Quem rebaixou um clube em 2011 e voltou para se tornar o maior técnico de sua história? Marcelo Gallardo. O paradoxo não é coincidência — é a linha narrativa mais precisa para entender o que o River Plate viveu nos últimos anos. Com a vitória por 2 a 1 sobre o Atlético Tucumán, em Mendoza, o treinador chegou a 14 títulos pelo clube de Núñez, consolidando um legado sem paralelo na história da instituição.

A Copa da Argentina que fecha um ciclo de domínio continental

Os gols de Scocco, aos 10 minutos do primeiro tempo, e de Nacho Fernández no início do segundo tempo foram suficientes para garantir o bicampeonato consecutivo da Copa da Argentina. O Tucumán empatou logo após o primeiro gol, com Luis Rodríguez, maior ídolo do clube centenário, mas não resistiu ao ritmo imposto pelo Millonario. Para o Decano — que tentava seu primeiro título nacional em 115 anos de história —, restou a consolação de herdar a vaga na Libertadores, já que o River tinha a classificação assegurada pelo vice-campeonato argentino da temporada anterior.

A conquista foi a terceira Copa da Argentina de Gallardo à frente do clube e integra um portfólio que inclui duas Libertadores (2015 e 2018), duas Recopas Sul-Americanas, uma Copa Sul-Americana, uma Copa Suruga e múltiplos títulos nacionais. Segundo apuração do SportNavo, nenhum técnico na história do River acumulou tantas taças em uma única passagem pelo clube.

Labruna, Pellegrini e a régua histórica que Gallardo redefiniu

Ángel Labruna, ídolo como jogador nas décadas de 1940 e 1950, construiu como técnico um palmarès de 7 títulos pelo River entre os anos 1970 e 1980 — incluindo campeonatos argentinos e o Metropolitano. Manuel Pellegrini, hoje reconhecido internacionalmente, somou 4 conquistas pelo clube na década de 1990. Gallardo, que assumiu o comando em junho de 2014, já havia ultrapassado ambos antes mesmo desta Copa da Argentina. Com 14 títulos, a distância para o segundo colocado da lista histórica passou a ser de sete troféus.

A comparação, porém, exige contexto. Labruna atuou em uma era de futebol argentino mais fechado, sem a pressão continental que Gallardo enfrentou. Pellegrini dirigiu um clube ainda em processo de reconstrução identitária. Gallardo, por sua vez, pegou um River que havia saído do rebaixamento à segunda divisão em 2011 — o pior episódio da história do clube — e o transformou em potência continental.

Da segunda divisão ao topo do continente — o peso do contexto

O River que Gallardo encontrou em 2014 ainda carregava as cicatrizes do descenso. A equipe havia retornado à primeira divisão em 2012 sob Ramón Díaz, que conduziu o clube ao título do Torneio Final 2013-2014, mas a fragilidade institucional era evidente. Gallardo chegou em junho daquele mesmo ano e, em menos de seis meses, já erguia a Copa Sul-Americana. A Copa Suruga Bank viria em 2015, seguida da Libertadores — a primeira em 21 anos para o clube.

A reconstrução não foi apenas de resultados. O técnico implantou um modelo de jogo baseado em pressão alta e transições rápidas, aproveitando as canteras do clube para formar elencos competitivos sem depender de gastos exorbitantes. No título do Troféu dos Campeões de dezembro de 2021, por exemplo, seis dos 14 jogadores que foram a campo eram formados nas categorias de base do próprio River.

O legado que os números confirmam — e o que vem a seguir

A questão sobre o maior técnico da história do River já tem resposta nos dados: 14 títulos, dois continentais, e uma passagem ininterrupta de mais de sete anos no comando. Labruna foi o símbolo de uma geração; Pellegrini foi o precursor da modernização tática. Gallardo, no entanto, operou como o arquiteto de uma era — construindo identidade, resultados e relevância global para um clube que havia tocado o fundo do poço.

Com o bicampeonato da Copa da Argentina assegurado, o próximo compromisso do River será a Supercopa Argentina contra o Boca Juniors, atual campeão argentino — o que será apenas a segunda decisão de título entre os dois rivais históricos, após a final do Campeonato Argentino de 1976, quando o Boca levou a taça. O Superclássico decisivo está previsto para o final de janeiro de 2018, e Gallardo chega a ele como o técnico mais vitorioso da história do clube que um dia o rebaixou.