Numa sala de reuniões sem câmeras, longe dos holofotes do Nilton Santos, o destino da SAF do Botafogo está sendo decidido agora. O clube que conquistou o Brasileirão e a Libertadores em 2024 enfrenta hoje recuperação judicial, dívidas bilionárias e um controle societário congelado pela Justiça. Quem vai arrematar os 90% restantes do futebol alvinegro é a pergunta que move quatro grupos com dinheiro na mão.

A GDA Luma avança e o acerto com o social do Botafogo é iminente

A GDA Luma retomou os contatos diretos com o associativo do clube nas últimas semanas e, segundo informações do Canal do Manel divulgadas nesta terça-feira (19 de maio), o acerto com o Mais Tradicional — entidade que representa o social — é descrito como "iminente". O fundo tem como modelo de negócios justamente o que o Botafogo representa hoje: empresas adquiríveis abaixo do valor de mercado por conta de crise financeira, mas com alto potencial de reestruturação.

O histórico recente entre as partes já existia antes desta negociação. Em fevereiro deste ano, a GDA Luma concedeu um empréstimo de US$ 25 milhões (cerca de R$ 124 milhões) ao Botafogo — à época ainda sob gestão de John Textor — com juros elevados. O dinheiro foi usado para quitar uma dívida com o Atlanta United referente à compra do meia Almada, em junho de 2024, e tirar o clube do transfer ban imposto pela FIFA.

Agora, a GDA quer sair da posição de credora para a de controladora. A oferta do fundo supera a proposta de Textor e é considerada a mais robusta entre as que estão sobre a mesa do social alvinegro.

A GDA Luma avança e o acerto com o social do Botafogo é iminente GDA Luma tem ac
A GDA Luma avança e o acerto com o social do Botafogo é iminente GDA Luma tem ac

Textor volta com R$ 480 milhões mas a oferta não é suficiente

O ex-controlador da SAF não está fora da disputa. John Textor, afastado do poder por tribunal constituído após decisão da Justiça do Rio de Janeiro que cassou os direitos políticos da Eagle/Ares — detentora da maior fatia da SAF —, teria apresentado uma oferta de €95 milhões (aproximadamente R$ 480 milhões) para retornar ao comando do futebol alvinegro.

A proposta de Textor, porém, está estruturada em bases complexas: financiamentos externos, um possível acordo entre a Ares e o Lyon — clube francês também ligado ao seu grupo — e um fundo de contingência. A composição da oferta, dependente de múltiplas variáveis, é vista com ceticismo por parte do social do clube.

"A oferta de Textor é inferior à da GDA Luma", informou o Canal do Manel, veículo que acompanha os bastidores alvinegros.

A diferença entre as duas propostas é expressiva — algo próximo da distância rodoviária entre Recife e Fortaleza em termos de confiança financeira: uma está no concreto, a outra depende de acordos ainda não formalizados.

Quatro concorrentes e a decisão que define o Botafogo pós-recuperação judicial

O social do Botafogo não tem apenas dois pretendentes. Pelo menos quatro grupos apresentaram propostas formais ou informais. Um fundo de investimentos sediado no Texas, nos Estados Unidos, teria feito o que fontes próximas às negociações classificam como uma "proposta fortíssima". O quarto interessado seria uma rede multiclubes, modelo cada vez mais comum no futebol global.

O contexto legal torna a decisão ainda mais delicada. Com os direitos políticos da Eagle/Ares cassados pela Justiça fluminense, o social — detentor de apenas 10% da SAF — passou a controlar operacionalmente o futebol do clube. Isso dá ao associativo poder desproporcional à sua participação acionária, ao menos enquanto o imbróglio jurídico não for resolvido.

O SportNavo apurou que o processo de recuperação judicial, combinado com a estrutura de dívidas do clube, cria um cenário em que o comprador precisa não apenas injetar capital imediato, mas assumir passivos que analistas estimam na casa dos R$ 400 milhões a R$ 500 milhões em obrigações trabalhistas, fiscais e contratuais com jogadores e fornecedores.

Textor volta com R$ 480 milhões mas a oferta não é suficiente GDA Luma tem acert
Textor volta com R$ 480 milhões mas a oferta não é suficiente GDA Luma tem acert

A GDA Luma tem experiência documentada nesse tipo de operação. O fundo já atuou em reestruturações de empresas com passivos elevados em diferentes setores, e o modelo aplicado ao futebol brasileiro não seria inédito no mercado internacional — fundos similares atuaram em clubes europeus em recuperação nos últimos dez anos.

Para o torcedor alvinegro, a questão prática é simples: quem assumir o controle precisa resolver o transfer ban potencial, honrar os salários do elenco e garantir inscrições nos torneios de 2026. O Botafogo disputa o Brasileirão Série A e a Copa do Brasil nesta temporada, e qualquer instabilidade societária pode afetar o registro de atletas nos sistemas da CBF e da Conmebol.

O prazo para que o social defina com qual grupo vai negociar a venda dos 90% da SAF ainda não foi tornada pública. A expectativa dos envolvidos é de que uma definição ocorra até o início de julho de 2026, antes da janela internacional de transferências — quando o novo controlador precisaria estar em posição para autorizar movimentações no elenco. Até lá, o associativo segue avaliando os cenários com cautela, segundo fontes ligadas à diretoria do clube.