A câmera fechou no banco de reservas do Etihad Stadium e captou algo incomum: um treinador que parecia já estar em outro lugar. Não era desatenção — era despedida. Pep Guardiola, segundo o New York Times, está se preparando para deixar o Manchester City ao final desta temporada da Premier League, antecipando uma saída que seu contrato, assinado em novembro de 2024, previa apenas para junho de 2027. Quando questionado sobre o futuro logo após a final da FA Cup, a resposta foi lacônica:
"Mais um ano de contrato", disse Guardiola, evitando confirmar ou negar os rumores.A evasiva não convenceu ninguém.
O que os números de Guardiola no City realmente significam
Guardiola chegou ao City em fevereiro de 2016, quando o clube já tinha infraestrutura financeira robusta mas carecia de identidade tática reconhecível. O que se construiu nos anos seguintes foi um sistema de jogo — não apenas um elenco vencedor. Seis títulos da Premier League, uma Champions League (2022/23), duas FA Cups e quatro League Cups compõem o palmarés mais denso de qualquer técnico na história do futebol inglês moderno.
Os dados de posse de bola do City sob Guardiola raramente ficaram abaixo de 60% nas temporadas de pico. O modelo de pressão alta com linha defensiva elevada, combinado a pivôs falsos e sobrecargas de lado, gerou médias superiores a 600 passes por jogo na temporada 2020/21 — referência estatística documentada pela Premier League. A compactação no terço médio e as transições ofensivas rápidas após recuperação de bola tornaram o sistema identificável mesmo quando os nomes mudavam.
A temporada 2025/26 foi diferente. O City acumulou inconsistências que não eram vistas desde a chegada do catalão. A saída de Txiki Begiristain, diretor de futebol e parceiro histórico de Guardiola, no final da temporada passada, retirou um elo estrutural que poucos perceberam em tempo real. Hugo Viana, contratado do Sporting para o cargo, ainda não consolidou a mesma sinergia.
A investigação financeira como pano de fundo da saída
A coincidência temporal não é irrelevante. O New York Times aponta que a saída de Guardiola acontece paralelamente ao desfecho da investigação sobre supostas violações dos regulamentos financeiros da Premier League — processo que o City nega categoricamente. São 115 acusações que se arrastam desde 2023 e cujo veredicto pode impactar diretamente o planejamento esportivo do clube para as próximas temporadas.
Um técnico da magnitude de Guardiola não gerencia apenas esquemas táticos — ele é variável de atração para reforços, para patrocinadores e para a percepção de projeto. A saída dele, independente do desfecho jurídico, reduz o poder de barganha do City no mercado de transferências do verão europeu.
O último jogo de Guardiola à frente do City pode ser no dia 24 de maio, contra o Aston Villa, pela última rodada da Premier League. O duelo contra o Bournemouth ainda está no calendário antes disso.
Maresca como herdeiro e o problema do modelo sem o arquiteto
Enzo Maresca surge como principal cotado para assumir o cargo, segundo as mesmas fontes do New York Times. O histórico dele com o City é concreto: comandou o sub-21 na temporada 2020/21 e retornou como auxiliar de Guardiola em 2022, antes de assumir o Chelsea, onde construiu um estilo de jogo com clara influência guardioleana — posse elaborada, saída de bola pelo goleiro, pressão organizada por linhas.
A questão tática central que o SportNavo identificou nesta análise é estrutural: Maresca conhece o manual, mas o manual foi escrito por Guardiola para jogadores que o catalão moldou ao longo de anos. Reproduzir o sistema de compactação no bloco médio e as variações de pivô com um elenco em transição é uma tarefa de complexidade diferente da que Maresca enfrentou no Chelsea.
Haverá um gap de adaptação. A linha de pressão do City depende de automações construídas em centenas de sessões de treino. Trocar o arquiteto no meio da obra não é proibido — mas exige que o substituto entenda cada parafuso do projeto.
O futebol inglês sem o laboratório de Guardiola
A Premier League foi, durante quase uma década, um campo de testes táticos globais por causa do City de Guardiola. Clubes como Liverpool, Arsenal e até o Manchester United ajustaram seus sistemas de pressão em reação direta ao modelo do City — o que elevou o nível técnico coletivo da competição.

Qual time da Premier League ocupa esse papel de referência tática quando Guardiola não estiver mais no banco?
A resposta ainda não existe. O Arsenal de Mikel Arteta, ex-assistente de Guardiola no City, é o candidato mais óbvio. Arteta absorveu os fundamentos do sistema e os adaptou com marcação por zona e transições mais verticais. O Liverpool de Arne Slot opera com um modelo híbrido entre o gegenpressing de Klopp e a posse estruturada, sem ainda ter afirmado uma identidade tão dominante quanto a do City nos últimos dez anos.
A saída de Guardiola não é apenas a perda de um técnico — é a descontinuidade de um laboratório que produziu referências táticas replicadas em ligas de Portugal, Espanha e até no futebol sul-americano. O impacto será medido não em semanas, mas em temporadas.
Se Maresca for confirmado e o City iniciar a pré-temporada 2026/27 sob um novo comando, a primeira grande prova será a abertura da fase de grupos da Champions League — e a resposta do elenco a um sistema que conhece, mas nunca experimentou sem seu criador original no banco.










