Uma bomba com pavio de seda. É assim que a convocação de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026 chegou nesta segunda-feira (18) — elegante na embalagem, explosiva no conteúdo. Quando o técnico italiano pronunciou o 23º nome da lista no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, o eco foi sentido a mais de 400 quilômetros dali, nos bares de Guarulhos que esperavam a final da Kings League Brasil.

O bar virou estúdio e Neymar virou pauta

O cheiro de fritura no ar. O barulho de cadeiras arrastadas. Telas de televisão ligadas em volume máximo. Horas antes da final da Kings League Brasil na arena em Guarulhos, na Grande São Paulo, dezenas de torcedores trocaram a fila do evento pelo calor dos bares ao redor — e a razão era um único nome. Neymar Júnior, 34 anos, camisa 10 do Santos, foi convocado por Ancelotti e entrou para a lista de 26 jogadores que defenderão o Brasil no Mundial dos Estados Unidos, México e Canadá.

A ironia geográfica do dia não passou despercebida: Neymar é investidor de uma das equipes da Kings League Brasil, o torneio cuja final acontecia exatamente naquela tarde, naquela cidade, naquele mesmo instante em que seu nome era anunciado a centenas de quilômetros. A festa aconteceu em dois lugares ao mesmo tempo — e ele não estava presente em nenhum dos dois.

Vinícius Queirantes, 32 anos, empresário que acompanhou a convocação nos arredores da arena, resumiu o sentimento geral com precisão cirúrgica:

"Cara, eu acho que é necessário ter o Neymar no grupo da Seleção Brasileira nesse momento. O Vini não tem boas atuações na seleção, então eu acho que precisava de uma liderança dentro do vestiário. O Neymar pode agregar muito, entrando no decorrer do jogo e passando a experiência dele."

Weverton e Léo Pereira acendem o debate nas mesas

A festa pelo camisa 10, porém, não apagou o ceticismo que pairou sobre outros nomes. Nos mesmos bares onde a galeria gritou ao ouvir "Neymar Júnior, do Santos", o silêncio — ou o franzir de sobrancelhas — marcou a chegada de dois nomes: Weverton, goleiro de 38 anos do Grêmio, e Léo Pereira, zagueiro do Flamengo.

"O pessoal achou meio estranho, acho que estava esperando outros nomes, ninguém estava esperando tanto o Weverton", disse Vinícius Queirantes, que ainda assim defendeu a escolha. A distância entre a expectativa da torcida e a decisão técnica de Ancelotti foi, nesse caso, do tamanho do caminho entre Porto Alegre e Fortaleza — longa o suficiente para gerar ruído.

Nos bastidores da comissão técnica, a explicação veio de Taffarel, preparador de goleiros da Seleção:

"O Alisson está voltando de lesão, já tá treinando com o grupo, já joga no final de semana e vai chegar bem, mas é sempre um risco de ter uma outra lesão. O Ederson na outra convocação também teve esse problema. Então, nós sentimos que a presença do Weverton, com a experiência dele pela seleção — 10 jogos, mais de 50 convocações — nos dá essa tranquilidade."
A escolha por experiência em vez de projeção foi deliberada, e Weverton, que não era chamado desde março de 2025 sob Dorival Júnior, respondeu com um versículo nas redes sociais: "Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, a mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam."

Já Léo Pereira integra um quarteto histórico: o Flamengo colocou quatro jogadores na lista — ele, Danilo, Alex Sandro e Lucas Paquetá —, tornando o clube rubro-negro o time brasileiro com mais convocados em uma Copa desde o São Paulo de 1994. Mesmo assim, segundo apuração do SportNavo junto a torcedores presentes em Guarulhos, o nome do zagueiro foi um dos mais contestados da tarde.

Ancelotti traça o perfil de um Neymar sem privilégios

Na coletiva no Museu do Amanhã, Ancelotti deixou recados que ecoaram além das câmeras. O técnico italiano foi enfático ao tratar da posição de Neymar no grupo: sem tratamento especial, sem garantia de titularidade, sem a concentração caótica que marcou a Copa da Rússia em 2018. A base escolhida para a preparação é o hotel The Ridge, em Basking Ridge, Nova Jersey — uma cidade de apenas sete mil habitantes, longe de qualquer agitação.

"Quero ser claro, honesto e limpo: ele vai jogar se merecer jogar. O treino vai decidir isso. Acho importante não fixar toda a expectativa em cima de um só jogador"
, afirmou Ancelotti. Nas 15 partidas que disputou nesta temporada pelo Santos, Neymar marcou seis gols e distribuiu quatro assistências — números modestos para um craque de seu calibre, mas suficientes para convencer o italiano de que a condição física evoluiu o suficiente para o risco valer a pena.

O pai do jogador publicou uma carta emocionada após o anúncio, citando "as dores e as dúvidas que nos assombraram desde aquela lesão em Montevidéu" e encerrando com um versículo bíblico: "Até aqui nos ajudou o Senhor — 1 Samuel 7:12". Em Santos, a esposa Bruna Biancardi registrou a comemoração em família com a filha Mavie, enquanto o amigo de infância Cris Guedes — também investidor na Kings League — apareceu ao lado do camisa 10 em uma live comemorativa.

A imprensa internacional captou o peso do momento. O jornal francês L'Equipe definiu a convocação como a "última dança" do craque. O americano The Athletic lembrou que pesquisas indicavam opinião pública dividida no Brasil. E a Associated Press destacou que Neymar, maior artilheiro da Seleção com 79 gols, disputará sua quarta Copa do Mundo — um número que poucos brasileiros alcançaram na história.

O Brasil estreia no Mundial no dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), contra Marrocos, no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. Antes disso, a Seleção enfrenta o Panamá em amistoso no Maracanã, no dia 31 de maio — primeiro teste real para Ancelotti definir quem, de fato, merece jogar.