O Lincoln Financial Field, em Philadelphia, vai receber no dia 12 de junho uma seleção que não pisava num Mundial desde o Brasil-2014. Doze anos de ausência. Quando a Costa do Marfim entrar em campo contra o Equador às 20h (horário de Brasília), o técnico Emerse Faé terá à disposição uma lista de 26 jogadores que mistura veteranos curtidos na Premier League, na Serie A e na Bundesliga com uma geração que nunca conheceu a pressão de um grupo eliminatório em Copa do Mundo. O diagnóstico é simples: talento há. A dúvida é se há maturidade coletiva suficiente para sobreviver ao Grupo E, o mais desequilibrado em termos de peso histórico do torneio.

O que a convocação revela sobre o projeto de Faé

A lista divulgada nesta sexta-feira (15) tem em Sébastien Haller seu nome de maior peso simbólico e técnico. O centroavante do Borussia Dortmund — que superou um câncer testicular em 2022 e voltou a marcar na Champions League — carrega uma narrativa que vai muito além dos números. Mas os números existem e são relevantes: Haller acumula mais de 60 gols em competições europeias desde que chegou à Alemanha, uma produção que rivaliza com qualquer centroavante africano da atualidade. Ao lado dele, Franck Kessié, agora no Al-Qadsiah após passagem pelo Barcelona, traz a experiência de ter sido um dos melhores volantes da Serie A entre 2017 e 2022, quando o Milan de Pioli usava suas chegadas para criar superioridade numérica no meio. Serge Aurier, lateral-direito com passagens por PSG e Tottenham, fecha o trio de nomes que qualquer torcedor europeu reconhece imediatamente.

Faé optou por um esquema que oscila entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1, dependendo do adversário — uma flexibilidade que lembra, guardadas as proporções, o que Didier Deschamps fez com a França entre 2018 e 2022: adaptar o sistema ao elenco disponível, não o contrário. A Costa do Marfim de 2026 não tem o luxo de impor jogo; ela precisa reagir. Essa é, historicamente, sua maior limitação.

O peso de 12 anos fora e o que os números das edições anteriores ensinam

Para entender o que está em jogo, é preciso voltar a 2006, quando a Costa do Marfim estreou em Copas do Mundo na Alemanha. Naquele grupo infernal com Argentina, Holanda e Sérvia-Montenegro, os Elefantes perderam as três partidas e saíram sem pontuar. Em 2010, na África do Sul, avançaram para as oitavas com Drogba em forma — mas caíram diante de Portugal por 0 a 1. Em 2014, no Brasil, o mesmo destino: oitavas, eliminação para a Grécia nos pênaltis. Três participações, zero avanço além das oitavas de final. É um dado que o SportNavo já mapeou em análises anteriores sobre seleções africanas: nenhuma delas ultrapassou as quartas de final em toda a história da Copa do Mundo, e a Costa do Marfim representa o caso mais emblemático de potencial não convertido em resultado.

A comparação que me vem à cabeça é com a Dinamarca dos anos 90. Os dinamarqueses chegaram ao Euro-92 sem ter se classificado — substituíram a Iugoslávia — e ganharam o torneio. A lição não é que milagres acontecem; é que seleções com identidade tática clara e jogadores experientes em clubes de ponta podem superar favoritismos. A Costa do Marfim de 2026 tem os ingredientes. Falta a receita.

O Grupo E e o problema chamado Alemanha

O Copa do Mundo de 2026 colocou a Costa do Marfim num grupo que exige pontuação máxima nos jogos considerados acessíveis. Curaçao, estreante no torneio, é adversário obrigatório de vencer — os marfinenses enfrentam os caribenhos no dia 25 de junho, novamente em Philadelphia. O Equador, na estreia de 12 de junho, é um time fisicamente intenso que eliminou rivais sul-americanos com pressing alto e transições rápidas. Mas o jogo que define o grupo é o do dia 20, em Toronto, no BMO Field, contra a Alemanha.

A Alemanha chega ao torneio como uma das três seleções com mais títulos mundiais (quatro, empatada com a Itália, atrás apenas do Brasil com cinco). Historicamente, quando enfrenta seleções africanas em fases de grupos, o retrospecto alemão é devastador: sete vitórias em sete jogos contra times do continente africano em Copas do Mundo. A Costa do Marfim precisará de algo que Kessié conhece bem do Milan — bloco baixo, compactação no meio e transições letais. Curiosamente, a equipe italiana de 2021-22, com Kessié como titular, marcou 69 gols em 38 jogos do Campeonato Italiano, uma média de 1,8 por partida, sustentada exatamente por essa capacidade de explorar espaços em contra-ataque. É o modelo que Faé precisa replicar.

O que esperar da estreia em Philadelphia

O Equador de 2026 não é o mesmo que encantou na Copa do Qatar-2022, quando venceu o Senegal e chegou às oitavas. Perdeu peças importantes e reconstruiu o elenco com jogadores menos testados internacionalmente. Para a Costa do Marfim, é a janela ideal: três pontos na estreia colocam os Elefantes numa posição confortável para encarar a Alemanha sem a pressão de uma eliminação precoce.

"De volta a um Mundial depois de 12 anos, os Elefantes querem fazer história em sua quarta participação em Copas."

A frase que circula na imprensa marfinense resume bem a expectativa — mas história, no futebol, se faz com pontos na tabela, não com narrativas. Haller tem 30 anos, Kessié tem 29, Aurier tem 32. Esta é, provavelmente, a última Copa de todos eles. O calendário é implacável: 12 de junho, 20 de junho, 25 de junho. Três jogos, 270 minutos para decidir se a Costa do Marfim finalmente passa de oitavas — ou se a ausência de 12 anos se transforma em mais 12.