Três coisas: dez anos, dez títulos, uma cláusula contratual. Tudo se explica daí.

Pep Guardiola chegou ao Manchester City em 2016 com um mandato claro — transformar um clube rico em um clube dominante. Missão cumprida com precisão cirúrgica. Agora, segundo apurou a ESPN, jogadores e funcionários do Etihad já trabalham internamente com a premissa de que o técnico catalão não estará no banco na temporada que vem. A saída não foi confirmada oficialmente — os dirigentes querem evitar qualquer distração enquanto o City ainda briga pelo título da Premier League —, mas as fontes são consistentes.

Barcelona - Real Betis

O que Ferguson fez em 27 anos, Guardiola comprimiu em dez

O paralelo histórico mais honesto não é com Mourinho no Chelsea nem com Wenger no Arsenal. É com Sir Alex Ferguson no Manchester United. Ferguson levou 27 anos para construir uma hegemonia. Guardiola fez algo comparável em menos da metade do tempo, com uma intensidade tática que Ferguson nunca exigiu de seus times. Entre 2017 e 2026, o City acumulou 4 títulos de Premier League, 1 Champions League — conquistada em 2023 —, além de Copas da Liga e FA Cups. O 20º título pessoal de Guardiola como treinador veio no último sábado, com vitória por 1 a 0 na final da FA Cup contra o Chelsea.

A diferença fundamental entre os dois ciclos: Ferguson construiu sobre continuidade de elenco e hierarquia de vestiário. Guardiola construiu sobre sistema. Cada jogador era peça de um mecanismo — a linha de pressão alta, a compactação no meio-campo, a saída de bola pelo goleiro. Quando uma peça saía, o sistema absorvia. Quando o sistema começou a envelhecer, o técnico não conseguiu reinventá-lo com a mesma eficiência.

Os números que definem uma era tática no futebol inglês

O modelo de Guardiola no City se sustentou em métricas que desafiaram padrões históricos da Premier League. Nas temporadas de maior domínio, o time registrou médias de posse de bola acima de 65%, com volume de passes por partida frequentemente superior a 650. A compactação defensiva — medida pela distância entre linhas — ficava abaixo de 25 metros em fase defensiva, número que poucos treinadores europeus conseguiram replicar de forma consistente.

O pivô posicional — aquele jogador que ocupa o espaço entre as linhas adversárias para criar superioridade numérica — foi o elemento mais copiado e menos bem-sucedido quando transplantado para outros contextos. Rodri, antes de se lesionar gravemente na temporada passada, era o metrônomo dessa estrutura: 91,4% de precisão nos passes na temporada 2023/2024, segundo dados da Opta. Sem ele, o sistema perdeu coesão. A queda de rendimento em 2024/2025 foi diretamente proporcional à ausência desse eixo central.

"Quando você retira o pivô de um sistema posicional bem calibrado, não é só um jogador que sai — é a lógica inteira do bloco que desmorona", afirmou um analista tático de clube inglês de primeira divisão, em conversa reservada com a reportagem.

A transição que o City já antecipou nos bastidores

Guardiola tem contrato até 2027, mas a cláusula de rescisão que permite saída ao fim desta temporada está no centro das movimentações internas. O técnico tem evitado responder perguntas sobre seu futuro de forma direta — postura que, por si só, comunica mais do que qualquer declaração formal.

Enzo Maresca, ex-Chelsea, é apontado pela ESPN como o nome preferido da diretoria para a sucessão. A escolha não é aleatória: Maresca foi assistente do próprio Guardiola no City e conhece a arquitetura tática do clube de dentro. Saiu do Chelsea em janeiro de 2026 e vem sendo sondado para assumir o posto. A lógica é a mesma que guiou o Barcelona quando promoveu continuidade filosófica após saídas de técnicos de referência — minimizar ruptura sistêmica.

O que Ferguson fez em 27 anos, Guardiola comprimiu em dez Guardiola deixa o City
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O clube planeja ainda um evento de comemoração pelos títulos da FA Cup e da Copa da Liga Inglesa, com cerimônia marcada para o dia seguinte ao encerramento da temporada, no jogo contra o Aston Villa. Uma fonte confidenciou à ESPN que o Etihad Stadium deve ter um setor renomeado em homenagem a Guardiola — reconhecimento institucional que sinaliza o tom da despedida.

O que Maresca herda e o que precisa reinventar

Herdar o City de Guardiola é herdar um manual detalhado de jogo posicional — e a pressão de não destruí-lo. Maresca demonstrou no Chelsea capacidade de organizar blocos compactos e de exigir saída de bola estruturada, com médias de posse acima de 58% na temporada 2024/2025. Mas o Chelsea é um ambiente de instabilidade crônica; o City é um ambiente de exigência crônica. A diferença é relevante para qualquer análise de perfil.

O desafio tático imediato será a transição ofensiva. O modelo de Guardiola priorizava construção lenta e posse como ferramenta de desgaste. Com o elenco atual — mais jovem e com menos experiência no sistema posicional puro —, Maresca pode precisar incorporar mais variabilidade nas transições, aceitando momentos de jogo direto sem abandonar a identidade de compactação.

Antes de qualquer planejamento para a próxima temporada, o City ainda tem 90 minutos decisivos pela frente: precisa vencer o Bournemouth fora de casa nesta terça-feira (18), às 15h30 (horário de Brasília), para impedir que o Arsenal de Mikel Arteta conquiste o título da Premier League. Vale gravar o jogo — independente do resultado, pode ser a última vez que Guardiola decide um campeonato inglês no banco do Etihad.