Não, Geovani Silva não era apenas um ídolo local de Vasco. Era um dos meias mais completos que o Brasil produziu nos anos 80 — e a geração digital mal sabe o nome dele. O Pequeno Príncipe morreu nesta segunda-feira (18), aos 62 anos, após sofrer uma parada cardíaca durante a madrugada em Vila Velha, no Espírito Santo. A família confirmou que ele passou mal de forma repentina e foi socorrido imediatamente, mas não resistiu.
O capixaba que virou símbolo cruzmaltino
Revelado pela Desportiva Ferroviária, Geovani chegou ao Vasco no início dos anos 1980 e construiu ali o núcleo da sua carreira. Foram três passagens pelo clube, uma sequência de cinco títulos estaduais e o vice-campeonato brasileiro de 1984 — resultado que ainda dói na memória cruzmaltina, mas que aconteceu com Geovani entre os protagonistas do time.
O apelido de Pequeno Príncipe não era marketing. Era uma descrição técnica: Geovani conduzia a bola com leveza cirúrgica, como uma pluma que muda de direção sem aviso, e envolvia marcadores sem precisar de velocidade bruta. Reparemos no detalhe: ele atuava num Brasil onde o meia tinha que ser também guerreiro. Geovani escolheu ser artista — e funcionou.
O Vasco lamentou a perda nas redes sociais com uma nota oficial:
"Com o mais profundo pesar recebemos a notícia do falecimento do nosso ídolo Geovani Faria da Silva, nesta segunda-feira, aos 62 anos. O 'Pequeno Príncipe', como foi carinhosamente apelidado, chegou ao Vasco da Gama no início da década de 80 e fez história no meio-campo."
Seul, a Copa América e a Europa que poucos lembram
A carreira de Geovani pela Seleção Brasileira tem dois momentos que definem gerações. Em 1988, nos Jogos Olímpicos de Seul, ele integrou o time que levou a medalha de prata — a mesma campanha que ficou marcada pelo gol de ouro de Romário e pela derrota para a União Soviética na final. Em 1989, foi campeão da Copa América no Brasil, título que encerrou um jejum de 40 anos da seleção canarinho na competição continental.
No futebol europeu, o Pequeno Príncipe defendeu o Bologna na temporada 1989/90. Em 27 partidas pelo clube italiano, marcou dois gols — um deles o que decidiu o Derby dell'Appennino contra a Fiorentina, clássico entre as cidades de Bologna e Florença. A equipe terminou em oitavo lugar e se classificou para a Copa da Uefa. Depois do Bologna, ainda passou pelo Karlsruher, da Alemanha, e pelo Tigres, do México.
A família informou que nos últimos anos Geovani enfrentou sérios problemas de saúde. No ano passado, chegou a ser hospitalizado após sofrer duas paradas cardíacas e lutava contra um câncer incurável que afeta as células da medula óssea.
"Apesar de todos os esforços da equipe médica e das tentativas de reanimação, infelizmente ele não resistiu", escreveu a família ao confirmar a morte.
O legado digital de quem jogou antes das câmeras serem onipresentes
Geovani Silva pertence a uma geração que o algoritmo não alcança com facilidade. Não há compilações em 4K, não há dados de Expected Goals, não há clipes virais no Reels. O que existe são relatos de quem foi ao estádio nos anos 80 e descreve um meia que dribla como quem costura, fluido e direto ao mesmo tempo — a elegância do futebol carioca na melhor versão.
No Twitter, o nome de Geovani entrou nos trending topics brasileiros nas primeiras horas após a confirmação da morte, com torcedores do Vasco compartilhando fotos antigas e vídeos de arquivo. A comoção digital mostra que o legado resistiu mesmo sem o suporte das plataformas modernas — transmitido de geração em geração por quem viu ao vivo.
O velório e sepultamento de Geovani acontecem na manhã desta terça-feira (19), com um culto antes do enterro no Cemitério Parque da Paz, em Vila Velha. O Vasco da Gama não tem jogo programado para esta semana antes da rodada do Brasileirão, mas a torcida já organiza uma homenagem para a próxima partida em São Januário.









