Terça-feira, 13 de maio de 2026. O Fluminense vence o Operário por 2 a 1 no Maracanã, avança às oitavas de final da Copa do Brasil e, quase como nota de rodapé, atinge 200 vitórias nesta década. Um número que só o Palmeiras (240) e o Flamengo (249) haviam alcançado entre os clubes da Série A. O problema é que a vitória veio acompanhada de mais um gol sofrido — o décimo primeiro em treze partidas — e isso diz muito mais sobre o momento tricolor do que qualquer efeméride.
A defesa do Fluminense que cede mesmo quando vence
Há quem argumente que sofrer gols é normal no futebol moderno, que times ofensivos naturalmente abrem mão de solidez defensiva para criar mais. O argumento tem algum mérito no contexto europeu — o Arsenal de Arteta, por exemplo, convive com essa tensão há temporadas, apostando na intensidade ofensiva para compensar. Mas o Fluminense não é um time que cria em abundância: venceu apenas quatro dos últimos treze jogos. Ou seja, a fragilidade defensiva não é contrapartida de uma produção ofensiva exuberante. É simplesmente uma ferida aberta.
O técnico Zubeldía reconheceu o problema sem rodeios.
"Estatisticamente estamos tomando gols, mas nem sempre por domínio do adversário, algumas vezes por coisas pontuais. Não sei te dizer o porquê. Pode ser insegurança porque não estávamos ganhando, o momento do ano... Pode ser falta de sorte. É algo que temos que melhorar. Temos a condição de melhorar", disse o treinador após o jogo contra o Operário. A honestidade do diagnóstico é válida, mas a ausência de uma causa clara — insegurança, falta de sorte, momento do ano — revela que nem a comissão técnica tem uma resposta precisa para o que está acontecendo.
O analista Giba Perez, ao avaliar o sistema defensivo tricolor, apontou Freytes como o zagueiro mais confiável entre os titulares. Os outros dois que mais jogaram — Ignácio e Jemmes — vivem fase irregular, com erros que custaram pontos e uma instabilidade que contamina os laterais. Renê e Arana também vêm apresentando falhas com frequência, criando uma cadeia de vulnerabilidades que vai do lado direito ao esquerdo da defesa.
O que o que para o zagueiro argentino é questão de entrosamento tático, para o português é quase sempre problema de leitura posicional — culturas defensivas distintas que ajudam a entender por que a falta de repetição na escalação é tão devastadora em sistemas que dependem de automatismos. Zubeldía trocou ao menos dois dos quatro defensores em cada um dos últimos dez jogos. Nenhuma defesa funciona sem estabilidade de conjunto.
200 vitórias e o que esse número realmente representa
A marca de 200 vitórias desde 2021 coloca o Fluminense em companhia seleta. Atlético-MG está em quarto lugar com 195, São Paulo soma 174 e Corinthians aparece com 168 — todos distantes do tricolor carioca. Esse recorte temporal é relevante porque abrange períodos distintos: a era Fernando Diniz, o título da Libertadores em 2023, a ressaca pós-conquista e a reconstrução em curso em 2026. Chegar a 200 vitórias nesse intervalo exige consistência real, não apenas lampejos.
A comparação com Flamengo e Palmeiras, porém, precisa ser feita com cuidado. O Flamengo, com 249 vitórias, tem o maior orçamento do futebol brasileiro e uma estrutura que permite reposição imediata de peças. O Palmeiras, com 240, opera sob a lógica de um projeto de longo prazo com Leila Pereira e gestão profissional consolidada. O Fluminense chegou aos 200 com um orçamento significativamente menor e um ciclo de reconstrução ainda em andamento — o que torna o feito genuíno, mas não apaga a distância de 40 a 49 vitórias que separa o tricolor dos dois líderes.
A Copa do Brasil também trouxe retorno financeiro concreto. Com a classificação às oitavas, o clube soma R$ 5 milhões em premiações na competição — R$ 2 milhões pela entrada direta na quinta fase e mais R$ 3 milhões pela eliminação do Operário. Os jogos das oitavas só acontecerão em agosto, após a Copa do Mundo, o que dá ao Fluminense um intervalo para reorganizar o setor defensivo antes do mata-mata.
O que Ignácio, Jemmes e a bola de neve significam para a sequência
A combinação de desgaste físico, falta de entrosamento e má fase individual cria exatamente o tipo de problema que se retroalimenta. Quando um zagueiro erra e o time sofre o gol, a pressão da arquibancada aumenta, a insegurança cresce e o próximo erro se torna mais provável. Ignácio e Jemmes estão nesse ciclo há semanas. A chegada de Millán amplia as opções de Zubeldía, mas não resolve automaticamente a questão do entrosamento — um novo nome na defesa significa mais uma variável de adaptação.
As únicas duas partidas em que Fábio saiu de campo sem ser vazado nos últimos treze jogos foram empates em 0 a 0 — contra o Operário no jogo de ida e contra o Deportivo La Guaira, na Venezuela. Dois jogos com adversários de menor expressão, em contextos de baixa intensidade ofensiva do próprio Fluminense. Não há nenhum jogo de alto nível nessa lista de clean sheets. Isso é dado, não opinião.
É o mesmo cenário que o Fluminense viveu em 2019, quando a defesa furou sistematicamente no primeiro semestre antes de uma arrumação que resultou no acesso à Série A — só que agora a aposta é diferente: o clube já está na elite, já ganhou a Libertadores, e a tolerância para instabilidade defensiva prolongada em fase de oitavas de Copa do Brasil é, compreensivelmente, muito menor. O próximo adversário do Fluminense nas oitavas será definido em sorteio da CBF, com os jogos programados para agosto.









