Diz-se que o Brasil tem a maior produção de volantes do mundo. Na verdade, não tem — e o motivo importa mais do que o orgulho de repetir o clichê. O que o país produz em abundância são meias disfarçados de volantes, jogadores que adoram a bola nos pés mas recuam diante do trabalho sujo de marcar. Foi exatamente essa distinção que Gilberto Silva, volante titular do pentacampeonato de 2002, colocou sobre a mesa em entrevista ao Bola da Vez, exibida neste sábado (9) no Disney+.
"Quando eu olho para o futebol brasileiro e para a Seleção, me preocupa! Quando você sai do Casemiro e o Fabinho, que são os caras para a Seleção nessa função, eu não vejo outros atletas fazendo o que eles fazem", disparou o ex-Arsenal.
A declaração não veio do nada. Às vésperas da Copa do Mundo, Carlo Ancelotti deve convocar tanto Casemiro quanto Fabinho como titulares da posição. O problema não é o presente — é o que acontece quando esses dois saírem de cena, ou, numa hipótese mais imediata, se um deles se macucar durante o torneio.
O que Gilberto Silva defende como função real do volante
Para entender a preocupação do pentacampeão, é preciso entender o que ele chama de "trabalho que ninguém gosta de fazer". Gilberto traçou uma linha clara entre o chamado "volante moderno" — que chega à área, finaliza e aparece nas estatísticas de criação — e o marcador clássico, aquele que protege a linha defensiva como uma barreira térmica diante de uma frente fria.

"Qual o grande desafio dessa posição? Se posicionar sem a bola. Mas entender qual o papel dessa função, preciso ser o cão de guarda. Tem a linha de defesa, eu preciso ser o cara que protege. Quando eles estão atacando, eu tenho que proteger eles. Eu tenho que pegar a bola e entregar para eles de novo", explicou o ex-jogador.
Reparemos no detalhe: Gilberto não critica a modernidade do futebol. Ele critica a confusão de nomenclatura que levou gerações de jovens a desprezarem o posicionamento sem bola. Makélélé, Dunga e Mauro Silva são citados por ele como referências de jogadores modernos dentro de suas características — todos marcadores natos, todos essenciais em títulos coletivos.
André, João Gomes e Danilo — o que cada um oferece como reserva
André, do Fluminense, é o nome mais recorrente nas discussões sobre o futuro da posição. Com 23 anos e passagens regulares pela Seleção, o carioca tem qualidade técnica acima da média e boa leitura de jogo, mas ainda oscila na intensidade defensiva quando o adversário pressiona em bloco. João Gomes, do Wolverhampton, é o perfil mais próximo do marcador puro que Gilberto descreve — agressivo, posicionado, mas ainda em busca de regularidade em alto nível na Premier League 2025/2026. Já Danilo aparece como opção pela versatilidade, embora sua função natural seja de lateral, o que o coloca numa posição híbrida que pode ser tanto solução emergencial quanto problema tático.
O SportNavo mapeou os dados de desempenho defensivo dos três na temporada atual: João Gomes lidera em duelos ganhos por 90 minutos (6,3), André aparece em segundo (5,1) e Danilo, quando utilizado no meio, registra apenas 3,8 — número que reforça o argumento de que ele não é solução estrutural para a vaga.
A Copa do Mundo como prazo real para uma resposta sem atalhos
O Brasil enfrenta o Panamá em amistoso no dia 31 de maio, às 17h, e depois mede forças com o Egito em 6 de junho, antes da estreia no Mundial contra Marrocos, em 13 de junho. Esses dois jogos preparatórios são, na prática, os últimos testes reais que Ancelotti terá para avaliar alternativas ao duo Casemiro-Fabinho. Com uma janela tão curta, a probabilidade de uma revolução no setor é próxima de zero — o que significa que a Copa de 2026 será disputada com os mesmos pilares de sempre.
O alerta de Gilberto Silva, portanto, não é sobre julho de 2026. É sobre o ciclo que vem depois. Se o Brasil não investir na formação de marcadores desde as categorias de base — e os dados de clubes como Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro mostram que a preferência ainda é por meias técnicos no sub-20 —, a posição de volante será, na próxima Copa, o ponto mais frágil da Seleção. Casemiro tem 34 anos e Fabinho completou 32 em outubro; a janela biológica de ambos se fecha antes do Mundial de 2030.









