Resistiu. Quando o futebol brasileiro começou a especular sobre o ciclo de um zagueiro de 33 anos, Gustavo Gómez respondeu com presença: 32 jogos disputados na temporada 2026 do Brasileirão Série A.

O dado que ninguém olha mas explica tudo

Trinta e dois jogos. Esse número, isolado, pode parecer apenas uma contagem de presença. Mas para um zagueiro de 33 anos, em um clube que disputa simultaneamente Brasileirão e Copa Libertadores, ele carrega um peso diferente: indica que nenhum adversário técnico ou físico foi capaz de tirá-lo da titularidade do Palmeiras ao longo de 2026.

A média de um zagueiro titular em um grande clube brasileiro raramente ultrapassa 28 jogos por temporada quando somamos lesões, suspensões e rotações táticas. Gómez está acima dessa marca — e a temporada ainda não encerrou.

Como ele chega a esse número

Gustavo Raúl Gómez Portillo nasceu em San Juan Bautista, no Paraguai, em 6 de maio de 1993. Começou como volante no Club 31 de Julio de San Ignacio aos 14 anos, sob o comando do ex-jogador Carlos Guirland. Em 2009, conquistou o título nacional paraguaio por esse clube — sua primeira medalha profissional.

A transição para zagueiro veio no Libertad, onde ganhou dois Campeonatos Paraguaios: o Clausura de 2012 e o Apertura de 2014. A consistência nessa posição abriu as portas para o Lanús, na Argentina, onde conquistou o Campeonato Argentino de 2016.

O Milan veio logo depois. Na Itália, Gómez não se firmou como titular, mas saiu com a Supercopa Italiana de 2016 no currículo — o que, para um zagueiro sul-americano de 23 anos, representava uma credencial difícil de ignorar.

O Palmeiras chegou em seguida, e o que veio depois é o eixo da carreira: Campeonato Brasileiro de 2018, 2022 e 2023; Campeonato Paulista de 2020, 2022, 2023, 2024 e 2026; Copa Libertadores da América de 2020 e 2021; Copa do Brasil de 2020; Recopa Sul-Americana de 2022; e Supercopa do Brasil de 2023. Nenhum jogador do clube tem mais títulos. Nenhum zagueiro alviverde marcou mais gols.

Na temporada atual, além dos 32 jogos, Gómez registra 2 gols e 3 assistências — números que, para a posição, indicam participação ativa na construção ofensiva, não apenas presença defensiva.

Os outros números que falam o mesmo idioma

Dois gols e três assistências em 32 jogos colocam Gómez entre os zagueiros com maior participação direta em gols no Brasileirão 2026. A contribuição ofensiva de um defensor central é frequentemente subestimada nos rankings de desempenho, mas ela reflete algo concreto: o jogador é acionado em jogadas de bola parada e transições, não apenas recua para cobrir espaços.

O histórico na seleção paraguaia complementa esse perfil. Gómez foi convocado pela Sub-17 aos 14 anos, integrou a Sub-20 aos 15, foi levado à África do Sul em 2010 como sparring da seleção principal durante a Copa do Mundo — quando tinha apenas 17 anos — e participou dos Sul-Americanos Sub-20 de 2011 e 2013, saindo vice-campeão no segundo torneio. Sua estreia na seleção adulta consolidou uma trajetória que começou muito antes do que a maioria dos torcedores brasileiros acompanhou.

"Um zagueiro que dura mais de oito anos no mesmo clube de alto nível não está ali por inércia. Está ali porque toda semana ele resolve um problema que o treinador não quer ter que explicar para a imprensa." — comentarista de futebol sul-americano

O contexto regional reforça a relevância. As notícias recentes sobre o Paraguai na Copa do Mundo de 2026 — a seleção buscando se salvar da eliminação com jogadores do Brasileirão — colocam Gómez no centro de uma narrativa maior: a de um zagueiro que representa um país inteiro em duas frentes simultâneas.

O risco de confiar só nesse dado

Trinta e dois jogos em 2026 é um número sólido, mas ele não responde tudo. Gómez tem 33 anos — a idade em que zagueiros de alto nível começam a enfrentar perguntas sobre sucessão, mesmo quando ainda entregam desempenho. O Palmeiras, historicamente, não anuncia renovações com antecedência longa para atletas nessa faixa etária.

A comparação com pares da posição no Brasileirão é relevante: zagueiros mais jovens, com perfil físico semelhante — 186 cm, 81 kg — costumam ser avaliados pelo mercado europeu entre os 24 e 27 anos. Gómez já passou por esse janelo. Sua permanência no clube agora é uma escolha de ambos os lados, não uma inevitabilidade de mercado.

Os dados desta temporada não revelam o que acontece nos próximos 12 meses. Revelam, no máximo, que o Palmeiras ainda não encontrou — ou não procurou ativamente — um substituto com capacidade de replicar a combinação de liderança, experiência continental e produção estatística que Gómez entrega na camisa 15.

Enquanto esse substituto não aparecer, os 32 jogos de 2026 vão continuar sendo o argumento mais forte do próprio zagueiro. É o mesmo cenário que Thiago Silva viveu no PSG em 2020 — só que agora a aposta é diferente: não se trata de exportar um ativo, mas de decidir até quando mantê-lo.