Não foi o gol de pênalti na final do Mundial Sub-20 de 1983 que definiu Geovani — foi o que ele fazia nos segundos anteriores a cada bola tocada, aquela pausa calculada de quem enxergava o jogo três metros à frente de todo mundo. O Vasco da Gama perdeu nesta segunda-feira (18) um dos meias mais tecnicamente refinados que já vestiu a camisa cruzmaltina. A causa foi o câncer, doença que Geovani enfrentava há anos.

Da Desportiva Ferroviária à camisa 8 do Vasco

Geovani começou a carreira nas categorias de base da Desportiva Ferroviária, clube de Vitória, no Espírito Santo. O Vasco de Roberto Dinamite foi buscar o jovem meia diretamente do interior capixaba — um movimento de prospecção que, nos anos 1980, raramente envolvia cifras milionárias, mas que tinha peso estratégico enorme para os clubes cariocas na disputa por talentos regionais.

No Cruzmaltino, Geovani assumiu rapidamente a camisa 8, posição que exige tanto capacidade de construção quanto de finalização. Sua característica mais marcante era a visão de jogo: jogava de cabeça erguida, processava opções enquanto os adversários ainda tentavam entender o movimento e distribuía a bola com precisão cirúrgica. Quem o assistia descrevia a sensação de que ele flutuava em campo.

O gol que rendeu o título mundial de 1983 e a convocação para a seleção adulta

Em 1983, Geovani integrou a seleção brasileira sub-20 que disputou o Campeonato Mundial da categoria. Na final contra a Argentina, foi ele quem converteu o pênalti decisivo — gol que garantiu o título para o Brasil. A conquista abriu caminho direto para a seleção principal.

Em 1985, sob o comando do técnico Evaristo de Macedo, Geovani treinou e atuou ao lado de nomes como Bebeto. Há registros fotográficos do período que mostram os três — Geovani, Bebeto e um terceiro companheiro — posando com a camisa da seleção, cada um com um pé sobre a bola, identificados como os mais jovens do grupo naquele ciclo.

"Era um cara legal demais, além de muito divertido para se conviver. Acompanhava de longe o tratamento do câncer, que ele enfrentava há um bom tempo, e que infelizmente causou a sua morte."

O depoimento acima é de um ex-companheiro de seleção que enfrentou Geovani em clássicos entre Corinthians e Vasco no Brasil e voltou a cruzar com ele na Itália, quando o meia atuou pelo Bologna na temporada 1989/90 — passagem europeia que atesta o nível técnico reconhecido além das fronteiras brasileiras.

Bologna, o mercado europeu e o valor de um meia brasileiro nos anos 1980

A transferência de Geovani para o Bologna, clube da Serie A italiana, na temporada 1989/90 insere o meia num contexto de exportação de futebol brasileiro para a Europa que, naquele período, ainda não movimentava as cifras astronômicas que viriam nas décadas seguintes. Meias brasileiros com passagem por seleção e título mundial sub-20 eram ativos valorizados no mercado europeu, especialmente na Itália, que vivia o auge financeiro do futebol continental.

Reparemos no detalhe: um jogador que saiu de Vitória para o Rio de Janeiro sem contrato milionário e chegou à Serie A italiana pela própria qualidade técnica percorreu um caminho que, hoje, envolveria agentes, cláusulas de venda futura e percentuais de revenda. Nos anos 1980, esse trajeto era construído quase que exclusivamente em campo.

"Era uma delícia vê-lo jogar, ou melhor, desfilar, porque parecia que flutuava quando se movimentava em campo."

A passagem pelo Bologna encerrou o ciclo europeu de Geovani. O meia retornou ao futebol brasileiro e seguiu sua carreira, mas sem o mesmo holofote que acompanhou os anos de ouro no Vasco e na seleção. O apelido de 'Pequeno Príncipe' — referência tanto à estatura quanto à elegância com que conduzia o jogo — permaneceu como marca registrada.

A morte e o legado que o Vasco carrega

A notícia da morte de Geovani nesta segunda-feira (18) chegou num dia em que a seleção brasileira divulgava nova convocação — um contraste que não passou despercebido entre quem acompanhou a geração de 1983. O câncer, que Geovani enfrentava há anos, foi a causa do falecimento.

O legado técnico do meia está documentado no título mundial sub-20 de 1983, na passagem pelo Bologna na Serie A italiana e nos anos de serviço ao Vasco, clube que o buscou ainda jovem na Desportiva Ferroviária e o transformou em ídolo. Não há estatísticas completas de gols e assistências daquele período disponíveis com a mesma precisão das bases de dados modernas, mas o impacto de Geovani no futebol brasileiro dos anos 1980 é mensurado pela memória coletiva de quem o viu jogar e pelos relatos de ex-companheiros e adversários.

O Vasco da Gama não divulgou até o momento uma nota oficial com detalhes sobre homenagens programadas. A Confederação Brasileira de Futebol também não se manifestou formalmente até o fechamento desta matéria.

Geovani tinha a rara capacidade de tornar o jogo coletivo parecer uma composição individual — como uma música de câmara em que o solista não abafa os outros instrumentos, mas faz cada um deles soar melhor do que soaria sozinho.