É um relógio suíço com pavio curto.

A metáfora serve porque captura duas verdades simultâneas sobre Granit Xhaka: a precisão mecânica com que ele organiza o jogo ao redor de si, e a tensão latente que acompanha cada partida em que ele entra em campo. O meia suíço de 33 anos, que hoje veste a camisa 34 do Sunderland, carrega consigo um paradoxo que o futebol europeu raramente resolve com facilidade — ser ao mesmo tempo o homem mais inteligente do campo e o mais difícil de gerenciar emocionalmente.

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Na temporada 2025/2026 da Premier League, Xhaka acumula 33 jogos, 1 gol e 6 assistências. São números que, isolados, descrevem um meia de construção sólido e útil. Mas eles não contam tudo.

O que ele ainda não resolveu Granit Xhaka e a lacuna que um meia de 3
O que ele ainda não resolveu Granit Xhaka e a lacuna que um meia de 3

O que ele ainda não resolveu

Existe uma lacuna específica na carreira de Granit Xhaka que nenhuma estatística consegue suturar completamente: a incapacidade de coexistir com a pressão sem deixá-la transbordar. Para um jogador de futebol nascido em 27 de setembro de 1992, em Basel, na Suíça, que chegou aos 33 anos com a musculatura mental de quem já jogou em grandes palcos europeus, a questão não é técnica — nunca foi. É comportamental. É a fissura entre o jogador que ele é quando tudo flui e o jogador que ele se torna quando o jogo aperta.

O que para o argentino é uma questão de temperamento — algo quase folclórico, quase admirável — para o britânico é um problema de disciplina. Essa diferença cultural é central para entender por que Xhaka sempre dividiu opiniões com tanta intensidade nos países onde jogou. Na Inglaterra, onde o futebol é tratado como liturgia e os meias de contenção são reverenciados pela frieza, um jogador que explode é visto com desconfiança estrutural, não com romantismo.

Onde está hoje em relação a esse buraco Granit Xhaka e a lacuna que um meia de 3
Onde está hoje em relação a esse buraco Granit Xhaka e a lacuna que um meia de 3

A lacuna, portanto, não é de qualidade. É de controle.

Onde está hoje em relação a esse buraco

O Sunderland de 2026 não é um clube de tradição recente na Premier League — é um projeto em reconstrução, um ambiente que exige exatamente o tipo de liderança técnica que Xhaka, quando está bem, oferece com naturalidade. Com 186 centímetros e 80 quilos, ele tem a presença física para dominar linhas de passe e o repertório técnico para ditar o ritmo de uma equipe inteira.

Trinta e três jogos nesta temporada. É uma carga expressiva para um meia de 33 anos numa liga tão exigente fisicamente quanto a Premier League.

E as 6 assistências desta temporada contam uma história específica: Xhaka não está apenas participando — ele está criando. Está conectando setores, abrindo espaços, funcionando como o eixo de rotação que o Sunderland precisa para jogar com fluidez. O gol único, quase irrelevante numericamente, não define seu papel. Sua função nunca foi marcar — foi construir.

O SportNavo acompanhou de perto os números desta temporada, e o que eles revelam é um jogador que encontrou, ao menos momentaneamente, um equilíbrio entre o que ele pode oferecer e o que o clube exige. A pergunta é se esse equilíbrio é estrutural ou apenas conjuntural.

O caminho técnico para tapá-lo

Fechar a lacuna comportamental de Xhaka passa por uma questão que vai além de treino tático. Passa por entender que, a esta altura da carreira, o jogador não vai mudar quem é — ele vai, no máximo, aprender a usar melhor o que tem.

O caminho técnico é simples de enunciar e difícil de executar: canalizar a intensidade para a leitura de jogo, não para o confronto físico. Xhaka é mais perigoso quando usa a agressividade como pressão posicional — quando força erros adversários com a ameaça do seu corpo no espaço — do que quando a direciona para disputas desnecessárias. Um meia que joga 33 partidas numa temporada e distribui 6 assistências já demonstrou que sabe fazer isso. O que falta é consistência emocional para manter esse nível nos momentos em que o jogo sai do controle.

A solução técnica, portanto, é também psicológica: menos reatividade, mais antecipação. Menos presença física desnecessária, mais presença intelectual dominante.

O que isso destrava na carreira

Se Xhaka conseguir fechar essa lacuna — mesmo parcialmente — o que se abre à frente não é necessariamente uma sequência de títulos. É algo mais raro e mais duradouro: a possibilidade de terminar a carreira sendo lembrado pelo que construiu, não pelo que destruiu em momentos de explosão.

Aos 33 anos, com contrato no Sunderland e uma temporada de 33 jogos no currículo recente, ele ainda tem fôlego para mais dois ou três anos de futebol de alto nível. O que acontece nesses anos depende menos de seus pés e mais de sua cabeça. Depende de saber que um relógio suíço é precioso exatamente quando funciona em silêncio — e que o pavio só serve para explodir pontes que ele mesmo precisará atravessar.

O Sunderland apostou nele. A Premier League observa. E Granit Xhaka, com a experiência acumulada de décadas em campos europeus, sabe melhor do que ninguém que a diferença entre legado e arrependimento raramente cabe em mais de um segundo de decisão.