Sete derrotas em oito jogos na Champions League. Esse número único sintetiza o colapso do Girona e explica tudo o que viria depois. Não foi a má fase de um mês, não foi uma sequência azarada — foi a exposição brutal de um clube que havia chegado ao limite do que sua estrutura permitia, e que agora, na temporada 2025/26, sobrevive em La Liga por apenas dois pontos de margem acima da zona de rebaixamento. O conto de fadas durou uma temporada. A ressaca está durando muito mais.
O número que o Girona não consegue apagar da memória
Há quem argumente que a terceira colocação em La Liga 2023/24 foi um acidente estatístico, produto de um calendário favorável e de um momento coletivo irrepetível. O argumento tem algum mérito — mas esconde o dado mais relevante: naquela temporada, o Girona ficou à frente do Atlético de Madrid e do Barcelona durante semanas, empatou em pontos com o Real Madrid no topo da classificação, e encerrou a competição com uma das campanhas ofensivas mais consistentes da liga. Não foi acidente. Foi um pico real — só que insustentável.
A estreia na UEFA Champions League, porém, tratou de calibrar as expectativas com crueldade. No novo formato da competição, o clube catalão venceu apenas uma das oito partidas disputadas, acumulou sete derrotas e encerrou a fase de liga na 33ª posição entre 36 equipes. Para um clube que nunca havia jogado a Champions, o baque foi duplo: esportivo e financeiro. A energia do elenco foi drenada por uma competição para a qual ele simplesmente não tinha estrutura de suporte — e La Liga começou a sentir os efeitos já em 2024/25, quando o Girona terminou o campeonato na 16ª colocação.
Como dois anos destroem o que uma temporada construiu
Na segunda-feira, 11 de maio, o Girona foi a campo contra o Rayo Vallecano fora de casa precisando de pelo menos um ponto para não ver o abismo se aproximar. O empate em 1 a 1, com o gol catalão marcado aos 45 minutos do segundo tempo, foi o tipo de resultado que não comemora, apenas alivia — e provisoriamente. O clube segue na 17ª posição, com o Deportivo Alavés pisando em seus calcanhares dentro do Z-3.
Segundo a avaliação do SportNavo, o que o Girona vive hoje não é uma crise pontual de elenco ou de treinador. É a consequência direta de um modelo que funcionou em condições excepcionais e não foi capaz de se sustentar quando as condições voltaram ao normal. O City Football Group, conglomerado que administra o clube catalão e também a SAF do Esporte Clube Bahia, tem histórico documentado de oscilações dramáticas em suas franquias: o Troyes, clube francês do grupo, sofreu dois rebaixamentos consecutivos após ser adquirido em 2020 — caiu para a segunda divisão em 2022/23 e para a terceira um ano depois. O Shenzhen Peng City, da China, garantiu a permanência na última rodada do Campeonato Chinês. O próprio Manchester City atravessou sequência de cinco derrotas seguidas em 2024, incluindo goleada de 4 a 0 para o Tottenham.
"Quando um clube menor chega ao topo de forma tão rápida, o risco do colapso é proporcional à velocidade da ascensão. Não há base estrutural que segure esse peso", analisou um comentarista esportivo especializado em futebol espanhol, durante debate transmitido após a derrota do Girona na fase de grupos da Champions.
O Grupo City e o padrão que se repete em quatro continentes
O histórico do City Football Group com rebaixamentos não é novo. Antes mesmo da explosão do Girona em 2023/24, o próprio clube catalão havia sido rebaixado da La Liga nas temporadas iniciais sob gestão do conglomerado — desceu após duas temporadas na elite e ficou três anos na segunda divisão antes de retornar em 2022/23. O Montevideo Torque, franquia uruguaia do grupo, ganhou dois títulos da segunda divisão do país — porque entre as conquistas houve um rebaixamento. O padrão é consistente demais para ser coincidência.

O que diferencia o caso do Girona é a dimensão da queda em termos de prestígio. Nenhum outro clube do grupo havia chegado tão alto — uma terceira colocação em La Liga e uma vaga na Champions são conquistas que a maioria dos clubes espanhóis jamais alcançará. Agora, dois anos depois, a mesma equipe luta para não cair para a segunda divisão espanhola. A distância entre esses dois pontos é de apenas 24 meses.

O Bahia, outro representante do conglomerado, também acendeu alertas ao longo das últimas temporadas — o clube baiano chegou à última rodada do Brasileirão de 2023 como favorito ao rebaixamento antes de escapar. A tendência de clubes do grupo oscilarem entre picos e vales profundos levanta questões sobre o modelo de gestão centralizado: até que ponto o suporte do conglomerado compensa a falta de estrutura local para sustentar campanhas de alto nível?
O Girona tem pela frente as últimas rodadas de La Liga para confirmar a permanência. Com dois pontos de vantagem sobre o Deportivo Alavés, o clube não pode mais depender de gols nos acréscimos para respirar — qualquer tropeço direto contra um rival na mesma faixa da tabela pode ser definitivo. É o mesmo cenário que o próprio Girona viveu em 2018, quando desceu pela primeira vez sob gestão do City Football Group — só que agora a aposta é diferente: o clube já sabe o gosto de jogar Champions League, e isso torna a queda ainda mais difícil de aceitar.









