Quantas gerações de futebolistas suecos passaram por eliminatórias sem jamais chegar perto do que Tomas Brolin, Martin Dahlin e Henrik Larsson construíram nos Estados Unidos em 1994? A pergunta não é retórica no sentido vazio do termo — ela carrega um dado concreto: a Suécia ficou 24 anos sem disputar uma Copa do Mundo entre 2006 e 2018, e mesmo o retorno em 2018 e 2022 não produziu campanhas que chegassem perto das semifinais daquele torneio americano. Agora, em 2026, o país nórdico chega com uma geração de atacantes que, individualmente, talvez seja a mais talentosa desde aquela safra.

O técnico Graham Potter, que assumiu a seleção sueca após passagens pelo Brighton e Chelsea na Premier League, anunciou os 26 convocados para o Mundial poucos dias depois da Bósnia e Herzegovina, tornando a Suécia a segunda seleção a divulgar sua lista oficial. A escolha de Potter por Viktor Gyökeres, do Arsenal, e Alexander Isak, do Liverpool, como dupla titular de ataque é a aposta mais segura de um processo de convocação que, no restante, gerou controvérsia imediata entre torcedores e analistas escandinavos.

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A lista de Potter entre o consenso e as omissões que incomodam

Gyökeres terminou a temporada 2025/2026 como um dos centroavantes mais produtivos da Europa, consolidando no Arsenal o mesmo volume de gols que o projetou no Sporting. Isak, pelo Liverpool, atravessou uma campanha de alto nível na Premier League, confirmando que a transferência milionária do Newcastle foi acertada. Ao lado deles, Lucas Bergvall, do Tottenham, e Anthony Elanga, do Newcastle, completam uma linha ofensiva com base sólida nas ligas mais competitivas do mundo.

A grande ausência médica é Dejan Kulusevski, também do Tottenham, que completou um ano inteiro sem entrar em campo após cirurgia no joelho. A perda é significativa: Kulusevski era o jogador capaz de conectar meio-campo e ataque com criatividade e velocidade, funções que agora precisarão ser redistribuídas entre Bergvall e Yasin Ayari, do Brighton.

Mas foram as ausências por opção técnica que dominaram o debate. Roony Bardghji, de apenas 19 anos, fez 26 partidas pelo Barcelona na temporada e participou de seis gols, incluindo contribuições diretas no título de LaLiga. Williot Swedberg, pelo Celta de Vigo, marcou duas vezes contra o Real Madrid numa vitória por 2 a 0 e distribuiu assistências em jogos de alto nível. Sebastian Nanasi, pelo Strasbourg, somou sete gols e quatro assistências. Nenhum dos três foi convocado. Segundo a imprensa sueca, Potter justificou as escolhas com base em critérios de entrosamento tático e maturidade para o ritmo de um Mundial — argumento que não convenceu boa parte da mídia esportiva escandinava.

"Há jogadores que estão em boa fase, mas uma Copa do Mundo exige mais do que forma momentânea", declarou Potter, conforme reportado pela imprensa sueca após o anúncio da lista.

O que os números de 1994 realmente significam para esta geração

A Suécia de 1994 terminou o torneio em terceiro lugar, com 15 gols marcados em sete jogos — média de 2,1 por partida. Dahlin foi artilheiro com seis tentos. Aquela equipe tinha uma estrutura coletiva que compensava a ausência de um único astro dominante: nenhum jogador do elenco atuava em clube maior do que o IFK Göteborg ou o Malmö, com exceção de Larsson, que estava na Feyenoord. Era, portanto, uma seleção construída sobre organização e identidade tática, não sobre estrelas individuais.

O que para o argentino é a mística do "equipazo" coletivo que antecede o craque individual, para o sueco é a memória de 1994 como prova de que sistema bate talento isolado. A geração atual inverte essa equação: Gyökeres e Isak são astros de clubes do topo europeu, mas a seleção ao redor deles — com Victor Lindelöf no Aston Villa, Isak Hien na Atalanta e Emil Holm na Juventus — tem qualidade consistente, não brilho excepcional. A questão que o SportNavo identificou ao mapear as convocações europeias para este Mundial é se Potter consegue transformar essa soma de partes competentes num todo maior do que a dupla de ataque.

"Gyökeres e Isak são jogadores de nível mundial, mas uma Copa do Mundo não se ganha com dois homens", afirmou o ex-internacional sueco Freddie Ljungberg em entrevista à emissora SVT antes do anúncio da lista.

A estrutura defensiva e o meio-campo que precisam sustentar as estrelas

Na defesa, Potter convocou nove jogadores, com Lindelöf como o nome de maior experiência internacional. Carl Starfelt, pelo Celta de Vigo, e Gustaf Lagerbielke, pelo Braga, formam a segunda linha de opções. O jovem Daniel Svensson, do Borussia Dortmund, é a aposta de futuro. Entre os goleiros, Viktor Johansson, do Stoke City — da segunda divisão inglesa —, aparece como titular, o que por si só revela a fragilidade de um dos setores mais críticos do elenco.

No meio-campo, a ausência de Kulusevski pesa mais do que em qualquer outro setor. Bergvall, aos 18 anos, terá de assumir responsabilidades de criação que extrapolam sua experiência. Mattias Svanberg, pelo Wolfsburg, e Jasper Karlström, pelo Udinese, oferecem volume de jogo e marcação, mas não a qualidade técnica que conectaria Gyökeres e Isak ao restante da equipe com consistência. A convocação de Ken Sema, pelo Pafos do Chipre, é a que mais levantou sobrancelhas entre os analistas táticos europeus.

O grupo da Suécia e o que esperar do torneio

A Suécia ainda aguarda a definição completa de seu grupo na Copa do Mundo 2026, que começa no próximo mês. Independentemente dos adversários, a campanha será medida pela capacidade de Gyökeres e Isak transformarem oportunidades em gols numa fase de grupos que, historicamente, a seleção nórdica costuma superar sem folga. Em 2018, avançaram com seis pontos em três jogos; em 2022, caíram na fase de grupos após um empate e duas derrotas.

A convocação de Graham Potter é, em última análise, uma aposta conservadora embrulhada em papel de ousadia: dois atacantes de elite europeu sustentam uma estrutura que, nas ausências de Bardghji, Swedberg e Nanasi, optou pela segurança do conhecido em detrimento da energia do imprevisível. Uma partitura bem ensaiada pode ser executada com perfeição técnica — mas raramente surpreende a plateia que já conhece cada acorde.