Todo mundo sabe que o Catar saiu de 2022 como a pior seleção anfitriã da história das Copas — zero pontos, zero gols marcados que valeram, humilhação pública num torneio que o país havia comprado com décadas de lobby diplomático. Como um único empate, quatro anos depois, começa a reescrever essa narrativa é a parte que poucos estavam esperando.
No Levi's Stadium, em Santa Clara, Califórnia, o zagueiro Boualem Khoukhi subiu no segundo poste aos 95 minutos, acertou uma cabeçada de dentro para fora e fez 1 a 1 contra a Copa do Mundo — ou melhor, contra a Suíça, que dominava o jogo com conforto desde o gol de pênalti de Embolo aos 17 minutos do primeiro tempo. O resultado é o primeiro ponto da história do Catar em Copas do Mundo, e chegou do jeito mais dramático possível.
A vergonha de 2022 ainda pesa mais do que qualquer estatística
Quando o Catar entrou em campo como anfitrião em novembro de 2022, carregava o peso de ter sido o primeiro país-sede a ser eliminado na fase de grupos desde a reformulação do torneio. Três jogos, três derrotas — 0 a 2 para o Equador, 1 a 3 para o Senegal, 0 a 1 para os Países Baixos. Saldo de gols de -4. Para um país que havia investido estimados US$ 220 bilhões em infraestrutura e construído oito estádios do zero, o fracasso esportivo soou como ironia cruel.
O paralelo histórico mais próximo é o da África do Sul em 2010, que também foi eliminada na fase de grupos como anfitriã, mas ao menos somou quatro pontos e marcou três gols. O Catar de 2022 ficou abaixo até desse piso. Para entender a magnitude do que aconteceu ontem, basta lembrar que a Islândia, em sua estreia numa Copa em 2018, arrancou um empate de 1 a 1 contra a Argentina de Messi na primeira rodada — e aquele ponto virou símbolo de toda uma geração de futebol nórdico. O Catar levou oito anos a mais para chegar ao mesmo lugar.

Como Khoukhi e o Al-Annabi seguraram a Suíça por 95 minutos
A partida contra os suíços não foi bonita — foi funcional, resistente, e terminou com um lampejo de qualidade individual. Edmilson Júnior, o meia nascido no Brasil e naturalizado catari, tentou surpreender logo aos 2 minutos, mas parou em Kobel. A partir daí, a Suíça assumiu o controle com a solidez que a caracteriza: desde a Eurocopa de 2021, quando eliminou a França nos pênaltis, Murat Yakin construiu uma equipe que sufoca adversários com posse organizada e pressão alta. Zakaria e Rúben Vargas desperdiçaram chances que, em outro dia, teriam liquidado o jogo.
O segundo tempo catari foi um exercício de compactação defensiva — o tipo de bloco baixo que lembra as equipes gregas de Otto Rehhagel na Euro 2004, não pelo talento individual, mas pela disciplina coletiva. Um cruzamento em profundidade no último lance encontrou Khoukhi livre, e o zagueiro executou a cabeçada com a precisão de quem treinou aquele movimento mil vezes. No futebol, há gols que parecem trovão anunciado — e há os que chegam como uma ressaca silenciosa, sem aviso, inundando tudo.
"Trabalhamos muito para chegar a este momento. Este ponto significa tudo para nós", disse Khoukhi em declaração após a partida, visivelmente emocionado.
Com o empate simultâneo entre Canadá e Bósnia por 1 a 1, as quatro seleções do grupo aparecem com um ponto cada na tabela — o que torna a segunda rodada decisiva para definir quem avança com folga e quem precisa de resultado na última fase.
O que um ponto muda para o futebol catari e para o grupo com Brasil e Marrocos
O Catar integra um grupo com seleção brasileira e Marrocos — duas potências com projetos consolidados. O Brasil chega a esta Copa com Ancelotti no comando e a expectativa de encerrar um jejum de 24 anos sem título mundial. Marrocos, semifinalista em 2022, é o time africano mais bem estruturado da última década. Para o Catar, o objetivo realista não é avançar de grupo, mas mostrar que 2022 foi anomalia, não padrão.
O modelo de desenvolvimento catari passou por uma transformação estrutural desde 2010, quando a Aspire Academy começou a exportar jogadores para ligas europeias. Akram Afif, artilheiro da Copa Árabe de 2021, é o exemplo mais acabado dessa política. Mas o que o jogo contra a Suíça revelou foi algo diferente: uma equipe capaz de absorver pressão por longos períodos e ainda criar perigo em transições rápidas. Isso não existia em 2022.
"Mostramos ao mundo que o Catar evoluiu. Não viemos aqui apenas para participar", afirmou o técnico Marquez Lopez em entrevista coletiva após o apito final.
Há um precedente interessante no Panamá de 2018 — outra estreante que perdeu todos os jogos, mas saiu com a dignidade de quem competiu de igual para igual contra Inglaterra e Bélgica por trechos consideráveis. A diferença é que o Panamá não tinha o peso simbólico de ter sediado uma Copa. O Catar carrega essa marca, e cada ponto conquistado agora tem um valor desproporcional ao que indicaria a tabela.
O próximo compromisso do Catar é contra o Brasil, provavelmente na segunda rodada do Grupo C. Uma derrota não encerra nada — uma performance competitiva pode consolidar a narrativa de que algo mudou estruturalmente no futebol do Golfo. O ponto está no bolso — o teste de verdade vem aí.








