A última seleção africana a chegar a uma semifinal de Copa do Mundo foi Camarões, em 1990 — e levou 32 anos para que o feito fosse superado. Quando Marrocos encerrou a partida contra Portugal em Doha, em dezembro de 2022, e garantiu vaga entre os quatro melhores do mundo, o continente africano celebrou um marco civilizatório no esporte global. Agora, quatro anos depois, o técnico Mohamed Ouahbi tenta reconstruir aquele feito com um elenco que carrega a memória de 2022, mas que não é mais o mesmo.

A lista de Ouahbi entre continuidade e lacunas estruturais

Dos 26 convocados anunciados nesta terça-feira, 26 de maio, a maioria integrou a campanha histórica do Catar. O goleiro Yassine Bounou — o Bono, hoje no Al Hilal — retorna como titular absoluto. O lateral Achraf Hakimi, do PSG, é a principal referência ofensiva pelo corredor direito, embora trate uma lesão muscular nos isquiotibiais da coxa direita e seja monitorado até o início do torneio. Brahim Díaz, do Real Madrid, assume o papel de criador central que pertenceu a Hakim Ziyech em 2022 — e aí reside uma diferença qualitativa que merece atenção analítica.

Ziyech era um meia de transição com capacidade de criar em espaços reduzidos e sob pressão alta. Brahim Díaz tem perfil mais vertical e depende de espaço para acelerar. A diferença não é apenas de estilo: é de função dentro de um sistema que historicamente se apoia na solidez defensiva para criar transições ofensivas. Segundo apuração do SportNavo, praticamente todos os convocados atuam no futebol europeu — com representantes na Premier League, na La Liga e na Ligue 1 —, o que indica um elenco de alto nível técnico individual, mas com um ponto de interrogação sobre entrosamento coletivo.

A novidade mais comentada é Ayyoub Bouaddi, meio-campista de 18 anos do Lille, que entra como representante de uma nova geração marroquina formada nas academias europeias. Sua presença sinaliza que Ouahbi não ignora o futuro, mas também que o elenco tem uma camada jovem ainda sem Copa do Mundo no currículo.

Onde a armadura marroquina tem frestas

A defesa liderada por Nayef Aguerd, agora no Olympique de Marselha, e pelo experiente Bono no gol, é a espinha dorsal de uma equipe que concedeu apenas três gols em sete partidas no Catar. Esse dado bruto, contudo, precisa ser lido com uma métrica mais refinada: o Expected Goals Against (xGA) — que mede a qualidade das chances cedidas, não apenas os gols sofridos — mostrou que Marrocos, em 2022, foi beneficiado por um xGA de aproximadamente 4,8, enquanto sofreu apenas 3. Em outras palavras, o time cedeu mais chances de qualidade do que o placar sugeria; Bono foi excepcional, e a sorte também colaborou.

Essa diferença entre o xGA e os gols efetivos concedidos é o tipo de dado que uma comissão técnica bem estruturada leva para a sala de vídeo. Significa que a defesa marroquina, quando pressionada por sequências rápidas de passe e movimentações de terceiro homem, tende a se desorganizar mais do que os resultados de 2022 indicam. A Seleção Brasileira, com Vinicius Jr., Rodrygo e Endrick na frente, tem exatamente o perfil para explorar essa fissura: velocidade em profundidade e capacidade de criar desequilíbrio em transições ofensivas.

A lista de Ouahbi entre continuidade e lacunas estruturais Hakimi e Brahim Díaz
A lista de Ouahbi entre continuidade e lacunas estruturais Hakimi e Brahim Díaz

O setor do meio-campo marroquino, que conta com Sofyan Amrabat — hoje no Betis após passagem pelo Manchester United — e Azzedine Ounahi, do Girona, é competente na marcação posicional, mas historicamente perde rendimento quando o adversário varia os ângulos de ataque. O Brasil de 2026 tem, no corredor esquerdo, uma das maiores ameaças individuais do torneio.

O duelo de 13 de junho e o que os números já antecipam

Brasil e Marrocos se enfrentam no dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O confronto vale pela primeira rodada do Grupo C, que também reúne Escócia e Haiti — um grupo em que a classificação brasileira é esperada, mas onde uma derrota logo na estreia criaria pressão desnecessária sobre um elenco que ainda busca consolidar identidade tática.

Para Marrocos, o jogo contra o Brasil é o mais difícil dos três, e perder pontos nele significa depender dos resultados seguintes. A estratégia de Ouahbi deve priorizar a compactação defensiva e apostar nas saídas rápidas de Hakimi e Brahim Díaz — exatamente o modelo que funcionou em 2022 contra Espanha e Portugal. A diferença é que, naquelas partidas, Ziyech ainda estava em campo para dar imprevisibilidade ao contra-ataque.

O Brasil, por sua vez, precisa evitar o erro de subestimar a solidez marroquina e, ao mesmo tempo, não transformar o jogo numa disputa de paciência que favorece o adversário. A chave está na intensidade dos primeiros 30 minutos: se a Seleção conseguir criar dois ou três finalizações de qualidade antes do intervalo, os dados históricos de Bono — que tende a perder rendimento em jogos em que o time sofre pressão contínua — jogam a favor do Brasil. Em 13 de junho, no MetLife Stadium, saberemos se essa hipótese se confirma.