Diz-se que o treinador mais eficiente é aquele com o melhor aproveitamento de pontos. Na prática, não é bem assim — e o caso de Guillermo Sanguinetti Giordano, uruguaio de 60 anos à frente do Macará na Copa Sudamericana, é exatamente o tipo de argumento que derruba essa premissa. O que define um treinador de verdade não é o percentual acumulado, mas a coerência do método quando o contexto é adverso. E Sanguinetti Giordano, nascido em junho de 1966, construiu uma carreira sobre essa premissa.
O esquema que ele sempre busca rodar
Há uma lógica estrutural que organiza o pensamento tático de Sanguinetti Giordano: o controle do espaço antes do controle da bola. Diferente dos sistemas que herdam o tiki-taka catalão — aquela obsessão pela posse horizontal que Pep Guardiola levou ao extremo no Barcelona de 2010 e depois refinaria no Etihad —, o uruguaio trabalha com um modelo mais vertical, mais direto nos momentos de transição, mas igualmente rigoroso na organização posicional. O esquema preferido parte de uma linha de quatro defensores, dois volantes com funções distintas e um meio-campo que conecta sem perder velocidade. É um sistema que os europeus chamariam de pressing médio com saída rápida — não o gegenpressing intenso de Klopp, mas algo mais calculado, mais platense.
Quando organiza a equipe na fase de construção, ele exige que os laterais subam com critério, não por impulso. Quando a bola se perde, o bloco recua com disciplina coletiva, sem o caos que costuma assolar times de menor orçamento em competições sul-americanas. Esse equilíbrio — entre audácia e prudência — é a marca registrada de um treinador que aprendeu a trabalhar com o que tem, não com o que desejaria ter.
Como ele monta o time dentro desse esquema
Quando faz as escolhas de escalação, ele privilegia a inteligência posicional sobre o talento bruto. Isso significa que um jogador tecnicamente superior, mas com dificuldade de leitura coletiva, tende a ficar fora da titularidade. É uma decisão de banco que poucos treinadores sul-americanos têm coragem de tomar — especialmente em contextos onde a pressão da torcida e da imprensa empurra para o espetáculo individual.
Quando monta a linha de meio-campo, ele separa funções com clareza cirúrgica: um volante de recuperação, outro de distribuição. Não é novidade conceitual — qualquer analista que acompanhou o Atlético de Madrid de Simeone nos anos 2010 reconhece a lógica —, mas a execução em contexto equatoriano, com elenco limitado e calendário comprimido, exige uma capacidade de adaptação que vai além do desenho no quadro tático. Sanguinetti Giordano demonstra essa capacidade ao manter a identidade do time mesmo quando as peças mudam.
Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)
O modelo funciona com maior eficiência quando o adversário aceita jogar em transição — quando há espaços entre as linhas para explorar e o bloco defensivo tem tempo para se organizar antes de avançar. Nessas condições, o Macará sob o comando de Sanguinetti Giordano se torna difícil de ler: compacto atrás, veloz na saída, disciplinado na pressão.
O ponto de ruptura aparece quando o adversário tem qualidade técnica superior e decide circular a bola com paciência, forçando o bloco a correr atrás da posse. Aí o esquema exige mais dos jogadores individualmente — e é nesse momento que a qualidade do elenco se torna variável decisiva. No contexto da Copa Sudamericana 2026, onde o nível técnico varia enormemente de rodada a rodada, esse é o desafio central que o treinador enfrenta. Como diria o ditado: quem não tem cão caça com gato — e Sanguinetti Giordano é, precisamente, um treinador que sabe caçar com o que tem disponível.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta temporada, os times sul-americanos que mais sofrem na fase de grupos da Sudamericana são exatamente aqueles que não conseguem manter identidade tática sob pressão. O Macará, ao menos no que o esquema de Sanguinetti Giordano propõe, tenta escapar dessa armadilha pela via da organização coletiva.
Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar
O perfil do jogador ideal para o sistema de Sanguinetti Giordano não é o craque que decide sozinho — é o jogador que entende o momento certo de pressionar, o momento certo de recuar e o momento certo de acelerar. Essa leitura coletiva, que no futebol europeu é treinada desde as categorias de base com metodologias estruturadas, no futebol equatoriano precisa ser construída no dia a dia do treinamento. É uma diferença de contexto que qualquer observador que transitou entre os dois mundos percebe imediatamente.
O uruguaio privilegia meias com capacidade de pressão — jogadores que não apenas distribuem, mas que também recuperam. Privilegia atacantes que entendem o posicionamento sem bola tanto quanto o movimento com ela. E privilegia, acima de tudo, defensores que leem o jogo antes de agir, não depois. Essa hierarquia de valores dentro do elenco é o que garante que o esquema não dependa de um único nome para funcionar — e é, talvez, a característica mais sofisticada do trabalho de Sanguinetti Giordano no Macará.
Aos 60 anos, com uma carreira construída longe dos holofotes das grandes ligas, o treinador uruguaio representa um tipo de profissional que o futebol sul-americano produz com frequência, mas raramente valoriza na medida certa: aquele que trabalha com método, sem barulho, e entrega consistência onde outros entregam apenas promessas.











