão mais velho do circuito desde 1990 — um recorde de longevidade que ficou 35 anos sem ser alcançado por ninguém.
A decisão que veio de dentro do vestiário, não da derrota em quadra
Monfils não anunciou a aposentadoria depois de uma eliminação dolorosa, nem em meio a uma crise de lesões que o afastou por meses — embora as contusões, especialmente no tornozelo direito, tenham marcado seus últimos anos. O comunicado veio de forma deliberada, quase filosófica, como quem faz as contas sem pressa.
"Depois de celebrar meu 39º aniversário um mês atrás, gostaria de compartilhar que o ano que vem será meu último como tenista profissional. A oportunidade de transformar minha paixão em profissão foi um privilégio que eu curti em cada jogo e momento da minha carreira de 21 anos. Apesar de que esse jogo signifique tudo para mim, estou tremendamente em paz com minha decisão de me aposentar ao fim da temporada de 2026", escreveu o francês.Esse tom, esse equilíbrio raro entre gratidão e clareza, já diz muito sobre quem Monfils é fora das câmeras — e sobre por que a sua saída merece ser tratada com mais cuidado do que um simples comunicado de assessoria.
Sua esposa, a ucraniana Elina Svitolina, 31 anos e atual 12ª colocada no ranking WTA, não escondeu a emoção. No Australian Open de 2026, um dia após a derrota de Monfils para o qualifier australiano Dane Sweeny por 6-7(3), 7-5, 6-4 e 7-5, Svitolina entrou em quadra e venceu Linda Klimovicova por 7-5 e 6-1. Na entrevista após o jogo, ela foi direta:
"Claro que fiquei muito, muito triste ontem", admitiu. Sobre o papel do marido em sua equipe após a aposentadoria, ela sorriu: "Ele é só o marido, eu diria."O casal, casado desde 2021, viajou junto pela última vez nesta temporada como dois atletas ativos em competição simultânea — um detalhe que passa despercebido, mas que resume bem a singularidade da trajetória de Monfils.
Os 13 títulos de Monfils e o que eles dizem sobre uma carreira fora do padrão
Treze títulos ATP em 21 anos de circuito não é o currículo de um campeão serial, e Monfils nunca pretendeu ser. Para ter referência: entre 2003 e 2024, Roger Federer acumulou 103 títulos, Rafael Nadal 92 e Novak Djokovic 98. A comparação não diminui Monfils — ela contextualiza o tipo de tenista que ele foi. Seu pico de ranking, o sexto lugar do mundo em 2016, é o dado que mais impressiona quando se leva em conta que nunca conquistou um Grand Slam e ainda assim sustentou presença constante entre os 20 melhores do planeta por mais de uma década.
A lista de títulos cobre um espectro geográfico e temporal notável: Sopot em 2005, Metz em 2009, três vezes em Montpellier (2010, 2014 e 2020), Estocolmo em 2011 e novamente em 2023, Washington em 2016, Doha em 2018, Roterdã em 2019 e 2020, Adelaide em 2022 e, por fim, Auckland em janeiro deste ano. São 21 anos separando o primeiro do último troféu — uma janela que pouquíssimos jogadores da história conseguiram manter aberta.
O que Monfils representa para o tênis francês além dos números de ranking
A França produziu jogadores tecnicamente superiores a Monfils em diferentes fases do esporte — de Yannick Noah, campeão de Roland Garros em 1983, a Jo-Wilfried Tsonga e Richard Gasquet, que chegaram mais perto de títulos de Grand Slam. O que nenhum deles trouxe com a mesma intensidade foi o elemento circense, aquela combinação de atletismo de ponta com teatralidade que transformava partidas de segunda rodada em ATP 250 em atrações que as pessoas comentavam no dia seguinte. Sua elasticidade — os mergulhos, as recuperações impossíveis, os smashes executados de costas para a rede — não eram artifício: eram produto de um corpo treinado com obsessão e de uma inteligência espacial raramente vista no circuito.
Desde Guga Kuerten em Roland Garros no início dos anos 2000, poucos tenistas construíram uma relação tão visceral com o público de quadra como Monfils. Os dados de audiência nos torneios em que ele jogava confirmavam esse magnetismo — mas o número mais revelador talvez seja o mais simples: 21 temporadas completas no circuito profissional, com lesões sérias incluídas, mantendo o nível suficiente para vencer um título ATP aos 39 anos. Isso não acontece por acidente e não se explica apenas com estatística de serviço.
Monfils disputa o restante da temporada de 2026 antes de encerrar definitivamente a carreira. Com Svitolina ainda ativa e competindo em alto nível no circuito WTA, a pergunta que fica é concreta: quando ele sentar na arquibancada pela primeira vez não como tenista, mas como marido torcendo pela esposa em uma final de Grand Slam, qual será a reação do público que passou duas décadas aplaudindo os seus próprios voos rasos sobre o saibro?









