Na tarde de quinta-feira, 21 de maio de 2026, o apresentador do Jornal Anhanguera 2ª Edição comunicou ao vivo uma notícia que reorganiza o mapa da mídia esportiva em dois estados: a Globo no Centro-Oeste ganhou um novo dono. O Grupo Zahran, por meio de sua Rede Matogrossense de Comunicação (RMC), assinou a aquisição do controle acionário do Grupo Jaime Câmara — conglomerado que controla a TV Anhanguera há quase 63 anos.
O valor da transação não foi divulgado oficialmente. O portal Blog Goiás 24Horas estimou a negociação em torno de R$ 700 milhões. Para comparação, a RPC — afiliada da Globo no Paraná — foi vendida em janeiro de 2026 por R$ 300 milhões à família Lemanski. A operação goiana, se confirmada na faixa especulada, seria mais que o dobro.
O que o Grupo Zahran herda além das câmeras
A aquisição vai muito além das emissoras de televisão. O pacote inclui os jornais impressos O Popular, Daqui e Jornal do Tocantins, além de sete emissoras de rádio: Executiva de Goiânia, Executiva de Palmas, Executiva de Araguaína, CBN Goiânia, Moov FM, Araguaia Gurupi e Araguaia Araguaína. Trata-se do maior conglomerado de mídia regional do Centro-Oeste, fundado em 1935 e consolidado como referência editorial em Goiás e Tocantins por mais de 90 anos.
O Grupo Zahran já opera a TV Centro América, no Mato Grosso, e a TV Morena, no Mato Grosso do Sul — ambas afiliadas da Globo há mais de 50 anos. Com Goiás e Tocantins no portfólio, a RMC passa a controlar a maior rede afiliada do país, segundo comunicado assinado pelo próprio grupo.
"O Brasil olha para essa região e vê o celeiro do mundo. Nós, que somos daqui, vemos uma economia dinâmica, em constante expansão, e histórias de sucesso que merecem ser contadas", afirmou Caio Turqueto, presidente do Grupo Zahran.
Do lado vendedor, o presidente Jaime Câmara Júnior reconheceu o peso do momento após mais de nove décadas de operação familiar.
"Após mais de 90 anos, os principais sentimentos são de agradecimento à sociedade goiana e tocantinense, aos nossos colaboradores e clientes, e de confiança pelo cuidado que tivemos na escolha dos novos controladores. Confiamos que terão o mesmo cuidado que sempre tivemos em nossas atividades", disse Câmara Júnior.
O Campeonato Goiano e a Copa Verde na mesa de negociação
A TV Anhanguera é o principal canal de transmissão do Campeonato Goiano e da Copa Verde, torneio regional que reúne clubes do Norte, Centro-Oeste e parte do Nordeste. Atlético Goianiense, Goiás Esporte Clube e Vila Nova dependem diretamente da visibilidade que a emissora oferece para geração de audiência local e, consequentemente, para contratos com patrocinadores regionais.
Quando uma afiliada muda de controle, os acordos de transmissão esportiva precisam ser renegociados ou ratificados. A RMC tem histórico de cobertura esportiva local em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — o Campeonato Mato-Grossense e partidas do Cuiabá Esporte Clube fazem parte da grade da TV Centro América. Esse currículo sugere que o novo controlador compreende a lógica do esporte regional, mas não garante que o modelo goiano será replicado sem ajustes.
O risco concreto está na centralização editorial. Quando decisões de grade passam por um único grupo com operações em quatro estados, a tendência histórica em comunicação aponta para padronização de formatos e redução de custos por meio de conteúdo compartilhado. Coberturas mais caras — como transmissões ao vivo de jogos do interior, reportagens de campo no Campeonato Goiano ou deslocamentos para o Tocantins — são as primeiras a sentir o impacto desse tipo de racionalização.
O SportNavo mapeou que, nos últimos três anos, o Campeonato Goiano gerou média de 12 jogos transmitidos por temporada pela TV Anhanguera, com picos de audiência em clássicos entre Atlético-GO e Goiás. Esse volume de produção local exige equipes fixas de reportagem esportiva — estrutura que pode ser redimensionada após a integração operacional.
Centralização em quatro estados e o impacto direto nos clubes
Quando a RMC assume o controle editorial, ela passa a gerir a cobertura esportiva de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins sob uma mesma cúpula. Cuiabá, Campo Grande, Goiânia e Palmas — quatro capitais com dinâmicas esportivas distintas — entram no mesmo organograma.
Quando a grade de uma afiliada prioriza conteúdo nacional em detrimento do regional, os clubes locais perdem exposição, o que afeta diretamente sua capacidade de negociar cotas de patrocínio e bilheteria. Quando a emissora mantém equipes regionais robustas, os times do interior ganham visibilidade que nenhuma plataforma digital ainda substituiu na mesma escala no Centro-Oeste.
A ausência de um sucessor na família Câmara — citada como fator determinante para a venda — indica que a transição não foi motivada por crise financeira, mas por planejamento sucessório. Isso reduz o risco de cortes abruptos no curto prazo, mas não elimina a possibilidade de reestruturação gradual da área esportiva ao longo de 2026 e 2027.
A operação ainda depende de aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que avaliará a concentração de mercado em comunicação regional. O prazo padrão para análise de aquisições desse porte no Cade é de até 240 dias corridos. Isso significa que a estrutura definitiva de controle editorial — incluindo decisões sobre cobertura esportiva — só estará consolidada até o início de 2027.










