Existe um tipo de goleiro que o futebol europeu produz em ciclos — alto, seguro com os pés, capaz de iniciar jogadas como um terceiro zagueiro e ainda assim dominar a área com autoridade física. Não é o goleiro-espetáculo das defesas impossíveis. É o goleiro-estrutura, aquele que organiza antes de precisar salvar. Guglielmo Vicario é exatamente esse tipo de jogador, e em 2026, com 29 anos e 38 partidas disputadas pelo Tottenham na temporada, ele representa algo que os Spurs raramente tiveram: uma linha de fundo confiável.
O dia em que tudo mudou
Em setembro de 2022, Roberto Mancini — o mesmo Mancini que havia reconstruído a Azzurra após o trauma do não-Mundial de 2018 — convocou Vicario para a seleção italiana na Liga das Nações da UEFA contra Inglaterra e Hungria. Não era uma convocação de rotina. Mancini tinha à disposição nomes mais badalados, mas havia algo no goleiro nascido em Údine em 7 de outubro de 1996 que chamava atenção: uma tranquilidade que se assemelha menos ao sangue-frio treinado e mais à convicção natural de quem cresceu entendendo o jogo pelo ângulo mais difícil — de costas para o gol, de frente para o caos.
Aquela convocação foi o tipo de reconhecimento institucional que muda trajetórias. No futebol italiano, ser chamado pela Nazionale é um carimbo que abre portas no mercado europeu. E foi exatamente o que aconteceu.
Antes do divisor de águas
Údine não é uma cidade de futebol glamoroso. A Udinese, clube da cidade natal de Vicario, tem história — foi dela que saíram Zico nos anos 1980, Antonio Di Natale nos anos 2000 — mas nunca foi um clube de Scudetti ou campanhas europeias profundas. É um clube de formação, de resistência, de jogadores que constroem caráter antes de construir carreira. Vicario passou por esse ambiente, e a Serie A italiana — com sua cultura de goleiros técnicos que vem de Dino Zoff, passa por Gianluigi Buffon e chega a Gianluigi Donnarumma — é um campo de treinamento exigente para qualquer guardião.
O levantamento do SportNavo sobre a carreira de Vicario mostra uma trajetória que não foi construída em saltos espetaculares: são 106 jogos oficiais ao longo de toda sua carreira até aqui, com participação crescente conforme as temporadas avançaram. A temporada 2023/2024 foi seu pico até então, com 38 jogos — um número que ele igualou na temporada atual de 2025/2026. Seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica para um goleiro que demorou para ter sequência. Antes disso, houve períodos de adaptação, temporadas com aparições pontuais, o aprendizado silencioso que o futebol italiano exige antes de liberar um nome para o protagonismo.
Essa trajetória tem paralelo histórico claro. Lembre-se de como Edwin van der Sar passou anos no Juventus sem o reconhecimento que só viria no Manchester United; de como Pepe Reina precisou de Villarreal antes de Anfield. Goleiros que amadurecem fora dos holofotes frequentemente chegam ao topo mais preparados do que os prodígios precoces.
Como o futebol mudou ao redor dele
O futebol de 2026 exige do goleiro algo que Dino Zoff jamais precisou entregar: ele precisa jogar. Com os pés, com a cabeça, com a distribuição. O modelo Pep Guardiola — que transformou a função do goleiro a partir de Víctor Valdés no Barcelona dos anos 2000 e depois de Ederson no City — tornou obsoleto o goleiro que apenas defende. Vicario, com 194 cm e 83 kg, tem a estrutura física para dominar cruzamentos e a técnica italiana para iniciar jogadas com os pés, uma combinação que o futebol inglês valoriza cada vez mais.
O Tottenham, clube historicamente instável entre grandes momentos e temporadas frustrantes, encontrou em Vicario um perfil que contrasta com a volatilidade da equipe. São 38 jogos na temporada atual de 2025/2026, número que revela titularidade absoluta. Para um clube que já teve Hugo Lloris — goleiro de Copa do Mundo — como referência por mais de uma década, a transição para Vicario representa uma aposta no presente com olho no futuro. A análise do SportNavo sobre o perfil de goleiros na Champions League desta temporada mostra que presença e consistência são atributos tão raros quanto os grandes lances individuais.

Historicamente, o Tottenham nunca foi clube de hegemonia — teve seu ciclo glorioso com Bill Nicholson nos anos 60, o duplete de 1961, e depois viveu de promessas pontuais. A geração Pochettino (2014-2019) foi a mais próxima de algo duradouro. Ter um goleiro sólido, com identidade clara, é pré-requisito para qualquer projeto de consistência — e Vicario parece entender esse papel.
O próximo capítulo já começou
Com 29 anos, Vicario está na janela mais produtiva da carreira para um goleiro. A literatura do futebol europeu é clara nesse ponto: goleiros atingem maturidade plena entre 28 e 34 anos. Buffon ganhou seu Scudetto mais importante nessa faixa. Casillas consolidou sua lenda no Real Madrid dos anos 2010 dentro dessa janela. Vicario tem à frente, em tese, cinco a seis anos de alto rendimento.
O que falta, nos dados disponíveis, é o troféu. Não há conquistas registradas na carreira do goleiro — e isso, num jogador de 29 anos com passagem pela seleção italiana e titularidade em clube da Champions League, é o capítulo ainda em aberto. O Tottenham, clube com uma das histórias mais ricas do futebol inglês sem um título de liga desde 1961, carrega essa lacuna como identidade involuntária. Vicario chegou para tentar mudar esse roteiro — e a temporada atual, com 38 jogos disputados, sugere que ele está presente em cada página dessa tentativa.
29 anos, 38 jogos, zero troféus — e uma janela de maturidade que está apenas começando.










