A última vez que a Chapecoense acumulou quatro gols contra em uma única temporada da Série A foi em 2017, ano da tragédia aérea, quando o clube disputava a competição com um elenco reconstituído às pressas. Quase uma década depois, o número voltou — e com ele, a mesma sensação de impotência. Neste domingo (17), na Arena Condá, o zagueiro Bruno Leonardo tentou cortar um cruzamento rasteiro de Marcelinho aos 41 minutos do segundo tempo e mandou a bola para o fundo da própria rede, selando a vitória do Remo por 3 a 2 pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro.
O lance que mudou os ponteiros da tabela
O cruzamento partiu do lado direito, rasteiro, sem aparente perigo. Bruno Leonardo chegou na bola antes do atacante adversário, mas o desvio saiu torto — passou pelo goleiro Anderson e entrou no ângulo. Antes do gol, o Remo havia empatado em 2 a 2 aos cinco minutos da etapa final: Marcelinho bateu cruzado, Anderson espalmou mal e Jajá completou para o gol aberto. O roteiro de cinco gols, duas viradas e um desfecho nos acréscimos jogou os paraenses para a 18ª colocação, com 15 pontos — três a menos que Corinthians, Santos e Grêmio, que ocupam a borda da zona de rebaixamento.
A Chapecoense permanece na lanterna, com 9 pontos em 16 rodadas — média de 0,56 ponto por jogo, número que, projetado para 38 rodadas, resultaria em 21 pontos ao final da competição. Nenhum clube com esse aproveitamento escapou do rebaixamento na história recente da Série A.
Quatro gols contra e o maior passivo defensivo da Série A
O gol de Bruno Leonardo foi o quarto gol contra sofrido pela Chapecoense em 2026 — o maior número entre todos os clubes da Série A nesta temporada. Para efeito de comparação, o Remo, segundo pior nesse quesito, acumula dois. O custo financeiro dessa fragilidade vai além da tabela: cada ponto perdido por um gol contra representa, em média, R$ 280 mil a menos no rateio da cota de TV da CBF para clubes na zona de rebaixamento, segundo cálculo baseado nos critérios de distribuição do contrato vigente com Globo e Cazé TV.
O gol de Bruno Leonardo foi ainda o terceiro gol contra decisivo na 16ª rodada do Brasileirão — o Red Bull Bragantino venceu o Vitória 2 a 0 com gol do goleiro Thiago Volpi em cobrança de pênalti, e o Bahia empatou com o Grêmio em 1 a 1 na Fonte Nova. A rodada expôs uma tendência estatística preocupante: o Brasileirão 2026 já registra 19 gols contra em 16 rodadas, ritmo superior ao de qualquer temporada desde 2019.
Segundo o técnico Léo Condé, as mudanças promovidas no segundo tempo foram determinantes para o Remo retomar o controle da partida e criar os espaços que resultaram no gol da virada.
Remo ganha fôlego, mas o alívio é frágil
A vitória em Chapecó encerrou uma sequência de resultados que o Remo precisava interromper. Com duas vitórias e um empate nas últimas três rodadas, o clube paraense acumula 7 dos últimos 10 pontos disputados — desempenho de time de meio de tabela, não de lanterna. Pikachu abriu o placar aos 15 minutos com finalização de primeira após cruzamento de Vitor Bueno; a Chape empatou aos 23 com Neto Pessoa e virou logo no início do segundo tempo com Rafael Carvalheira.
O Remo de Léo Condé opera com um dos menores orçamentos da Série A. O elenco foi montado com foco em jogadores experientes de mercados regionais, sem contratações de vulto acima de R$ 1,5 milhão em luvas. A vitória sobre a Chape, no entanto, tem valor de mercado concreto: os 15 pontos mantêm o clube a seis pontos do primeiro time fora da zona de rebaixamento — distância administrável, mas que exige regularidade nas próximas seis rodadas.
Nas palavras de Neto Pessoa após a partida, o grupo catarinense precisa "levantar a cabeça rápido" porque os próximos jogos fora de casa contra Cruzeiro e Palmeiras serão ainda mais exigentes.
O efeito cascata nas próximas rodadas
O calendário não dá trégua a nenhum dos dois. No próximo domingo (24), o Remo recebe o Athletico-PR em casa — adversário que ocupa a parte de cima da tabela e chega com moral após a sequência de resultados positivos. A Chapecoense viaja para enfrentar o Cruzeiro em Minas Gerais, também às 16h (de Brasília). Uma derrota catarinense em Belo Horizonte abriria vantagem de dez pontos para os paraenses, praticamente condenando o Verdão à Série B antes da metade da competição.
O gol contra de Bruno Leonardo não foi apenas um erro individual — foi o símbolo de um déficit estrutural que a Chapecoense não conseguiu corrigir nem com o investimento feito na janela de janeiro, quando o clube contratou três zagueiros para reforçar a linha defensiva. Quatro gols contra em 16 rodadas equivalem a quatro pontos entregues ao adversário sem que o rival precisasse criar uma jogada de qualidade.
Remo, 15 pontos. Chapecoense, 9. A diferença foi construída em 41 minutos de um cruzamento rasteiro que ninguém cortou.










