Se o áudio de Harry Massis tivesse ficado em sigilo, São Paulo e Roger Machado ainda estariam juntos nesta quinta-feira. O presidente gravou, em mensagem de voz enviada a um amigo, que o clube não tinha condições financeiras de rescindir o contrato do treinador. Quarenta e oito horas depois, a eliminação na Copa do Brasil por 3 a 1 para o Juventude encerrou o debate. A demissão foi confirmada ainda em Caxias do Sul, logo após o apito final do árbitro Rodrigo José Pereira de Lima, na noite de 13 de maio.
A reunião no Alfredo Jaconi que durou minutos e custou um contrato
Roger Machado deixou o gramado do Estádio Alfredo Jaconi e se encontrou com o diretor executivo Rui Costa e o coordenador técnico Rafinha. A conversa foi curta. Segundo o próprio Rui Costa, em coletiva realizada após a partida, a decisão foi tomada em conjunto e a eliminação na Copa do Brasil pesou de forma determinante.
"O presidente sempre apoiou o Roger Machado com atitudes, que para mim valem mais do que palavras. No dia a dia do CT, sempre que nos encontrávamos, eu, Rafinha e o presidente, em reuniões de planejamento, ele transmitia ao Roger, inclusive nos momentos mais críticos, a sensação real de permanência no projeto. Portanto, não seria um áudio pontual que mudaria isso", declarou Rui Costa.
A fala do diretor executivo foi uma tentativa de contextualizar o vazamento sem amplificar o dano institucional. O esforço foi parcial: o conteúdo do áudio já circulava amplamente desde o início da semana e havia transformado a relação entre torcida e diretoria num ponto de tensão adicional, separado do desempenho da equipe em campo.
Roger assumiu o Morumbis em março de 2026, após a demissão de Hernán Crespo. Ao longo de 17 partidas, registrou sete vitórias, quatro empates e seis derrotas — aproveitamento de 47%. Nos últimos cinco jogos antes da eliminação, não venceu nenhum. Saiu com o São Paulo no G-4 do Brasileirão e na liderança do Grupo C da Copa Sul-Americana, mas sem Copa do Brasil.
O áudio que transformou a crise técnica em crise institucional
O conteúdo da gravação de Massis expôs uma realidade financeira que o clube preferia não tornar pública. No áudio, o presidente listou multas rescisórias em aberto: as de Dorival Júnior, Luis Zubeldía e Hernán Crespo (da primeira passagem). Nenhuma dessas contratações foi feita pela gestão atual.
"Nós não temos condição de trocar o técnico, não temos dinheiro. Será que vocês não entendem isso? Será que vocês não entendem que nós pegamos São Paulo sucateado? Eles não pagaram nada o ano passado, tá sobrando tudo pra mim", disse Massis na gravação.
A frase "não vou pagar mais uma multa" revelou, na prática, que a permanência de Roger Machado tinha um componente estritamente orçamentário — independentemente de resultados. O vazamento transformou a discussão técnica em auditoria pública das finanças do clube. Massis também afirmou no áudio que um sexto lugar no Brasileirão já seria suficiente para garantir a Libertadores, sinalizando expectativas rebaixadas em relação ao que a torcida considerava aceitável.
O impacto foi imediato. A pressão das arquibancadas, que já existia desde a derrota no Choque-Rei contra o Palmeiras, ganhou um argumento novo: a diretoria admitia, em conversa privada, que não via o técnico como a solução, apenas como a opção viável dentro do caixa disponível.
Como o SportNavo apurou, o passivo de multas rescisórias acumulado pela gestão anterior representa um custo fixo que comprime a margem operacional do departamento de futebol — e explica por que a busca por um substituto precisará considerar, antes de qualquer nome, o custo de rescisão do candidato.
Quanto custa a demissão de Roger Machado? O clube não divulgou o valor do contrato nem o montante da multa rescisória. Com base em referências de mercado para técnicos do mesmo patamar no Brasileirão — faixa de R$ 400 mil a R$ 600 mil mensais — e um contrato iniciado em março de 2026, a rescisão deve girar entre R$ 1,2 milhão e R$ 2,4 milhões brutos, dependendo das cláusulas negociadas. Esse número se soma ao passivo já existente.
Terceiro técnico na temporada e o mercado que o São Paulo pode pagar
Crespo abriu 2026 no comando, foi demitido para viabilizar a chegada de Roger Machado em março. Agora, o clube inicia a terceira busca do ano. A sequência de contratações e rescisões, além de gerar custos diretos, corrói o valor de mercado do cargo: técnicos com maior cacife tendem a exigir cláusulas de proteção mais robustas justamente em clubes com histórico de instabilidade.

Quantos treinadores de primeiro nível aceitariam assinar com um clube que demite três técnicos em menos de cinco meses?
O perfil financeiro do São Paulo em 2026 — com passivo rescisório herdado, folha de salários elevada e receitas pressionadas — limita o espectro de nomes viáveis. Segundo o Transfermarkt, o elenco tricolor tem valor de mercado estimado em cerca de € 120 milhões, o que coloca o clube entre os quatro mais valiosos do Brasil, mas esse ativo não se converte automaticamente em liquidez para o departamento de futebol.
A gestão interina ficará a cargo de algum membro da comissão permanente do clube enquanto a diretoria conduz as negociações. O próximo compromisso já está marcado: sábado, 16 de maio, às 19h, contra o Fluminense, no Maracanã, pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro. A escolha do novo técnico precisará estar concluída antes que a Copa Sul-Americana retome o calendário — o prazo mais concreto para Massis equacionar a conta que ele mesmo disse não ter como pagar está na reunião do conselho fiscal prevista para 28 de maio, quando o balanço do primeiro quadrimestre de 2026 será apresentado aos conselheiros.









