Falhou. O gol de Callum Wilson nos acréscimos de Arsenal 1x0 West Ham foi para o VAR, ficou lá dentro por vários minutos e voltou anulado — e com ele foi embora a chance do Manchester City de chegar à rodada de quarta-feira já na liderança da Premier League. Pep Guardiola viu tudo de longe, processou em silêncio e foi para a coletiva com uma frase na ponta da língua.

"O VAR é como jogar uma moeda para o alto. Nunca confiei em nada relacionado a ele desde que cheguei aqui, há muito tempo. Tens de te sair melhor sozinho."
— Pep Guardiola, técnico do Manchester City, em coletiva de imprensa nesta terça-feira (12/05)

A comparação com cara ou coroa diz muito sobre o estado de espírito do treinador espanhol às vésperas de um jogo que pode ser o mais importante da temporada 2025/26. O City está com 74 pontos em 36 partidas, cinco atrás do Arsenal, que também tem 36 jogos disputados e soma 79. Uma vitória sobre o Crystal Palace nesta quarta (13/05) reduziria a diferença para dois pontos, mantendo o cenário matematicamente vivo.

O que os números dizem sobre o City nesta reta final

Antes de qualquer cenário hipotético, vale olhar para o desempenho recente das duas equipes com as lentes de quem trabalha com dados. O City tem apresentado números ofensivos consistentes, mas a instabilidade defensiva ao longo da temporada pesou. Algumas métricas que o SportNavo acompanhou ao longo dos últimos 10 jogos de cada time ajudam a entender o retrato atual:

O que os números dizem sobre o City nesta reta final Guardiola joga a moeda para
O que os números dizem sobre o City nesta reta final Guardiola joga a moeda para
  • xG (expected goals) por partida: City registra média de 2,1 xG nos últimos 10 jogos, contra 1,7 do Arsenal — ou seja, o City cria oportunidades de maior qualidade, mas nem sempre converte.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): O Arsenal tem PPDA de 8,3, indicando uma pressão alta bem organizada. O City oscilou entre 9,1 e 11,4 dependendo do adversário, o que mostra inconsistência no pressing ao longo da temporada.
  • Progressive passes por 90 minutos: O City lidera com 68,4 contra 61,2 do Arsenal — o que explica por que os Citizens dominam posse e chegam mais ao ataque, mas também por que ficam expostos em transições rápidas.

Em termos práticos: o City tem o motor ofensivo mais potente, mas o Arsenal tem a organização defensiva mais sólida. Esse contraste é o coração da disputa pelo título.

Os adversários que vão decidir quem levanta a taça

Guardiola disse em coletiva que o foco imediato é o Crystal Palace, mas a sequência completa é o que define o cenário real. Após o jogo desta quarta, o City ainda enfrenta o Bournemouth em 19 de maio e o Aston Villa em 24 de maio. O Arsenal, por sua vez, recebe o Burnley em 18 de maio e fecha contra o próprio Crystal Palace em 24 de maio.

O detalhe que complica a vida dos Gunners nessa última rodada é exatamente o adversário: Oliver Glasner já admitiu que pode poupar titulares antes da final da Conference League contra o Rayo Vallecano, marcada para 27 de maio. "Não sou responsável pelo Arsenal, não sou responsável pelo Manchester City, sou responsável pelo Crystal Palace", disse o técnico austríaco, deixando claro que o Palace vai priorizar a própria agenda — o que pode ser bom notícia para o City, mas não garante nada.

Do lado do Arsenal, o calendário parece mais favorável: o Burnley, que briga contra o rebaixamento, provavelmente vai jogar de forma compacta e reativa, o que historicamente favorece equipes de alto nível como os Gunners. O xA (expected assists) do Arsenal nas últimas rodadas contra times de zona de rebaixamento ficou acima de 2,0, o que sugere facilidade para criar situações de gol nesses confrontos.

O cenário exato que o City precisa que aconteça

As contas são simples, mas o caminho é estreito. Para o City ser campeão, precisará vencer os três jogos restantes — Crystal Palace, Bournemouth e Aston Villa — e contar com pelo menos um tropeço do Arsenal nas duas rodadas finais. Qualquer empate ou derrota do City encerra a disputa matematicamente.

Guardiola sabe que jogar bem não é mais suficiente como condição isolada. A irritação com o VAR, inclusive com referência às finais da FA Cup de 2024 e 2025 que o City perdeu em circunstâncias polêmicas, soa como um desabafo de quem sente que o ambiente ao redor da arbitragem inglesa nunca foi neutro para sua equipe. "Perdemos as duas finais da Copa da Inglaterra porque os árbitros não fizeram o trabalho que deveriam. Inclusive o VAR", afirmou o treinador, em declaração que reverberou no mundo inteiro.

"Quando um técnico começa a falar de arbitragem véspera de jogo decisivo, você percebe que o peso emocional está todo ali. É gestão de pressão — ele está protegendo o elenco, jogando para fora o que poderia ficar dentro do vestiário."
— Comentarista de futebol europeu, durante análise pré-jogo

A observação faz sentido dentro de uma lógica de gestão de grupo: ao verbalizar a frustração publicamente, Guardiola evita que ela circule nos corredores do Etihad Stadium e contamine a preparação para o Palace. É um recurso que ele já usou em outros momentos da carreira — no Barcelona e no Bayern — antes de jogos que não podiam ser perdidos.

O Manchester City entra em campo nesta quarta-feira (13/05) às 16h (horário de Brasília) contra o Crystal Palace. Uma vitória reduz a diferença para dois pontos e obriga o Arsenal a não tropeçar em casa diante do Burnley, no dia 18, para selar o título antes da última rodada.