As câmeras do Galeão captaram o embarque silencioso de uma delegação que, pela primeira vez em quatro anos, partia para uma Copa do Mundo sem o peso de uma crise tática declarada. Na noite de segunda-feira, 2 de junho, a Seleção Brasileira deixou o Rio de Janeiro rumo aos Estados Unidos com o eco ainda fresco do 6 a 2 sobre o Panamá, goleada marcada no Maracanã no domingo anterior. Seria injusto chamar de onda de otimismo — mas é uma onda em escala de Copa do Mundo.

Dois treinos em Nova Jersey e a lógica de Ancelotti para os primeiros dias

Menos de doze horas após desembarcar em Nova Jersey, o elenco já estava em campo. O primeiro treino em solo norte-americano aconteceu na terça-feira, 2 de junho, no CT de Morristown, completamente fechado à imprensa. A polícia local chegou a dispersar cerca de 30 torcedores que aguardavam a passagem do ônibus da delegação nas proximidades do complexo — nenhum deles pretendia invadir o treino, apenas acenar para os jogadores.

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Na quarta-feira, 3 de junho, Carlo Ancelotti comanda duas sessões. A matinal, novamente fechada, ocorre em Morristown. A vespertina integra o programa "Sessões de Treinamento Comunitário", iniciativa da Fifa que obriga todas as 48 seleções participantes da Copa do Mundo a realizarem ao menos um treino aberto ao público. A distribuição de ingressos prioriza crianças e estudantes da região, conforme protocolo registrado por SportNavo.

A lógica de Ancelotti é conhecida de quem acompanhou seu trabalho no Real Madrid: os primeiros dias são de reconhecimento físico e ajuste de cargas, não de ensaio tático. O técnico italiano, que conquistou quatro Champions Leagues em três clubes diferentes, costuma reservar os trabalhos mais específicos para a semana imediatamente anterior à estreia. Com a Copa começando para o Brasil em 13 de junho, contra Marrocos, o cronograma é justo — e calculado.

O paralelo com 2002 que os supersticiosos não conseguem ignorar

A goleada por 6 a 2 sobre o Panamá reacendeu uma comparação histórica que circula entre os torcedores mais atentos ao calendário. Em 2002, o Brasil de Luiz Felipe Scolari encerrou a preparação com uma vitória por 4 a 0 sobre a Malásia, em Kuala Lumpur, com gols de Edilson Capetinha, Denílson, Juninho Batista e Ronaldo. A Seleção então embarcou para Coreia do Sul e Japão e voltou com a quinta estrela. As coincidências não param aí.

Assim como no ciclo 2000-2002, quando o Brasil chegou ao Mundial após uma classificação nas Eliminatórias somente na última rodada — contra a Venezuela —, o atual grupo também viveu um processo atribulado. A vaga para 2026 foi confirmada na antepenúltima rodada, contra o Paraguai. E, da mesma forma que Vanderlei Luxemburgo, Candinho, Emerson Leão e Felipão se revezaram antes do título de 2002, o Brasil de 2026 passou por Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior antes de chegar a Ancelotti.

"Assim como em 2026, o Brasil pentacampeão em 2002 finalizou a preparação com goleada, após passar por uma difícil Eliminatória", observou levantamento publicado pelo Terra Esportes, traçando o paralelo entre os dois ciclos.

Comparações históricas têm valor relativo no futebol — nenhuma goleada em amistoso garantiu título algum. Mas os números de 2002 têm peso concreto: o Brasil marcou 18 gols em sete jogos na fase de grupos e no mata-mata, com Ronaldo terminando o torneio como artilheiro com 8 gols. O elenco atual, avaliado em 941 milhões de euros segundo levantamento da TransferRoom, carrega expectativa proporcional.

Dois treinos em Nova Jersey e a lógica de Ancelotti para os primeiros dias Golea
Dois treinos em Nova Jersey e a lógica de Ancelotti para os primeiros dias Golea

O amistoso contra o Egito e o que ele representa no plano de Ancelotti

O último teste antes da Copa está marcado para sábado, 6 de junho, às 19h, no Huntington Bank Field, em Cleveland. O adversário é o Egito, seleção que disputa o Grupo C do Mundial ao lado de Espanha, Canadá e Sérvia. Para Ancelotti, o duelo serve menos como laboratório tático e mais como acerto de ritmo — especialmente para os três jogadores que chegaram atrasados após a final da Champions League: Marquinhos, Gabriel Magalhães e Martinelli.

O protocolo de segurança em torno da delegação brasileira é rigoroso. O hotel em Basking Ridge e o CT em Morristown têm monitoramento constante, com esquema definido pela própria Fifa. Essa estrutura não é nova para o técnico italiano, que já administrou delegações em ambientes de alta pressão no Real Madrid — clube no qual conquistou a Champions em 2022 e 2024.

"A delegação deve desembarcar em solo norte-americano nesta terça-feira, onde iniciará os preparativos para o seu próximo e último amistoso antes da Copa do Mundo", informou o Netflu, presente no embarque no Galeão.

A estreia contra Marrocos e o que o Grupo D exige do Brasil

Sete dias separam o amistoso contra o Egito da estreia oficial. O Brasil abre o Grupo D em 13 de junho diante de Marrocos — seleção que chegou às semifinais da Copa de 2022 e eliminou Portugal e Espanha no caminho. Na sequência, os brasileiros enfrentam o Haiti em 19 de junho e encerram a fase de grupos contra a Escócia em 24 de junho.

O elenco convocado por Ancelotti figura em sexto lugar no ranking de valor de mercado da Copa, segundo a TransferRoom, atrás de França, Espanha, Inglaterra, Alemanha e Portugal. Vinicius Jr., o mais valioso do grupo brasileiro, ocupa a décima posição na lista geral — abaixo de Lamine Yamal, Haaland e Mbappé, os três únicos jogadores avaliados acima de R$ 1 bilhão individualmente. O treino aberto ao público em Nova Jersey na quarta-feira, dia 3, será o primeiro contato visual da torcida local com esse elenco — e um termômetro informal do estado físico do grupo antes do jogo contra o Egito.