3 eliminações consecutivas da Copa do Mundo em menos de uma década. Esse número define, melhor do que qualquer discurso, a extensão da crise do futebol italiano. Gennaro Gattuso renunciou após o fracasso na repescagem, e a Azzurra chega a junho de 2026 sob o comando interino de Silvio Baldini, escalando jogadores com menos de 21 anos contra Luxemburgo e Grécia em amistosos de transição. O vácuo no comando permanente abriu espaço para um nome improvável: Pep Guardiola, 55 anos, recém-saído do Manchester City após dez temporadas e 20 títulos.

O que a saída de Gattuso revelou sobre a Itália

Gattuso não falhou apenas nos resultados. Falhou em construir uma identidade tática reconhecível. A Azzurra oscilou entre blocos médios mal ajustados e tentativas de posse sem circuito de passes estruturado. A linha de pressão variou de jogo a jogo sem critério claro, e a compactação defensiva — historicamente o DNA italiano — ficou comprometida pela falta de sincronismo entre meio-campo e defesa.

Baldini, no papel de interino, expôs o problema estrutural com mais franqueza do que qualquer dirigente. Em entrevista antes do treino desta semana, ele foi categórico:

"O futebol italiano está nas mãos de gestores que pensam apenas nos próprios interesses, não no crescimento do jogo. Prefiro chamar alguns de golpistas. Enquanto não tivermos gestores sérios, isso será um problema permanente."

O diagnóstico de Baldini aponta para algo além da seleção: clubes da Serie A bloqueiam sistematicamente o desenvolvimento de jovens, priorizando a negociação de jogadores experientes por questões financeiras de curto prazo. O resultado prático é uma peneira vazia para a seleção principal.

Guardiola na Azzurra — onde o sistema dele funcionaria e onde trincaria

O ministro do Esporte, Andrea Abodi, declarou ao canal Sky TG que a contratação de Guardiola é "uma das opções possíveis, certamente não um sonho impossível". A frase é politicamente calculada, mas tecnicamente relevante. A pergunta real não é se Guardiola quer o cargo — é se o modelo dele sobrevive ao calendário e ao perfil do futebol italiano.

O sistema de Guardiola no City operava com três premissas que a Itália atual dificilmente entrega de imediato:

  • Posse posicional alta — média histórica de 65% a 68% no City em temporadas de título, sustentada por jogadores que processam informação rapidamente em espaços curtos.
  • Pivô móvel — função exercida por De Bruyne e Rodri em alternância, criando superioridade numérica no terço médio. A Itália não tem perfil equivalente disponível hoje.
  • Pressing alto com linha de pressão adiantada — exige atletas com capacidade aeróbica de elite e leitura tática apurada para não gerar linhas de passe por trás da defesa.

O plantel italiano tem qualidade em algumas posições — Donnarumma no gol, Barella no meio —, mas carece de largura técnica para sustentar um sistema de posse posicional em 90 minutos de alta intensidade. Guardiola precisaria adaptar o modelo, possivelmente operando com blocos mais baixos nas fases de construção e transições ofensivas mais verticais do que faz por hábito.

"Guardiola é um tático extraordinário em clube, mas seleção exige outra lógica — você tem 10 dias para instalar um sistema que o clube treina durante 10 meses", observou um analista tático europeu ouvido por agências especializadas após o anúncio da saída do técnico do City.

Esse é o nó central. A janela de trabalho de uma seleção é estruturalmente incompatível com a complexidade do futebol de Guardiola. No City, ele levou ao menos duas temporadas para estabilizar cada variação do sistema. Com a Azzurra, teria ciclos de convocação de 10 a 14 dias.

O que precisaria mudar antes de qualquer técnico chegar

Baldini também descartou publicamente a viabilidade de nomes como Guardiola e Cesc Fàbregas — que levou o Como à Champions League — argumentando que a Itália tem treinadores locais competentes e que perseguir "nomes inalcançáveis" desvia o foco do problema real. A crítica tem lógica operacional: de nada adianta um sistema tático sofisticado se a base formativa está obstruída.

Os ajustes estruturais que precisariam acontecer em paralelo à chegada de qualquer técnico de alto nível:

  1. Reformulação do modelo de desenvolvimento sub-21, com mais minutos para jovens italianos nos clubes da Serie A — algo que os próprios clubes resistem por pressão de resultados imediatos.
  2. Definição de uma identidade tática base para as categorias de base, criando continuidade de linguagem entre sub-17, sub-20 e seleção principal.
  3. Revisão do papel da federação na negociação com clubes sobre liberação de jogadores — atrito que Baldini sinalizou como crônico.

Guardiola, de acordo com Abodi, tem vínculos afetivos com a Itália — viveu em Brescia como jogador entre 2001 e 2002 — e o ministro acredita que o desafio de reconstruir uma seleção historicamente relevante poderia ser exatamente o tipo de projeto que atrai o técnico catalão após anos de gestão de elencos milionários. Guardiola acumulou 2,28 pontos por jogo na Premier League em mais de 20 partidas, o melhor índice da história da competição. O problema é que esse número foi construído com 10 anos de trabalho contínuo, transferências de €1 bilhão e controle total sobre o dia a dia do clube.

A Itália enfrenta Luxemburgo na quarta-feira (4 de junho) e a Grécia no dia 7, ainda sob o comando de Baldini. A federação deve anunciar o novo técnico permanente até o fim de junho, com o ciclo das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2030 começando em setembro. Quem assumir encontrará um canteiro de obras — não um projeto pronto para receber o maestro.

Construir uma seleção nacional não é como compor uma sinfonia: você não escolhe o instrumento depois de escrever a partitura. Primeiro, é preciso afinar os músicos.