Neymar já esteve ausente de Copas do Mundo por lesão antes. Em 2014, uma fratura na vértebra lombar o tirou da semifinal contra a Alemanha — o 7 a 1 que ainda assombra o imaginário do torcedor brasileiro. Em 2022, uma entorse no tornozelo o afastou dos primeiros jogos no Catar. Agora, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o roteiro se repete com variação: desta vez é uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha direita, confirmada pelo médico da seleção, Rodrigo Lasmar, na quinta-feira, 28 de maio. O que muda é que a janela de decisão nunca foi tão estreita.
O diagnóstico que agravou a situação
Antes da apresentação na Granja Comary, o Santos havia comunicado ao mercado que Neymar carregava um edema muscular de dois milímetros — condição que, por definição clínica, não implica ruptura de fibras. A ressonância magnética realizada na quarta-feira, 27, em uma clínica particular de Teresópolis, alterou esse quadro. O laudo identificou lesão estrutural, o que o fisioterapeuta esportivo Vinícius Souza classifica como "ruptura parcial das fibras musculares", com dor importante, perda de força e limitação funcional. A diferença entre edema e grau 2 não é semântica: é a diferença entre dias e semanas de recuperação.
A CBF, em nota oficial, informou que "nenhuma outra informação será divulgada até o fim das avaliações por parte da equipe médica". Lasmar estima recuperação entre duas e três semanas — o que, no melhor cenário, posiciona Neymar às vésperas da estreia contra o Marrocos, marcada para 13 de junho, às 19h (horário de Brasília). No pior, ele chega ao jogo sem carga competitiva há quase um mês.
Três Copas, três lesões e um padrão que a sociologia do esporte reconhece
Há uma dimensão estrutural nessa recorrência que transcende o azar individual. Neymar completou 34 anos em fevereiro de 2026 e acumula, desde 2017, pelo menos seis interrupções por lesões musculares ou ligamentares de grau moderado a grave. A sobrecarga do calendário do futebol brasileiro — o Brasileirão já estava na 16ª rodada quando ele se machucou contra o Coritiba, em 17 de maio — colide com a demanda física de uma Copa do Mundo disputada em junho, em cidades norte-americanas com temperatura e altitude variáveis.
Pesquisas do CIES Football Observatory sobre cargas de jogo em atletas acima de 32 anos indicam que o risco de lesão muscular aumenta 38% quando o intervalo entre o último jogo competitivo e a estreia em torneio de alto nível é inferior a 21 dias. Neymar jogou pelo Santos em 17 de maio. A estreia do Brasil é em 13 de junho. São 27 dias — margem mínima, não confortável. E agora, com a lesão, ele não treina com bola.
"Tradicionalmente, a lesão muscular grau 2 é classificada como uma lesão moderada, caracterizada por uma ruptura parcial das fibras musculares. Diferente de um simples edema muscular, em que as fibras permanecem íntegras, aqui existe um dano estrutural ao tecido muscular, o que normalmente gera dor importante, perda de força e limitação funcional logo após a lesão", explicou Vinícius Souza, especialista em Fisioterapia Esportiva.
A regra da Fifa e o relógio que já está correndo
O regulamento da Fifa para substituições na lista final é preciso: um jogador pode ser trocado por outro que conste na lista provisória — que pode ter até 55 nomes — até 24 horas antes da estreia da seleção. A CBF precisa protocolar o pedido com avaliação médica detalhada em um dos idiomas oficiais da entidade, e a Fifa decide se a lesão é grave o suficiente para justificar a troca. O substituto herda o número de camisa do atleta cortado.
A seleção brasileira não pretende cortar Neymar agora, segundo apuração do UOL confirmada por fontes próximas ao jogador. A estratégia é mantê-lo em tratamento intensivo na Granja Comary e reavaliar dia a dia. Pessoas próximas ao atacante sustentam que a lesão não compromete sua participação no torneio — mas essa versão foi a mesma que o Santos comunicou antes da ressonância revelar o grau 2. Há, portanto, uma disputa de narrativas entre clube e confederação que já produziu informações contraditórias ao longo da semana.
"O jogador foi encaminhado a uma clínica na cidade para a realização de exames complementares", informou a CBF em nota oficial, sem detalhar o diagnóstico inicial, que só viria no dia seguinte pela fala de Lasmar.
O impacto tático e o custo político de uma eventual ausência
Carlo Ancelotti já iniciou a preparação para a Copa sem três titulares — Marquinhos, Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli, todos envolvidos na final da Liga dos Campeões entre Arsenal e PSG, em Budapeste, no sábado, 30 de maio. Neymar ausente nos dois amistosos preparatórios (Panamá, dia 31, no Maracanã; e Egito, dia 6 de junho, em Cleveland) significa que o técnico italiano chegará à estreia sem ter testado sua peça mais simbólica em nenhuma situação real de jogo.
No plano tático, Neymar funciona como o pulmão criativo da seleção — o jogador que conecta o meio-campo ao ataque em espaços reduzidos, especialmente quando Vinicius Jr. e Rodrygo atuam pelos flancos. Sem ele, Ancelotti precisará redistribuir essa função, possivelmente para Lucas Paquetá ou para um esquema com mais mobilidade de Raphinha. A ausência não desequilibra o elenco em termos de qualidade agregada, mas altera o padrão de jogo que a comissão técnica vem construindo desde março.
Em matéria do SportNavo publicada ao longo desta semana, os dados sobre o histórico de lesões de Neymar em anos de Copa reforçam o padrão: o jogador chegou comprometido fisicamente às três últimas edições do torneio. A questão que Ancelotti e Rodrigo Caetano precisarão responder até 12 de junho — 24 horas antes do apito inicial contra Marrocos — não é apenas médica. É sobre o quanto uma seleção de alto desempenho pode depender de um atleta que chega ao maior torneio do mundo como aposta, não como certeza.








