Em julho de 1998, Zagallo levou Dunga ao Mundial da França com 34 anos e atuando no Júbilo Iwata, do Japão — longe do holofote europeu, distante do seu melhor futebol, mas carregando o peso simbólico de quem ergueu a taça quatro anos antes nos Estados Unidos. A história não é nova: a Seleção Brasileira tem uma relação antiga e complicada com o critério de status na hora de montar uma lista para Copa do Mundo. O que surpreende em 2026 é que Carlo Ancelotti, justamente o técnico que deveria romper com essa tradição, acabou reproduzindo-a com uma fidelidade desconcertante.
A cena que define a convocação de Neymar
Na última quinta-feira antes do anúncio da lista, uma videochamada reuniu Ancelotti, o coordenador Rodrigo Caetano e Neymar. Segundo o ge, o treinador foi direto: o camisa 10 não seria capitão, não teria titularidade garantida e precisaria aceitar um papel diferente de tudo que viveu nos ciclos anteriores. Neymar ouviu, sorriu e concordou. A convocação estava selada. O que não foi discutido naquela chamada — ao menos não publicamente — é que o atacante do Santos não tem atuações de alto nível desde que retornou ao futebol brasileiro, com sequência irregular e muito aquém do nível que justificaria uma vaga entre os 26 melhores do país.
A CBF, por sua vez, transformou o anúncio em um evento-espetáculo no Rio de Janeiro, com influenciadores, ex-jogadores e plateia reagindo a cada nome. Naquele ambiente, como o próprio jornalismo especializado apontou, seria politicamente inviável para Ancelotti chegar ao microfone e simplesmente ignorar o camisa 10. A pressão de jogadores influentes do elenco, como Casemiro e Raphinha, que defendiam publicamente Neymar no grupo, somou-se à pressão institucional da própria entidade. O resultado é que o técnico italiano chegou à sua primeira Copa carregando uma decisão que, tecnicamente, ele mesmo teria dificuldade de defender em uma análise fria de desempenho.
João Pedro eleito melhor do Chelsea, fora da Copa
No dia seguinte à convocação, o Chelsea divulgou o resultado da votação interna de melhor jogador da temporada 2025/26: João Pedro venceu com folga. O atacante acumula 20 gols e seis assistências em 49 jogos na temporada, números que colocam qualquer centroavante no radar de qualquer seleção do mundo. O Barcelona, segundo o jornal espanhol Mundo Deportivo, já estuda uma abordagem ao Chelsea para contratá-lo como substituto de Robert Lewandowski — o que diz muito sobre o nível em que o brasileiro opera atualmente.
"Procurei dar o meu melhor a todo tempo. Infelizmente, não foi possível realizar esse sonho de defender meu país em uma Copa do Mundo, mas sigo tranquilo e centrado, como sempre procuro estar. Alegrias e frustrações fazem parte do futebol", escreveu João Pedro nos Stories do Instagram após a exclusão.
Ancelotti, ao justificar a ausência do atacante, foi lacônico. Mencionou que ele e Andrey Santos teriam "a oportunidade de estar no projeto da próxima Copa do Mundo" — uma frase que, traduzida do diplomatês, significa que o treinador priorizou outros nomes sem apresentar critério técnico claro para isso. Na avaliação do SportNavo, a exclusão de João Pedro é a decisão mais difícil de explicar em toda a lista, justamente porque contraria o único argumento que Ancelotti repetiu ao longo do ciclo: o de que a forma recente seria determinante.
Experiência como critério e o precedente dos goleiros
O próprio Ancelotti abriu uma janela para entender sua lógica ao falar sobre a posição de goleiro. Bento, de 26 anos e titular do Al-Nassr, ficou fora. Weverton, de 38 anos, entrou. O coordenador Taffarel explicou que as lesões recentes de Alisson e Ederson levaram a comissão a buscar "uma experiência" — e Weverton, com mais de 50 convocações e participação em competições importantes, era esse nome.

"A verdade é que em algumas posições, como a de goleiro, privilegiamos um pouco mais a experiência", disse Ancelotti em coletiva de imprensa.
O raciocínio tem lógica defensável no caso dos arqueiros, onde a leitura de jogo acumulada ao longo dos anos pode compensar uma queda de rendimento pontual. O problema é quando esse mesmo critério migra silenciosamente para outras posições — como o ataque — sem que o treinador o declare abertamente. Neymar não foi convocado com a justificativa de "experiência". Foi convocado após uma videochamada que, segundo relatos, mudou o cenário que antes parecia improvável. A diferença entre os dois casos é que Weverton ao menos mantém regularidade no Palmeiras. O camisa 10 do Santos, não.
Historicamente, a Seleção já convocou jogadores pelo peso do nome em detrimento da forma. Em 1978, Falcão, então um dos maiores destaques do Internacional, foi preterido por Cláudio Coutinho apesar da pressão popular — um caso inverso, mas que ilustra como critérios extracampo sempre interferiram nas listas. Em 1998, a presença de Dunga no Japão foi aceita porque ele era o capitão do tetra. A diferença é que ninguém fingiu que Dunga estava em grande fase: o argumento era liderança, explicitamente. Com Neymar em 2026, nem isso ficou claro.
Igor Thiago, vice-artilheiro da Premier League com 22 gols em 37 jogos pelo Brentford na temporada — atrás apenas de Erling Haaland, que soma 26 —, entra na lista como a face oposta dessa equação: um jogador convocado puramente pelo que fez em campo, sem lobby, sem espetáculo de convocação, sem videochamada decisiva. A trajetória do atacante de 24 anos, que trabalhou em feiras e como servente de pedreiro antes de chegar à Europa pelo Ludogorets e depois pelo Club Brugge, representa o critério meritocrático que Ancelotti proclama e que, em outros momentos da mesma lista, claramente cedeu.
O Brasil estreia no Grupo C no dia 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. Será o primeiro teste real de Ancelotti como técnico em uma Copa do Mundo — e a primeira oportunidade de saber se Neymar, sem titularidade garantida e sem a braçadeira de capitão, ainda tem condições de influenciar um jogo de alto nível. Em 13 de junho saberemos se a gratidão do treinador italiano valeu um lugar na história ou apenas uma vaga desperdiçada.












