Quanto vale uma dança num estádio lotado quando o placar está contra você? A pergunta não é filosófica — ela tem endereço, data e protagonistas. No domingo (19), após Endrick marcar o primeiro gol do Lyon no Parque dos Príncipes e celebrar com passos que lembravam mais um baile do que uma provocação calculada, Achraf Hakimi foi ao limite da paciência. O lateral marroquino do PSG discutiu com o brasileiro no gramado e não poupou palavras depois do apito final. A derrota por 2 a 1 doeu. A dança, ao que parece, doeu mais.

Hakimi não escondeu a irritação.

"O que eu disse ao Endrick? Essas coisas acontecem. Eu queria que meu time permanecesse focado e que ele parasse de fazer coisas contra nossos torcedores. Que jogue futebol, especialmente porque ele é um bom jogador"
, disparou o defensor, que ainda admitiu que o contexto do resultado influenciou sua reação:
"Quando ele faz coisas que não têm relação com o futebol, isso pode me irritar, especialmente porque estávamos perdendo."
Há um detalhe revelador nessa última frase — a dança incomoda mais quando você está perdendo. O que diz muito sobre o incômodo de Hakimi e pouco sobre o comportamento de Endrick.

A celebração que a Europa ainda não aprendeu a ler

Não é a primeira vez que um jogador brasileiro vira alvo de críticas por comemorar com alegria excessiva aos olhos europeus. Vinícius Júnior passou anos sendo pressionado na Espanha por danças que, no Brasil, são lidas como expressão cultural e pertencimento. O caso de Endrick no PSG x Lyon segue o mesmo roteiro: um jovem negro, brasileiro, que celebra com o corpo o que o futebol proporciona, e um rival que interpreta isso como desrespeito. A diferença é que Endrick tem 19 anos, está na França há menos de um ano e já acumula números suficientes para dar sustentação a qualquer comemoração que queira fazer.

No Lyon, o atacante registrou ao menos 15 participações diretas em gols na temporada 2025/2026 — entre gols e assistências — num clube que não tinha o peso de um gigante europeu quando ele chegou. No clássico contra o PSG, além do gol, ainda deu a assistência para o segundo tento do Lyon. Quando a análise avança para métricas de Expected Threat (xT), que mede o quanto cada ação de um jogador aumenta a probabilidade de o time marcar, Endrick aparece consistentemente entre os atacantes mais perigosos da Ligue 1 por partida disputada — o que, para quem não conhece o indicador, significa que ele gera perigo real, não apenas volume de movimento.

A celebração que a Europa ainda não aprendeu a ler Hakimi ficou irritado com a d
A celebração que a Europa ainda não aprendeu a ler Hakimi ficou irritado com a d

O que os amistosos deixaram claro para Ancelotti

A data FIFA de maio foi reveladora para a Seleção Brasileira. Na derrota para a França, o Brasil mostrou fragilidade ofensiva e dificuldade de criar situações de gol com consistência. Já na vitória por 3 a 1 sobre a Croácia, o cenário mudou — e Endrick foi protagonista mesmo nos cerca de quinze minutos em que esteve em campo. Sofreu um pênalti, deu a assistência para Martinelli marcar o terceiro gol e, de imediato, pegou a bola para bater a penalidade — só não cobrou porque Carlo Ancelotti preferiu Igor Thiago. Essa cena resume o perfil do atacante: personalidade que não aguarda convite.

Antes do jogo contra a Croácia, Ancelotti havia declarado que vê Endrick como importante para o futuro da Seleção. A palavra escolhida pelo técnico italiano gerou desconforto imediato, porque a Copa do Mundo começa em dois meses. Na avaliação do SportNavo, o uso do termo "futuro" pode ser lido como sinalização de não convocação — o que, diante do que o campo demonstrou, seria uma decisão difícil de justificar tecnicamente. Entre os atacantes cotados para a lista final, que será anunciada em 18 de maio, nenhum apresenta o mesmo nível de ímpeto e impacto por minuto jogado que o ex-palmeirense.

A hierarquia que o campo não respeita

O futebol tem uma tese confortável chamada "respeito à hierarquia" — a preferência por jogadores mais experientes, com maior número de convocações, como garantia de estabilidade em torneios de alta pressão. A história das Copas do Mundo, no entanto, é repleta de exemplos em que essa lógica virou pó no meio do caminho. Ronaldo Fenômeno tinha 17 anos quando foi à Copa de 1994. Pelé tinha 17 quando ganhou a de 1958. A juventude, quando acompanhada de talento e personalidade, não é risco — é aceleração.

Com Rodrygo lesionado e fora da Copa, a disputa por vagas no setor ofensivo ficou ainda mais intensa. Luiz Henrique, que também se credenciou nos amistosos de maio, passa a brigar por uma posição de titular. Mas Endrick ocupa um espaço diferente: não é só mais um atacante de beirada, é o nome com maior potencial de mudar o resultado num momento de pressão — o tipo de energia que não se convoca por tabela, se convoca por necessidade. Hakimi percebeu isso no Parque dos Príncipes, do jeito mais incômodo possível.

A dança não decide a vaga — o campo decide

A polêmica com Hakimi vai durar uma semana nas redes sociais e depois some. O que fica é o dado: Endrick marcou, assistiu, pressionou e saiu do campo com o placar a seu favor. A celebração foi o que foi — brasileira, espontânea, e absolutamente dentro das regras do jogo. A crítica do lateral marroquino, que será rival do Brasil na Copa caso ambos se classifiquem pelo chaveamento, revela mais sobre o estado emocional de quem perde do que sobre qualquer excesso de comportamento.

A lista de convocados de Ancelotti sai no dia 18 de maio. Se Endrick não estiver nela, o técnico precisará explicar por que um atacante de 19 anos com 15 participações em gols na Ligue 1, dois lances decisivos em quinze minutos contra a Croácia e capacidade comprovada de alterar partidas ficou de fora — enquanto a dança de um adversário irritado virou o principal argumento contra ele. O campo falou. Hakimi ouviu — Endrick está pronto para a Copa do Mundo.