Dois passes decisivos, quatro finalizações, mais de 60 ações com a bola e o prêmio de melhor em campo. O desempenho de Antoine Griezmann no empate por 1 a 1 contra o Arsenal, no Metropolitano, na ida da semifinal da Champions League, foi exatamente o perfil de atuação que o Atlético de Madrid precisará reproduzir sem ele a partir do meio do ano — e isso, taticamente, é um problema estrutural de difícil solução.

A função que Griezmann cumpre no sistema de Simeone

Griezmann não é um centroavante puro. No esquema de Diego Simeone, o francês opera como uma segunda linha ofensiva, recuando ao meio-campo para conectar a saída de bola com o terço final. Esse papel — tecnicamente chamado de pivô de ligação ou enganche de pressão — exige mobilidade, inteligência posicional e capacidade de finalizar. Com dados do SofaScore para a partida desta quarta-feira (29), Griezmann registrou a maior taxa de participação em ações com a bola do elenco colchonero.

A compactação que o Atlético manteve no segundo tempo da partida foi diretamente dependente da disposição de Griezmann em cobrir a linha de pressão. Ele retornou ao campo defensivo em 14 das 21 transições ofensivas do Arsenal na etapa final, segundo levantamento do SportNavo a partir dos dados de rastreamento disponíveis para o jogo.

"Fizemos dois ou três ajustes táticos para pressionar melhor e fazer a cobertura lateral, e isso fez a diferença. Depois, também teve o apoio da nossa torcida, que nos empurrou", disse Griezmann ao Movistar após o apito final.

As mudanças de Simeone no intervalo e o papel de Griezmann

Na primeira etapa, o Atlético foi conservador demais. O Arsenal, com Viktor Gyokeres convertendo um pênalti, explorou o espaço que o time madrilenho deixou ao recuar a linha defensiva sem pressionar a saída de bola adversária. O resultado foi um 1 a 0 que não refletia superioridade técnica dos ingleses, mas sim ineficiência tática dos espanhóis.

Simeone respondeu no intervalo com uma mudança estrutural: substituiu Giuliano Simeone por Le Normand, reposicionou Marc Pubill como lateral-direito e converteu Marcos Llorente em ponta pela direita. O sistema passou a pressionar em bloco médio-alto, com Griezmann ancorando o setor de transição entre o meio e o ataque. O Atleti empatou e pressionou por mais.

"Nosso segundo tempo foi muito melhor em termos de intensidade, de pressionar. É assim que temos que jogar para seguir vivos no jogo de volta", avaliou o próprio Griezmann.

O que o Atlético perde taticamente com a saída do camisa 7

A transferência de Griezmann para o Orlando City, confirmada para o meio de 2025, retira do Atlético de Madrid seu único jogador capaz de cumprir simultaneamente as funções de finalizador, articulador e pressão sobre a linha. Essa sobreposição de papéis tem valor tático imenso em confrontos eliminatórios da Champions, onde o equilíbrio de transições define o resultado.

  • Posse de bola no segundo tempo: o Atlético subiu para aproximadamente 54% após os ajustes do intervalo, revertendo a dominância do Arsenal da primeira etapa.
  • Finalizações: 4 dos 7 chutes a gol do Atlético no segundo tempo tiveram participação direta de Griezmann na construção da jogada.
  • Pressão: O travessão carimbado pelo francês no segundo tempo foi a chance mais clara da partida para qualquer um dos times.

Na avaliação do SportNavo, o perfil de Griezmann como jogador de ligação entre linhas é o mais escasso no mercado atual — especialmente para um sistema como o de Simeone, que depende de um atleta que saiba quando pressionar e quando preservar espaços. Angel Correa e Julián Alvarez, seus possíveis substitutos no papel, têm perfis mais verticais e menos vocação para o trabalho defensivo em transição.

O sonho de Budapeste e o jogo de volta no Emirates

Griezmann deixou clara sua motivação para estes últimos meses no Atlético. A final da Champions está marcada para 31 de maio, e o francês quer estar lá antes de encerrar o ciclo europeu.

"Meu grande sonho é chegar à final. Me preparei muito para este jogo e para o jogo de volta, e tomara que a gente consiga", declarou ao Movistar.

O capitão Koke também reconheceu o peso simbólico do momento: "É o último jogo do Griezmann em casa na Champions, e esperamos que o de Londres não seja o último dele na competição", disse o veterano após o apito no Metropolitano.

O jogo de volta acontece na próxima terça-feira (5), no Emirates Stadium. O empate por 1 a 1 deixa a eliminatória equilibrada, mas dá ao Arsenal a vantagem de atuar diante de sua torcida. Para avançar, o Atlético precisará manter a intensidade defensiva do segundo tempo madrilenho por 90 minutos — e Griezmann, mais uma vez, será peça central dessa equação.