É um cofre com três fechaduras — todas travadas por contratos de ex-treinadores.
Essa é a imagem que melhor define o São Paulo de maio de 2026. O clube do Morumbi acorda esta segunda-feira (11) com um áudio do presidente Harry Massis circulando nas redes sociais, em que o dirigente admite, sem rodeios, que não há dinheiro para trocar o técnico Roger Machado. A declaração não é especulação de bastidor — é a voz do próprio mandatário, em desabafo que ele mesmo confirma ser verdadeiro.
O que Massis disse e por que isso importa financeiramente
No áudio, Massis é direto sobre a impossibilidade de demitir Roger Machado agora:

"Nós não temos condição de contratar, de trocar o técnico. Não temos dinheiro. Será que vocês não entendem que pegamos o São Paulo sucateado? Eles não pagaram nada o ano passado. Está sobrando tudo para mim. Não temos dinheiro. Não vou pagar mais uma multa."
A fala do presidente é um diagnóstico contábil disfarçado de desabafo emocional. Massis herdou uma folha de passivos que inclui multas rescisórias de pelo menos três treinadores anteriores: Dorival Júnior, Luis Zubeldía e Hernán Crespo — este último referente à sua primeira passagem pelo clube. Nenhum desses valores foi divulgado oficialmente pelo São Paulo, mas o presidente confirma que todos estão em aberto.
O dirigente também descartou publicamente a hipótese de contratar Dorival Júnior, atualmente no Corinthians:
"Falam em Dorival. Eu conversei com o presidente do Corinthians — ele e a comissão ganham R$ 2,8 a 3 milhões por mês. É uma loucura. Por favor, ajude. É o melhor que pode fazer."
O valor citado por Massis — entre R$ 2,8 milhões e R$ 3 milhões mensais apenas para o técnico e sua comissão — equivale a aproximadamente € 490 mil a € 520 mil por mês ao câmbio atual, um patamar incompatível com o momento financeiro do Tricolor.
A fila de multas que sangra o caixa tricolor
O São Paulo acumula rescisões de contratos de treinadores que já deveriam ser passado. Crespo foi demitido em 2021 na primeira passagem; Zubeldía deixou o clube no segundo semestre de 2025; Dorival Júnior encerrou seu ciclo antes de assumir a Seleção Brasileira. As multas rescisórias, que em contratos de técnicos de alto nível costumam variar entre 3 e 12 salários mensais, se somam a um passivo que o clube ainda não liquidou.
Sem os valores exatos publicados pelo clube, o mercado trabalha com estimativas. Se cada comissão técnica custava entre R$ 600 mil e R$ 1,2 milhão mensais — faixa compatível com o nível dos profissionais citados —, e as multas correspondem a pelo menos três meses de salário por treinador, o passivo total com ex-técnicos pode superar R$ 5 milhões. O SportNavo apurou que o clube não quitou essas obrigações até a data de publicação desta matéria.
Demitir Roger Machado agora significaria abrir uma quarta frente de multa rescisória — um custo que o caixa, segundo o próprio presidente, simplesmente não comporta.

Quanto vale o 6º lugar que Massis mira no Brasileirão
O presidente definiu uma meta objetiva: terminar o Brasileirão em 6º lugar para garantir vaga na Libertadores de 2027. Essa meta não é simbólica — tem valor financeiro direto.
A participação na fase de grupos da Libertadores garante ao clube brasileiro uma cota de entrada de aproximadamente US$ 3 milhões (cerca de R$ 17,4 milhões ao câmbio de maio de 2026), além das receitas por avanço de fase. Para um clube que enfrenta dificuldades para honrar multas rescisórias de técnicos, essa cota representa capital de giro relevante.
O São Paulo ocupa posição intermediária no Brasileirão 2026, e a distância para o G-6 ainda é administrável. Mas o resultado do último domingo (10) complicou o cenário esportivo: derrota para o Corinthians por 3 a 2 no Majestoso, em partida em que o placar não refletiu o domínio do Timão sobre o Tricolor.
A próxima partida do São Paulo é na quarta-feira (13), em Caxias do Sul, contra o Juventude, pela volta da quinta fase da Copa do Brasil. O clube precisa reverter ou confirmar classificação — o que adiciona pressão imediata sobre Roger Machado.
Roger Machado permanece por falta de alternativa, não por confiança
O técnico gaúcho segue no cargo por uma equação simples: demiti-lo custa mais do que mantê-lo. Essa distinção é decisiva para entender a dinâmica interna do clube.
Massis foi explícito ao dizer que não irá "trocar ninguém" e que o objetivo não é o título, mas a permanência na zona de classificação para a Libertadores. A declaração, ainda que honesta, expõe uma gestão em modo de contenção — não de crescimento.
A torcida tricolor, que já demonstrava insatisfação com o rendimento da equipe, agora tem um áudio do próprio presidente confirmando que a liderança do clube também está insatisfeita, mas paralisada pelas finanças.
O cenário coloca Roger Machado numa posição peculiar: protegido não por resultados, mas pelo saldo devedor do São Paulo com seus antecessores.
Se o São Paulo for eliminado pelo Juventude na Copa do Brasil na quarta-feira (13), Massis conseguirá sustentar o discurso de que trocar o técnico ainda não é viável — ou a pressão vai superar o custo da rescisão?








